Macroeconomia: orçamento de pleno emprego versus orçamento de pleno investimento
Macroeconomia: orçamento de pleno emprego versus orçamento de pleno investimento

Macroeconomia: orçamento de pleno emprego versus orçamento de pleno investimento

Um orçamento de pleno investimento é, na verdade, menos inovação do que adaptação

A política econômica dos países desenvolvidos não comunistas tem sido baseada, nos últimos setenta anos, na crença da mão invisível do Estado de John Maynard Keynes: a demanda de consumo cria automática e seguramente investimento e emprego. Mas a evidência destes últimos trinta anos - e das políticas do New Deal ( programa de medidas políticas e econômicas adotado pelo presidente dos Estados Unidos da América - EUA - Franklin Delano Roosevelt a partir de mil novecentos e trinta e três, em grande parte baseado na teoria Keynesiana, com a finalidade de combater os efeitos devastadores da Grande Depressão ) de vinte anos antes - não conseguiu validar o teorema Keynesiano. E, nos últimos cinquenta ou cinquenta e cinco anos, a experiência real foi exatamente o oposto daquilo que Keynes postulava: políticas para aumentar o consumo resultaram em menor formação de capital, declínio do investimento, queda da produtividade, desemprego crescente e intratável, e autoilusões de um pouso suave.

Por muitos anos, a única exceção de país não keynesiano foi o Japão. Durante seus anos de rápido crescimento industrial e de emergência como grande potência econômica, o Japão construiu sua política econômica em torno da formação de capital, não do consumo. O resultado foi a maior taxa de poupança do mundo, o maior investimento, produtividade velozmente crescente, alta taxa de emprego, além de consumo crescente. Mas, há alguns anos, principalmente como resultado do segundo choque do petróleo que se seguiu a Revolução Iraniana de mil novecentos e setenta e nove, também o japão juntou-se ao clube. O país está tentando agora turbinar a demanda de consumo através de déficits continuamente crescentes no orçamento nacional - o que, naturalmente, é sempre popular no curto prazo, aparentemente indolor e, portanto, politicamente tentador. Porém, quase de imediato, a formação de capital começou a diminuir, e a taxa de aumento da produtividade desacelerou-se de forma acentuada. Se o Japão continuar na vida de prazeres keynesiana por mais alguns anos, também ele poderá tornar-se vulnerável à estagflação - a devastadora doença causada por formação inadequada de capital, produtividade em marcha lenta e consumo excessivo.

Até mesmo os keynesianos admitem agora que a maior necessidade econômica dos EUA é o rápido aumento da formação de capital. E praticamente todos os keynesianos, à exceção de uns poucos adeptos ferrenhos - encontrados mais entre os políticos do que entre os economistas - , também admitem agora que não existe varinha mágica nem um multiplicador keynesiano que automaticamente transforme demanda de consumo em capital e investimento. As necessidades de capital que há pela frente são realmente grades, podendo ser maiores que qualquer coisa que já foi enfrentada desde o explosivo aumento industrial da Segunda Guerra Mundial. Há a necessidade de automatizar rapidamente as velhas indústrias mais importantes, como a automobilística - se isto não for feito não haverá indústria automobilística em poucas décadas. As novas indústrias em crescimento - de telecomunicações, microprocessadores, bioengenharia, e assim por diante - exigem investimento maciço; todas elas são altamente intensivas de capital. Qualquer que seja a forma como se aborde o problema da energia - carvão, synfuels ( combustíveis sintéticos ) ou energia atômica - , o capital é a matéria prima básica necessária. E, desde mil novecentos e cinquenta ou mil novecentos e sessenta, tem sido permitida a erosão da área de transporte; ferrovias, portos e rodovias exigirão bilhões de capital a cada ano só para zerar a erosão.

Mas como a reconhecida e persistente necessidade de investimento pode ser incorporada no processo decisório e na política econômica? A resposta pode muito vem ser um orçamento de pleno investimento.

Há sessenta anos, no início da era Kennedy, foi desenvolvido o conceito do orçamento de pleno emprego. Partindo do postulado keynesiano de que o consumo cria investimento e, por conseguinte, emprego, o orçamento de pleno emprego calculava o montante de demanda de consumo adicional necessário para reduzir o desemprego para o número teoricamente considerado de pleno emprego. E aí - assim rezava a lógica do orçamento de pleno emprego - , os gastos do governo acima do orçamento seriam usados para dar aos consumidores a renda pessoal extra e o poder de compra maior necessários. Infelizmente, a teoria não funcionou na prática - os gastos acima do orçamento criaram a renda pessoal, mas seguidamente não conseguiram gerar o investimento prometido.

