Café com ADM
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Marxismo revisitado

Do Oiapoque ao Chuí, uma onda vermelha varre a nação. A nova Era que se inaugura exige a releitura dos clássicos.

Do Oiapoque ao Chuí, uma onda vermelha varre a nação. A nova Era que se inaugura exige a releitura dos clássicos.

No seu tempo, ele foi um grande revolucionário. Depois de sua morte, quase foi esquecido. Tido como superado pela evolução de sua arte, sua memória foi perpetuada graças à dedicação de seus mais fiéis admiradores. Suas teses, antíteses e sínteses influenciaram milhões e garantiram a eternidade de seu pensamento. Agora, com a onda vermelha que varre Pindorama, é chegado o momento de rever seus ensinamentos. Nas entrelinhas de suas obras, descortinam-se caminhos para a sociedade, a economia e a vida empresarial. Sociólogos, economistas e executivos terão seus passos iluminados. Revisitado, seu pensamento representará a síntese de um novo modelo evolutivo, capaz de contrapor dialeticamente, claro! Milton Friedman e Fredrick Engels, Roberto Shiniashiki e Tom Peters.


Claro, me refiro ao insuperável Groucho Marx. Sua seminal obra inclui 26 filmes, dos quais 14 feitos com os irmãos Chico e Harpo. Antes de conhecer o sucesso, a trupe Marx trabalhou por 20 anos em pequenos shows, sempre aperfeiçoando sua prática revolucionária. A virada para a fama aconteceu em 1924 (note o leitor: 7 anos depois da revolução russa), com a estréia na Broadway. Seguiram-se peças, livros e filmes, muitos filmes. Groucho morreu em 19 de agosto de 1977. Deixou dezenas de fragmentos e aforismos, que agora podemos retomar.

Eu não quero fazer parte de nenhum clube que me aceite como sócio. Neste célebre fragmento, Marx antecipa a ambígua posição brasileira em relação a Alca e ao FMI. Por trás da negação, o desejo reprimido de ser aceito entre os eleitos.

Política é a arte de procurar por problemas, encontrá-los, realizar diagnósticos equivocados e aplicar as soluções erradas. Este princípio norteador parece ter orientado gerações e gerações de chefes de estado e líderes corporativos. Burocratas de vários matizes ideológicos o têm como guia mestre em decisões estratégicas.

Ou este homem está morto ou meu relógio parou. Em um aforismo de cunho metafórico, Marx parece antecipar a situação econômica na Argentina e Brasil, embora alguns pós-marxistas defendam que o ator de Uma noite na Ópera se refira às universidades públicas brasileiras.

Eu fui casado por um juiz. Eu devia ter pedido um júri. Usando mais uma vez linguagem metafórica, Marx está aqui se referindo à febre de fusões e aquisições. Como se sabe, no capitalismo tais movimentos são realizados com o duplo objetivo de engordar a carteira de CEOs e advogados e reduzir o valor das empresas.

Estes são meus princípios, se você não gostar ... eu tenho outros. Este trecho revela o pragmatismo marxista em sua mais elevada expressão. Infelizmente, o pensamento do mestre foi interpretado ao pé da letra pelos executivos de empresas como Enron e Global Crossing. Os resultados infelizmente aumentaram o ceticismo contra o pensamento do mestre.

Até hoje nunca li uma autobiografia que eu pudesse classificar de honesta. Noventa por cento das autobiografias são 100% ficção. Se as pessoas escrevessem a verdade sobre si próprias, não haveria cadeia que chegasse. Aqui, Marx antecipa próceres da vida corporativa como Jack Welch, Donald Trump e Lee Yaccoca.

Pagar pensão à ex-mulher é como servir feno fresco a um cavalo morto. As feministas costumam ler este aforismo como uma afronta machista e chauvinista. Ledo engano. Trata-se na verdade de um libelo pela desregulamentação do mercado de trabalho. Os pós-estruturalistas crêem que Marx se refere de forma oblíqua ao impacto devastador da tecnologia de informação sobre as mulheres, ou os cavalos, ou talvez ambos.

Todo mundo é capaz de envelhecer. Basta viver o suficiente para chegar lá.. A aparente redundância engana o leitor despreparado para a sofisticação marxista. O ponto essencial deste aforismo é a afirmação do avanço inexorável das forças produtivas como determinantes históricas da emancipação humana. Qualquer relação com o famigerado livro Feitas para durar pode ser mais que mera coincidência.

Depois de pérolas editoriais como Jesus CEO, Os segredos de liderança de Átila, o Huno e Shakespeare in charge, é chegado o momento de Marx on management. Pelos menos nos próximos 4 anos, Groucho será o guru mais sintonizado com o espírito do tempo.



* Este artigo foi originalmente publicado na Revista CartaCapital e faz parte do livro Abaixo o Pop-Management.
** A publicação foi autorizada pela Editora Campus-Elsevier.
twood@fgvsp.br



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