Quando resolvi me juntar a rede social LinkedIn, em julho/2010 o site contava com um pouco mais de um milhão de perfis de pessoas com origem brasileira (o que significa nos dias de hoje que eu, sozinha, teria em torno de 1% de conexões dentro de toda a rede brasileira) e apenas dois anos depois, em 2012, já anunciava na TEC MUNDO http://www.tecmundo.com.br/redes-sociais/31418-linkedin-atinge-marca-de-10-milhoes-de-usuarios-no-brasil.htm e EXAME.com http://exame.abril.com.br/tecnologia/noticias/linkedin-chega-aos-10-milhoes-de-usuarios-no-brasil ), que ultrapassara a casa dos 10 milhões de usuários no Brasil.

Naquele ano de 2012 a EXAME publicava uma curiosa pesquisa sobre o perfil dos brasileiros que utilizavam a rede social, indicando que 38% dos entrevistados afirmavam ser bons negociadores e 63% revelaram produzir listas (?) como forma de organização e possuir habilidades relacionadas ao software Microsoft Office, Power Point, Marketing, inglês, sendo que a habilidade em negociação era uma das competências mais listadas pelos brasileiros presentes na rede (daí que não mudou muito...)

Surpreendentemente, quase dois mil profissionais se referiam ao seu cargo como “DJ” (hoje, metade dos adolescentes poderiam fazer parte dessa estatística) e pelo menos 900 pessoas faziam referência ao futebol em seu perfil (particularmente eu não aconselharia ninguém a fazer isso hoje, exceto se for para captar audiência, o que pode facilmente ser conseguido com uma bela imagem de por do sol e um pedido de “Amém” para explodir em likes e compartilhamentos).

De 2010 pra cá não se passaram seis anos e a rede possui agora mais de 20 milhões de usuários somente no Brasil e tudo indica que esse número tende a aumentar exponencialmente nos próximos meses.

Até então, 2010, eu era totalmente avessa as redes sociais, tinha horror ao Orkut, demorei a aceitar o FaceBook como algo que trouxesse algum tipo de valor para a vida pessoal ou profissional e até hoje ninguém logrou me convencer da utilidade do Instagram, Twitter e outras redes do tipo que vejo pulular na World Wide Web, transformando jovens desconhecidos em milionários da noite para o dia e rendendo películas premiadas com a história da sua “inusitada criação”.

Não me recordo de como cheguei aqui: "Só sei que foi assim"; e agora após quase seis anos observando os comportamentos : meu, seu, nosso, vosso e deles na rede; pude perceber que, longe da maquiagem feita nos perfis profissionais para furar a fila do desemprego, existe um verdadeiro processo e fases de luto das pessoas para elaborar e lidar com a perda dos seus empregos, muito semelhante ao que acontece com quem sofre uma falência, uma traição amorosa, um divórcio ou o fracasso em uma competição esportiva.

Seja qual for o tipo de perda forçada de alguém ou algo a que nos afeiçoamos, ela virá sempre acompanhada de uma confusão de sentimentos como torpor, raiva, tristeza, culpa, ansiedade e normalmente o indivíduo passa por algumas fases até a aceitação da nova realidade para continuar o seu caminho.

O modelo de Kübler-Ross*, que descreveu um processo de cinco estágios pela qual as pessoas passam para lidar com uma perda, pode ser observado no luto de um desempregado através do Linkedin:

Fase 1) NEGAÇÃO

O demitido sai da empresa com o Aviso de Despedida impresso, normalmente dobrado em quatro partes, para não fazer volume e nem atrair a atenção, com um misto de alívio-desespero, engolindo sem saliva e não comenta com ninguém sobre o assunto. É a fase a “ficha ainda não caiu”! Não chora, não se desespera, parece ter entrado em uma tigela de gelatina ou colocado o filme no modo slow-motion.

Nesse momento não passa por sua cabeça sequer a existência de empresas de recolocação, head-hunters, LinkedIn e outras do gênero, até porque fazia anos que não atualizava seu perfil, aliás, será que tinha um?

