Machismo corporativo: o preconceito de terno e gravata

Homens e mulheres. A clássica disputa têm um novo palco: o escritório. Veja como o machismo está presente no ambiente corporativo em pleno século XXI. Como sua empresa se posiciona neste assunto?

Por Gladis Costa

As mulheres percorreram um longo caminho no mercado de trabalho. Conquistaram posições de destaque dentro das empresas, até mesmo a área de TI - um grande reduto masculino - já está mais charmosa. Não existem mais só paletós e gravatas neste espaço. Já começam a chegar as roupas mais transadas, porque claro, mulher tem muito mais opção nesta área, vamos e venhamos. Chega também a intuição feminina e mulheres que mandam muito bem na área de tecnologia. O ambiente ficou mais equilibrado, podemos afirmar.

Mas assim como em um jardim que você cuida, trata, arranca as ervas daninhas e elas voltam, no ambiente corporativo, tão modernizado, sofisticado, “gerenciando” as desigualdades, apresentando ações de cidadania e respeito, você ainda vê – com uma indesejável frequência - algumas atitudes que poderiam ser consideradas meio machistas. Nem estamos falando da maioria de altos cargos destinados aos homens, salários mais altos e outras benesses, mas algo quase imperceptível, que nos faz refletir não no momento que acontece, mas um pouco depois. Como um alimento que não caiu bem, aquela queimação no estômago! Sim, ainda existem ações que evidenciam que diante das leis trabalhistas, todos são verdes – mas em nuances muito diferentes!

Alguns exemplos destas manifestações podem ser vistas quando você não tem filhos ou marido, por exemplo. Em 90% dos casos é você que vai ter que fazer as honras da casa e levar o visitante – estrangeiro ou não, para almoçar ou jantar no fim de semana, porque, bem, os “meninos” têm família – e dela não vão abrir mão para cuidar de alguém que pode nem estar ligado ao seu departamento, mas puxa, “você não tem ninguém mesmo, custa”?

Se a “tia” do café faltar, nenhum dos rapazes vai arregaçar as mangas, fazer o café e avisar todo mundo que bem, o café está servido. Se depender dele e pensando em seu próprio bem estar, ele vai até a padaria mais próxima e resolve seu problema. Simples assim. Mas é claro que você vai dar um jeito nisto em 5 minutos, por que não? Que parte de engenharia da NASA existe numa inocente cafeteira?

Também é triste comprovar que se as “esposas” destes rapazes não trabalham, qualquer motivo é válido para serem arrancados do local de trabalho, porque “pintou um vazamento, vem pra cá”. Bom, nós chamamos alguém, pagamos o serviço, deixamos a chave na mão do zelador e corremos para o escritório, porque há tanto a ser feito e o trabalho não vai se fazer sozinho.

Uma amiga, diretora de uma escola infantil, comenta que todas as vezes em que são chamados pais e mães para as reuniões, elas largam tudo e vão ouvir o que a escola tem para falar sobre seus rebentos. Só neste caso, elas largam o trabalho, mas simplesmente pelo fato de que o “trabalho” do marido é infinitamente mais importante que o dela. Ele não pode sair do escritório, mas ela – como boa mãe –e aí as características femininas são mais do que bem vindas, deve sair correndo, largar tudo e voar para a escola, porque, seu marido executivo não pode perder um minuto sequer de sua atribulada agenda para saber se o filho está sofrendo ou praticando ações de “bullying” ou se seu aproveitamento está dentro da média. E aqueles que vão, muito a contragosto, ficam bufando, olhando para o relógio o tempo todo, para saber que horas o “suplício” vai ter fim. Como se o fato de participar de uma reunião na escola pudesse diminuir seu valor no mercado: “Olha lá Fulano de Tal, que tipo de trabalho ele tem, se pode participar de uma reunião de pais e mestres?”, algo assim.

Minha amiga comentou até que numa destas ocasiões, o pai “escalado” para participar da reunião porque a mulher estava viajando, “esqueceu” de buscar o menino na escola. Claro, “saiu da rotina, mudou totalmente a configuração de sua agenda”. Esta deve ter sido a desculpa dada para a desesperada mãe quando a escola entrou em contato para dizer que o Juninho estava ficando um pouco ansioso e perguntando pela mãe.

A verdade é que nossas “valorizadas” características como sensibilidade, intuição, espírito de união são usadas para atividades como decorar o escritório, organizar festinhas de aniversário e fim de ano, entreter o filho do chefe que adora pintar o carpete da empresa – sim, neste momento é importante contar com uma mulher no pedaço. Quem resolveria isto tão bem? Eles não têm “cabeça” para isto...Porém, quando esta mulher senta na cadeira do chefe, em cargos de liderança, é vista como prepotente, mandona, arrogante, chorona – atributos diametralmente opostos às qualidades tão bem delineadas de nossos colegas do sexo oposto: o prepotente pode ser traduzido como “poderoso”, o “mandona” dela vira “assertivo” do lado dele, o arrogante se transforma em “alguém que sabe o que quer, que não se deixa abater” e o chorona, oh céus, pasmem, significa que ele - o chefe - “tem uma alma feminina!”.

Se para nós, chorar pode revelar um momento de fraqueza, a lágrima dele vai ser estampada nos jornais, como um momento de emoção, sensibilidade, fragilidade – algo tão simples e ao mesmo tempo tão belo! Dois pesos, várias medidas! Vai entender!

Gladis Costa é formada em Letras, com pós-graduação em Jornalismo, Comunicação Social e especialização em Tecnologia e Negócios pela PUC-SP. Em 2005 lançou seu primeiro livro de crônicas, “O Homem que Entendia as Mulheres”. Atualmente é Gerente de Marketing e Comunicação da PTC para a América Latina.

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