'Margin Call: O Dia Antes do Fim' e a desonestidade e ganância em Wall Street
'Margin Call: O Dia Antes do Fim' e a desonestidade e ganância em Wall Street

'Margin Call: O Dia Antes do Fim' e a desonestidade e ganância em Wall Street

Margin Call é sobre como seus personagens estão preocupados apenas com o bem estar de suas corporações, sem nenhuma inclinação de promover o bem público

Em minha experiência corporativa acumulada ao longo da vida, um ponto sempre me chamava a atenção nas empresas por onde passei: O código de ética. Tirando variações aqui e ali de uma empresa para outra, todas eram unânimes em ressaltar a inexorável importância da honestidade e transparência na relação dos funcionários com seus pares e principalmente com seus clientes. Este Margin Call: O Dia Antes do Fim (Margin Call, EUA, 2011), retrata a última noite de prosperidade em Wall Street, à medida em que uma implacável certeza começa a ganhar forma dentro de uma firma de investimentos: A de que após anos e anos de especulação desastrosa no mercado imobiliário, finalmente a bolha vai estourar.

Você provavelmente deve se lembrar desta mesma história sendo contada no movimentado A Grande Aposta (The Big Short, 2015), cuja crítica foi uma de minhas primeiras publicações aqui no Portal Administradores. E o cenário é praticamente o mesmo; a América parecia nadar na prosperidade e o mercado de ações batia recordes. Até que uma firma após a outra começou a declarar falência, a ponto da própria estrutura da economia americana como um todo ser ameaçada, forçando o congresso a recorrer no desespero à um gigantesco esquema de fiança. E o que isso tem a ver com a ética dentro dos negócios e no ambiente de trabalho? Calma que vamos chegar lá.

Margin Call acompanha os momentos que precedem a crise através de uma firma de investimentos que com certeza já deve ter uma ideia do que está por vir, já que 80% de sua força de trabalho acabou de ser demitida. Uma das vítimas é Eric (Stanley Tucci, de Spotlight: Segredos Revelados), cuja crítica também foi publicada há pouco tempo aqui no Portal Administradores. Eric é um analista de riscos sênior que assim como muitos de seus colegas foi incapaz de enxergar que o mercado imobiliário americano era tão frágil quanto uma casa de cartas de baralho. Apesar do filme do diretor e roteirista J.C. Chandor (do ótimo O Ano Mais Violento, 2015), demonstrar simpatia pela maioria de seus personagens, é importante lembrar que todos eles faziam parte do esquema de negociatas que ao mesmo tempo em que rendia gigantescos lucros e bônus para sua empresa, ajudava também a levar o país à bancarrota.

Enquanto se dirige à saída, Eric disfarçadamente entrega um pen drive para Peter (Zachary Quinto, da franquia Star Trek), um jovem analista que não estava na leva de demitidos. Quando Peter acessa o conteúdo do pen drive, a informação contida lá o perturba profundamente. E com razão. Enquanto o escritório está vazio e os sobreviventes estão festejando o fato de não terem sido despedidos, Peter constata que a firma e o mercado estão claramente na beira do abismo. Ele entra em contato com seu supervisor, Will (Paul Bettany, o Visão do universo cinematográfico Marvel), que após dar uma olhada nos números liga para o seu próprio chefe, Sam (Kevin Spacey, da série House of Cards). Outros também são convocados para uma reunião de emergência em plena madrugada, incluindo o CEO da empresa, John Tuld (Jeremy Irons, de O Regresso da Fortuna), que chega em seu helicóptero.

Assim como acontece em A Grande Aposta, não é preciso conhecer a fundo o mercado imobiliário para entender o andamento do filme. John é um britânico descolado e polido que gosta de dizer coisas do tipo "fale comigo em termos simples", porque seu trabalho requer que ele gerencie a corporação, mas não necessariamente entenda o negócio. Ou seja, ele personifica o leigo espectador, de certa forma. De fato, como sabemos hoje, e como A Grande Aposta também mostra, qualquer formando em economia poderia ter dado uma olhada cuidadosa nas planilhas e percebido que o mercado imobiliário já estava condenado.

Cabe a John fazer a “Margin Call” do título original do filme; Em outras palavras, cabe a ele ordenar que sua companhia comece a se livrar dos títulos de investimento sem valor antes que a notícia se espalhe e todos descubram que a empresa não vale mais nem um centavo. Ou seja, o que John essencialmente está fazendo, é trair seus clientes. O ápice desta falta de ética se materializa principalmente quando passamos a ter a consciência de que diversas firmas criaram fundos de pensão já com a intenção de irem à falência, só para fazerem mais dinheiro apostando contra o mercado imobiliário americano. Estes fundos de investimento eram abastecidos por títulos imprestáveis que por sua vez eram vendidos aos clientes, com o total conhecimento das empresas responsáveis e seus representantes.

Margin Call é essencialmente um filme sobre como seus personagens estão preocupados apenas com o bem estar de suas corporações, sem nenhuma inclinação de promover o bem público. Estas corporações são amorais e existem somente para sobreviver e prosperar, independente do custo humano da equação. Vejam bem, não estou criticando o capitalismo aqui, mas sim o fato de que Wall Street (e seus semelhantes em outros países, incluindo o Brasil), funciona em sua grande parte na base da desonestidade e ganância.

Margin Call emprega um excelente elenco que consegue transformar os entediantes e confusos jargões financeiros em diálogos cativantes. O elenco também consegue refletir a enormidade do que está acontecendo: Sua companhia e suas vidas estão se transformando em algo insignificante. Tal cenário se repetiu em várias instituições de Wall Street no outono de 2008, e mesmo assim uma reforma financeira fundamental ainda encontra oposição. O filme não dá nome aos bois, e nenhuma firma real é citada na narrativa. O personagem de Irons, "John Tuld," carrega um eco de Richard Fuld, o CEO do banco Lehman Brothers, caso notório de uma corporação financeira preocupada somente em coletar bonificações enormes ao mesmo tempo em que levava a economia do país ao colapso.

Irons está astuto no papel de um homem que sabe que sua própria estabilidade financeira é inabalável, que considera seu trabalho um exercício amoral, e que chegou ao topo principalmente pelo fato de não dar a mínima para as pessoas. Afinal, um bom executivo corporativo precisa ter uma veia de crueldade. Admirável também está Kevin Spacey, que projeta incisiva inteligência em seu personagem, além da bela Demi Moore (Até o Limite da Honra), no papel de uma executiva-sênior que sabe que chegou ao seu limite dentro da carreira.

O próprio mundo físico deste Margin Call: O Dia Antes do Fim também é extremamente efetivo na maneira com que mergulha o espectador no turbilhão sem escrúpulos de Wall Street. É tudo vidro, aço e protocolo, carros de luxo e regalias executivas. Luxuosos estilos de vida bancados pelo que depois foi constatado como fraude. Um dos personagens de Margin Call tem um cachorro, e o mesmo se encontra doente. Pois bem, o cachorro é a única criatura no filme todo capaz de ganhar a empatia do espectador.

Margin Call: O Dia Antes do Fim está disponível em canais a cabo e no mercado de Home-Video.

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    Eduardo Kacic

    Eduardo Kacic

    Eduardo Kacic é bacharel em administração com mais de 15 anos de experiência no mundo corporativo, até que decidiu se aventurar por sua paixão: O cinema. Hoje ele é roteirista de longa-metragens, crítico de cinema, palestrante e tradutor cinematográfico. É colunista de cinema no portal do jornalista Luiz Andreoli e agora também veste a camisa do Portal Administradores.

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