Fase 2) RAIVA

O dia amanhece e com ele a realidade: o despertador não toca, não é preciso levantar as pressas para fugir do trânsito, responder a e-mails, o telefone corporativo já não está na cabeceira, e ao olhar para o telefone “peba” que até então estava jogado no fundo da gaveta, agora ativado sobre o criado- mudo, desliga-se a câmera lenta e o cidadão é tomado por uma onda de ódio, furor e ressentimentos contra toda a humanidade. Começam os questionamentos: por que comigo? “O Zé, morto de preguiça, está lá”. “Seu” Paulim também. Nossa, aquele era ruim de serviço...”. E eu? Que sempre cheguei pontualmente, fiz hora extra, dei meu sangue e VESTI A CAMISA DA EMPRESA estou desempregado? Mundo cruel... Quer saber? Vou tirar uns dias para ficar a toa e logo arranjo outra coisa.

Fase 3) BARGANHA

Os dias passam, e mesmo tendo ficado conectado por horas no Facebook, lamentando-se com os ex-colegas, que ainda tentam não te ignorar, mas por medo de ser flagrados falando com o DESPEDIDO, vão se afastando lentamente, nenhuma oportunidade de recolocação aparece e o furioso se recorda de que em algum momento fez um cadastro no Linkedin, e por lá muita gente repetia a mesma coisa, como: “é preciso fazer networking”, “é necessário ser visto para ser lembrado”, “peça ajuda aos seus contatos” etc.

Acordou o barganhador: “Cadê a minha senha? Como é que eu acesso mesmo? Nossa, que perfil antigo! Nem foto eu coloquei... Como funciona esse negócio?”

Dispara convite e mensagem de A a Z para quem quer que ocupe um cargo que ele considere estratégico, desde que seja no RH, gerência, diretoria e até presidência, afinal de contas não é o momento para ter pudores; mas tudo se mostra ineficiente e a vaga não aparece.

O barganhador cai em si: é melhor ser mais gentil e simpático com as pessoas e pedir uma indicação, um compartilhamentozinho do perfil, uma ajuda com a formatação da página, uma divulgação do seu CURRICULUM VITAE, ainda com esse título, informando no resumo ser pessoa de ótimo relacionamento, dedicado, pontual, pronto para ajudar em todas as tarefas e desejando ajudar a empresa a atingir os seus objetivos.

Os que estão por ali já há algum tempo se compadecem, e rola o samba da branquela maluca ou o do crioulo doido. Faz centenas de novas conexões.

Encontrei meu melhor amigo! Ele me entende. Seremos amigos FOREVER AND EVER. E o tempo passando, a grana da rescisão já foi , o seguro seguiu junto, mas as contas insistem em aparecer embaixo da porta e a pressão aumentando, aumentando, aumentando, até que...

Fase 4) DEPRESSÃO

Nada aconteceu, seu networking não rendeu lá essas coisas e ele se pega cantando: Apesar de termos feito tudo, tudo, tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos...

Os recentes ex-melhores amigos se reempregam e vão reduzindo os contatos, sob os argumentos de falta de tempo, falta de acesso a internet ou simplesmente não querem mesmo mais ouvir as suas lamúrias, já que pra ele “rolou” e agora é vida que segue e o depressivo vai se retirando do círculo, percebendo que networking não é uma fórmula mágica e passa a acreditar que a ajuda que recebeu na verdade de nada lhe serviu e é melhor investir na carreira solo. Pensamento semelhante segue com seu recente ex-melhor amigo: recoloquei-me porque sou bom, networking é o que mesmo?

Fase 5) ACEITAÇÃO

Como não é da natureza das coisas serem eternas o raivoso-negociador-depressivo, passa a aceitar a dura realidade e segue por caminhos alternativos: permanece disfarçado no meio da multidão pra acompanhar o movimento da rede e aproveitar o que é compartilhado, consegue se reempregar e sai à francesa ou decide por participar ativamente apoiando quem pede a sua ajuda, já que agora é um experiente usuário da rede e decidiu que a sua missão vai além de conseguir se recolocar no mercado.

Superadas as fases, reempregado, aqueles momentos vão se dissipando na memória, o recente ex-melhor amigo era o... Qual era mesmo o nome dele?

O indivíduo sequer se recorda da sua senha de acesso à rede, até a próxima onda chegar.

OBS: se voce gostou do texto, compartilhe, para que mais pessoas possam ter acesso.