Liderar ou chefiar, eis a questão

Por que muitas pessoas ainda exercem apenas o papel de chefes, mesmo tendo acesso ao conhecimento técnico de liderança, e não a liderança, que é comprovadamente mais benéfica para a organização?

É comum ouvir lamentos sobre uma chefia ou liderança ruim ou péssima em rodas de amigos, com a família e em qualquer meio social que reúna duas ou mais pessoas. Mesmo com tanta informação disponível nos dias de hoje sobre a importância de se liderar para alcançar melhores resultados no campo das organizações, enfatizando os benefícios de ser líder e os malefícios de ser apenas chefe, ainda nos deparamos com diversos exemplos destes profissionais que adotam este perfil negativo de comando. Para entender um pouco mais o que compõe um mau gestor, surge a questão motivadora para este artigo.

Por que muitas pessoas ainda exercem apenas o papel de chefes, mesmo tendo acesso ao conhecimento técnico de liderança, e não a liderança, que é comprovadamente mais benéfica para a organização?

Bem, busco acender a discussão sobre o tema e não tomar como verdade absoluta esta resposta, espero preencher uma lacuna importante sobre o pensamento do que é exercer a liderança.

Recentemente psicólogos apontaram três características que descrevem as pessoas mais cruéis: o maquiavelismo, caracterizado pela manipulação cínica; o narcisismo, que determina o quanto uma pessoa é autocentrada; e a psicopatia, uma combinação entre a impulsividade arriscada e a insensibilidade.

Estudos científicos sugeriram que a psicopatia é ligeiramente mais comum em cargos de chefia, pois o comportamento frio, impiedoso e até arriscado seria necessário no ambiente de trabalho para alcançar os resultados.

Visto por um ângulo histórico e de que as organizações são reflexo da sociedade em que está inserida, percebemos que sim, é comum perfis como este terem tido sucesso em organizações e até prevalecerem até os tempos de hoje.

Eu particularmente já me deparei com um chefe que demonstrava as 3 características, o que depois com meus estudos sobre o tema identifiquei o que os psicólogos denominam de “tríade do mal”. Estas pessoas normalmente são vaidosas, manipuladoras e insensíveis. Não é incomum termos traços dessas características em nossa personalidade, sendo que na maioria das vezes, apresentamos mais um aspecto do que os outros, em níveis normais que não chegam a patologia, dispensando auxílio médico.

Ainda pensando sobre o ponto de vista histórico vemos que a humanidade vem numa trajetória de mudanças de conceitos, onde certos perfis que antes eram valorizados, hoje estão entrando em decadência.

O perfil frio e impiedoso de certo modo ainda é reflexo de uma época em que não existiam muitos meios para propagar as informações. A velocidade em que gerava desconforto com determinado acontecimento era infinitamente inferior ao que temos hoje, isso quando se tomava conhecimento do ocorrido. Quantos negros não foram covardemente agredidos, torturados e mortos nos tempos de escravidão? Hoje esse tipo de perversidade e covardia causam certo desconforto em escala nacional, a exemplo do jovem negro que foi torturado e amarrado despido em um poste e virou notícia largamente explorada em diversos meios de comunicação em 2014, levantando questões sobre racismo, menor idade penal e violência.

A revolução industrial nos trouxe muito desenvolvimento, mas também deixou seu estilo de liderar incrustado na sociedade, onde para ser chefe devemos atuar de forma obstinada e inconsequente para alcançar os resultados. Nesta época, Marx empregou o termo “porosidade”, se referindo à medição da intensidade do trabalho, onde os tempos mortos são chamados de “porosos” que estão inseridos na jornada do trabalhador e cuja existência o capitalista pretende diminuir. Logo, porosidade é um indicador, quanto menor melhor. Assim quanto menor o tempo “poroso”, ou seja, sem produção, melhor para o capitalista.

Isso deixou a sociedade com a ideia de que deve-se trabalhar muito para obter resultados maiores e melhores. Mas isso não é uma verdade absoluta, pois se trabalharmos juntos podemos realizar mais com menos e em menos tempo, desde que bem liderados.

