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LÍDERES : O individualista, o estrategista e o alquimista

O individualista A lógica de ação Individualista reconhece que nem ela nem qualquer outra lógica é natural. São, todas, interpretações do próprio indivíduo e do mundo. Essa idéia aparentemente abstrata permite aos 10% de líderes Individualistas oferecer um valor prático singular à organização. Esse líder coloca personalidades e formas de se relacionar em perspectiva e se comunica bem com gente que tem outras lógicas de ação. O que diferencia o Individualista do Realizador é a consciência que tem de um possível conflito entre seus princípios e seus atos, ou entre os valores da organização e a implementação desses valores. Esse conflito se torna fonte de tensão, criatividade e de um crescente desejo de maior desenvolvimento. O Individualista também tende a ignorar regras que julga irrelevantes, o que muitas vezes o torna uma fonte de irritação para colegas e chefes. Então, o que você acha?, um de nossos clientes perguntou ao cogitar se demitia ou não uma de suas melhores profissionais, que fora classificada como Individualista. Sharon (nome fictício) fora encarregada de montar na República Checa um departamento para dar suporte de TI a duas divisões separadas da empresa, que atuavam no país e internamente eram concorrentes. Sharon formou uma equipe tão coesa, dentro do orçamento e adiantada no prazo, que passou a brincar que estava prestando os serviços antes que o braço de avaliação de risco tivesse concluído um relatório dizendo que aquilo não podia ser feito. O problema é que, na organização como um todo, Sharon tinha a fama de imprevisível. Embora demonstrasse grande astúcia política quanto a seus projetos individuais, ela deixava muita gente desconcertada com seus modos singulares e anticonvencionais de atuar. Por fim, o presidente foi chamado (e não pela primeira vez) a resolver um problema criado pela incapacidade dela de aceitar processos organizacionais importantes e gente que não fosse de sua equipe. Muitas das dinâmicas criadas pelas diferentes lógicas de ação são ilustradas por essa história e seu desfecho. O presidente, cuja lógica de ação era a de Realizador, não via saída para forçar Sharon a se desenvolver e a deixar de criar tais problemas. Embora na dúvida, decidiu mantê-la porque Sharon estava cumprindo metas e porque a empresa tinha recentemente perdido diversos gestores talentosos, ainda que anticonvencionais. Sharon ficou, mas só por um tempo. Acabou deixando a empresa para montar uma consultoria de offshoring. Na segunda metade desse artigo, quando estivermos examinando maneiras de ajudar o executivo a transformar sua lógica de ação, voltaremos a esse caso para ver como Sharon e o chefe poderiam ter transformado a própria lógica. O Estrategista O Estrategista representa apenas 4% dos líderes. O que o diferencia do Individualista é o foco em limitações e percepções organizacionais, que encara como passíveis de questionamento e transformação. Enquanto o Individualista é um ás da comunicação com colegas de diferentes lógicas de ação, o Estrategista domina o impacto organizacional de segunda ordem de atos e acordos. O Estrategista é também adepto de criar visões compartilhadas por diferentes lógicas de ação visões que incitam transformações tanto pessoais quanto organizacionais. Segundo a lógica de ação do Estrategista, a mudança organizacional e social é um processo iterativo de desenvolvimento que requer consciência e forte atenção da liderança. O Estrategista está mais à vontade com o conflito do que quem tem outras lógicas de ação, e também conduz melhor a resistência instintiva das pessoas à mudança. Por isso, o Estrategista é um agente de mudança altamente eficaz. Foi o que confirmamos num recente estudo com dez presidentes de seis setores distintos. Todas as suas organizações tinham o objetivo declarado de se transformar e haviam contratado consultores para tanto. Cada presidente preencheu um Leadership Development Profile, o que indicou que cinco deles eram Estrategistas e cinco se encaixavam em outras lógicas de ação. Os Estrategistas conseguiram gerar uma ou mais transformações organizacionais num período de quatro anos e a rentabilidade, a participação de mercado e a reputação de suas empresas melhoraram. Em contraste, só dois dos outros cinco presidentes puderam transformar sua organização apesar da ajuda de consultores, que em si eram Estrategistas. O Estrategista é fascinado por três níveis distintos de interação social: relacionamentos pessoais, relações organizacionais e desdobramentos nacionais e internacionais. Vejamos o caso