Um orçamento de pleno investimento não operaria por meio de déficits ou superávits orçamentários. Seu objetivo seria principalmente não fazer as coisas erradas - não penalizara formação de capital, a poupança e o investimento ou não subsidiar o consumo excessivo. Seu resultado mais importante, ao menos nos primeiros anos, provavelmente seria a identificação e o diagnóstico: Qual é o tamanho da distância entre o investimento que a economia americana precisa e o investimento que ela efetivamente recebe? E qual é o efeito que certas políticas econômicas, tributárias e monetárias têm sobre a formação de capital? Será que elas a incentivam ou desestimulam?

À semelhança do orçamento de pleno emprego, o orçamento de pleno investimento começaria pelos empregos. Quantos empregos a economia precisa gerar nos próximos três a cinco anos, e que tipos de empregos? E aí se perguntaria: "E quanto investimento é necessário para fornecer os empregos?". Porque, no cerne da necessidade de investimento está o fato de que os empregos para a força de trabalho de hoje e de amanhã exigem muito mais capital do que os empregos de ontem.

A melhor ilustração é a indústria mais avançada, mais quase totalmente automatizada, mais intensiva em conhecimento e, de longe, a mais produtiva: a agricultura. Os seiscentos mil agricultores comerciais de hoje, que respondem por ais de três quartos da produção agrícola, produzem três a quatro vezes aquilo que produziam os seis milhões de agricultores comerciais de mil novecentos e quarenta. Mas, em mil novecentos e quarenta, o investimento de capital por agricultor comercial era menos de trinta e cinco mil dólares em valores atuais. Hoje, está perto de duzentos e cinquenta mil dólares - sem contar sequer o investimento na educação do agricultor científico de hoje ou nos sofisticados serviços acessórios, serviços de marketing e serviços de crédito a ele fornecidos.

Na unidade industrial moderna de hoje, entre quarenta mil dólares e cinquenta mil dólares são investidos no emprego de um operário braçal, ou aproximadamente o que requeria o agricultor comercial de ontem. O trabalhador do conhecimento - o operador de máquina da linha de montagem que passa a ser um programador de máquina ou técnico do laboratório hospitalar automatizado - precisa do equivalente a duas a três vezes este investimento para fazer seu trabalho. A secretária de um escritório trabalha, hoje, com o equivalente a três mil dólares em equipamento. Sua sucessora, a especialista em informação do escritório do futuro, exigirá um investimento de capital perto de vinte e cinco mil dólares. Os ganhos de produtividade, conforme prova a agricultura, tendem a ser bem grandes, mas este não é o ponto principal. Realmente não há escolha. A mão de obra será progressivamente composta de pessoas qualificadas principalmente para trabalhar como trabalhadores do conhecimento, produtivos somente se equipados com as ferramentas que o trabalhador do conhecimento, produtivos somente se equipados com as ferramentas que o trabalhador do conhecimento requer e sustentados pelo investimento de capital apropriado. Oito em cada dez jovens que entram no mercado de trabalho concluíram o ensino médio - com quatro deles continuando a estudar por pelo menos mais dois anos. Assim sendo, a maioria espera fazer trabalho de conhecimento, na verdade não estando qualificada para outra coisa. Quer se goste ou não, se não forem criados empregos apropriados para o contingente de mão de obra e se não forem tornado produtivo, não haverá nem produtividade nem pleno emprego. De modo que um orçamento de pleno investimento é o único orçamento de pleno emprego que pode funcionar.

Um orçamento de pleno investimento é, na verdade, menos inovação do que adaptação. Um número crescente de empresas, especialmente as líderes - a AT&T, por exemplo, ou a General Eletric ( GE ) - considera o planejamento de investimento o cerne da sua estratégia. Estas companhias aprenderam que só conseguirão as vendas e os lucros que almejam se conseguiram atrair e investir o capital apropriado.

Da mesma forma, é preciso aprender que só haverá os empregos necessários se for feito o investimento de capital que eles requerem, mas que só serão atingidas as metas de emprego e produtividade se a formação de capital for adequada.

Conforme todo estudante do primeiro ano de economia aprende, Keynes, há noventa anos, repetiu a Lei de Say, segundo a qual a poupança criaria automaticamente o investimento. Mas a Lei de Keynes, que ensinava que o consumo criaria automaticamente o investimento, mostrou-se ainda menos válida. O que se aproxima muito mais da verdade do que a Lei de Say ou a Lei de Keynes é que o investimento produz emprego. Com efeito, todo mundo - seja conservador ou liberal, keynesiano , friedmaniano ou economista do lado da oferta - aceita isto agora. Mas, até o momento, não há um mecanismo para converter esta percepção em política e em ação efetiva; não há, até o momento, um orçamento de pleno investimento. Outras informações podem ser obtidas no livro Os novos desafios dos executivos, de autoria de Peter F. Drucker.

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