Existem pessoas que ainda tem resquícios destas épocas, comprovado através do racismo e do perfil psicopata, este caracterizado por ser frio e impiedoso. Estes Indivíduos costumam dizer “pessoas são um mal necessário para nossa operação”. Eles também costumam ameaçar seus “subordinados” quanto a permanência no trabalho com frases como “a porta da rua é serventia da casa”. Eles acham sempre um culpado e adoram bajuladores.

Devido ao egocentrismo e a acreditarem que são donos da verdade por exercerem o cargo de chefe, não encaram os benefícios de trabalhar o coletivo. Não conseguem compreender que os tempos mudaram, que é preciso liderar para alcançar melhores resultados e continuam a realizar as mesmas coisas esperando resultados diferentes.

Voltando aos bajuladores, este tipo de chefe os adora pois sabem que estes são importantes para o seu crescimento profissional. Os bajuladores irão promover seus feitos. Mesmo que estas realizações tenham sido de um trabalho em equipe e esforço conjunto, o chefe encontra uma forma de se autopromover e o bajulador irá reforçar como se o maior esforço do grande feito adveio deste chefe, mesmo sem base técnica nenhuma, apenas política.

Um exemplo, quem não participou de uma reunião importante, onde o chefe foi questionado ou criticado, tecnicamente, e ao titubear, não viu a interrupção do colega bajulador defendendo o ponto de vista do chefe, mesmo sem fundamentação lógica ou dados que ajudassem a nortear o pensamento?

Sem dados, somos apenas mais uma pessoa com uma opinião. A bajulação de certa forma, é utilizada pelo chefe para aumentar seu próprio poder.

Chefes com este perfil e bajuladores são extremamente maléficos a qualquer organização, pois não utilizam o potencial máximo da equipe. Os membros da equipe que não são bajuladores não se sentem confortáveis e muitas vezes não tem espaço para expor suas ideias e soluções, tomando muitas vezes como saída a busca por outro trabalho ou meio de vida, resultando em uma fuga de capital humano competente da organização.

Um novo cenário está por se concretizar em nossa realidade sobre liderança. A sociedade, em constante mudança, busca não apenas o interesse próprio e ganho material, ideias centrais do capitalismo original, mas o que a tem motivado são interesses colaborativos, com profundo desejo de se conectar aos outros e compartilhar experiências.

Desta forma o chefe que pretende alcançar resultados melhores em sua organização deve liderar sua equipe, tendo em mente que o coletivo sempre será superior ao individual, não importa quem seja. Deve resignificar algumas crenças, principalmente a de que para se ter sucesso deve-se ter foco total no trabalho, a custas de si mesmo, da família e da sociedade, assim como, desenvolver competências comportamentais para liderar, pois toda equipe precisa de inspiração e está só vem quando o líder acredita em todo poder de sua equipe unida.

Toda mudança gera crise e muitas pessoas estão dispostas ou preparadas para transcender. O perfil não foi simplesmente inserido nestas pessoas. Elas em algum momento das suas vidas perceberam que este perfil foi valorizado pela sociedade e que deram resultados, e por isto continuaram agindo da mesma forma até passarem por um “baque” e serem forçadas a refletir. Este tipo de mudança demanda muito esforço, humildade e coragem para realizar um “mergulho” em autoconhecimento e para buscar respostas que nem sempre se quer ouvir.

Em processos de Coaching, aplicamos algumas ferramentas para obtenção de feedback na busca de diagnosticar a situação atual, ou ponto A, quando necessário, e a partir daí traçamos juntos com o Coachee o percurso para o objetivo, ou ponto B.

Quem busca a liderança, e não apenas a chefia, precisa de um esforço para se manter atualizado, sempre buscando ajudar nas soluções em que a equipe irá se deparar, dinamizando a equipe em sessões que serão produtivas e criativas. Precisa ser real, agir com autoridade tendo um propósito que representa algo para a equipe, sobrepondo o individualismo. Precisa agir com integridade e sempre desafiar o status quo, questionando sempre como as coisas são feitas.

Todo o esforço e trabalho para se liderar significa dar sentido para a vida, pois liderança é uma junção de emoção, técnica e sentimento! Tão essencial quanto a competência para liderar, se faz necessário AMAR. Amar as pessoas, amar a organização. Um amor demonstrado com atitudes de respeito, de caráter e compromisso com o coletivo.

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