de Joan Bavaria, presidente que, em 1985, se classificou como Estrategista. Bavaria criou um dos primeiros fundos de investimento socialmente responsáveis, novo segmento do setor de investimentos que, ao final de 2001, administrava mais de US$ 3 trilhões em fundos. Em 1982, fundou a Trillium Assets Management, empresa controlada pelos trabalhadores e que até hoje dirige. Também foi uma das autoras dos princípios ambientais da CERES, firmado por dezenas de importantes empresas. No fim da década de 1990, a CERES, em parceria com a ONU, criou a Global Reporting Initiative, que promove a transparência financeira, social e ambiental, bem como a prestação de contas por empresas, ao redor do mundo. Aqui vemos a lógica Estrategista em ação. Bavaria detectou um momento singular no qual tornar o investimento ético um negócio viável e, para executar o plano, criou a Trillium. O Estrategista em geral tem idéias de negócios socialmente conscientes que são executadas de modo altamente colaborativo. Busca entrelaçar visões idealistas com iniciativas pragmáticas, na hora oportuna, e também ações fundadas em princípios. Bavaria atuou além das fronteiras da própria organização para influenciar todo o setor de investimento socialmente responsável e, mais tarde, ao envolver a ONU, fez da criação de padrões de responsabilização social e ambiental uma empreitada internacional. Muitos Realizadores usam sua influência para promover as próprias empresas. O Estrategista trabalha para criar princípios e práticas éticas que extrapolem os interesses próprios ou da empresa. O Alquimista A última lógica de ação para a qual temos dados e experiência é a do Alquimista. Nossos estudos dos poucos líderes situados na categoria Alquimista sugerem que o que os diferencia de Estrategistas é a capacidade de renovar ou mesmo reinventar a si e a suas organizações de modo historicamente significativo. Enquanto o Estrategista transita de um compromisso para o outro, o Alquimista tem uma extraordinária capacidade de lidar simultaneamente com várias situações em diversos níveis. O Alquimista é capaz de falar com reis e súditos, é capaz de tratar de prioridades imediatas sem perder de vista metas de longo prazo. Os Alquimistas compõem 1% da amostra, o que indica quão raro é encontrá-los, nos negócios ou onde quer que seja. Por meio de um extenso processo de busca, descobrimos seis Alquimistas que se dispuseram a participar de um estudo minucioso de seus atos cotidianos. Embora esse seja um número muito pequeno, que não justifica generalizações estatísticas, vale a pena observar que todos os seis Alquimistas compartilhavam certas características. No dia-a-dia, todos eram envolvidos com diversas organizações e achavam tempo para tratar das questões de cada uma. Contudo, não viviam em constante correria tampouco dedicavam horas sem fim a uma única atividade. O Alquimista, em geral, é um indivíduo carismático, extremamente ciente e guiado por altos padrões morais. Foca intensamente a verdade. Talvez mais importante, é capaz de captar momentos singulares na história da organização, criando símbolos e metáforas que falam ao coração e à mente das pessoas. Numa conservadora empresa de serviços financeiros no Reino Unido, um presidente recém-empossado apareceu no trabalho vestindo agasalho de corrida em vez do típico terno, mas não comentou nada com ninguém. Todos se indagavam se seria o novo padrão de vestuário. Semanas depois, o presidente falou publicamente sobre o traje e a necessidade de fugir ao convencional e de agir com mais agilidade e velocidade. Um exemplo mais celebrado de Alquimista é Nelson Mandela. Embora não tenhamos montado um perfil formal de Mandela, ele exemplifica a lógica de ação Alquimista. Em 1995, Mandela simbolizou a unidade de uma nova África do Sul ao participar de um jogo da copa mundial de rúgbi no qual o Springboks, a equipe nacional sul-africana, se apresentava. O rúgbi fora um bastião da supremacia branca, mas Mandela foi à partida. Entrou em campo vestindo a camisa do Springboks, tão odiada pelos negros do país, ao mesmo tempo fazendo a saudação de punho cerrado do Congresso Nacional Africano, num apelo, quase impossível tanto a negros como a brancos. Tokyo Sexwale, ativista do Congresso Nacional Africano e premiê da província sul-africana de Gauteng, disse: Somente Mandela poderia vestir a camisa do inimigo. Somente Mandela iria lá e se associaria aos Springboks () Todos os anos na clandestinidade, nas trincheiras, a negação, a autonegação, a distância de casa, a prisão, tudo valeu a pena. Era tudo que queríamos ver. Fonte: Último Segundo
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