Lições de guerra para a Seleção

Muito será dito e escrito para explicar a derrota da Seleção Brasileira nesta Copa de 2006 na Alemanha. Também surgirão mirabolantes justificativas de conjunções astrais demoníacas, tudo para justificar o injustificável. Não existe sorte, e o azar é o olhar místico para confortar a derrota. No mundo real, nas lições tiradas das guerras e da vida empresarial, a vitória é o fruto supremo de muito, muito trabalho e total comprometimento com o resultado. Parece que ainda não aprendemos que o mundo atual pune o improviso, rejeita o despreparo e massacra a incompetência de comando. O limite entre o sucesso e o fracasso é quase inexistente. Essa verdade imutável conhecida e reconhecida pela experiência humana desde tempos imemoriais, forjou um conjunto sólido de medidas e contramedidas largamente experimentadas e melhoradas em guerras e no mundo corporativo. A primeira lição é que é preciso existir ou construir uma visão (ou objetivo, ou meta) e ter o necessário alinhamento dentre todos para que não hajam mal entendidos, desculpas verdadeiras e justificativas sustentadas pela perícia humana para explicar o erro. A visão alinhada concentra todo o poder de atração para o resultado, para o êxito, para o sucesso e quão bem estruturada melhor mobiliza forças e energias para sua realização. Grandes comandantes militares e líderes empresariais sabem do valor e do efeito da visão alinhada para a sustentação da jornada para sua realização. Shakespeare, no esplendor de sua obra Henrique V, retratada no cinema em 89 por Kenneth Branagh, expõe de forma visceral a essência da visão alinhada. O soberano inglês, que de fato trilhou uma história belicosa, no front de batalha em Agincourt, e diante do numeroso e bem preparado exército francês, vendo a situação extremamente inferior da sua tropa, mobiliza-a para a vitória declaradamente impossível aos olhos mortais. Com o foco na necessidade da vitória inflamando mentes e corações, através da lembrança memorável daquele dia de São Crispiniano, e que renderia eternamente a valorização dos que decidissem realizar o impossível, Henrique V consegue transformar um exército desfalecido, faminto e submisso, numa máquina que derrotaria os franceses. A visão deve ser repetida à exaustão, para que o foco seja mantido sob quaisquer condições. O alinhamento de equipes para a visão, de forma racional ou à Shakespeare, representa um enorme desafio no mundo atual, pois muitos embrenham-se em planos mirabolantes, estratégias estonteantes, sem a necessária visão alinhada. Resultado óbvio: 1 a 0 para a França. A segunda lição vem da necessidade da construção de um plano estruturado que indique e determine claramente quais os caminhos serão trilhados e que ações devem ser empreendidas para concretizar a visão. Mais, determinar os papéis de cada um nesse processo, explorando o melhor das competências e habilidades individuais em favor do grupo e da visão. A essência é buscar o efeito sinérgico dentro das equipes na realização das ações e tarefas desenhadas previamente, para que resultados possam ser obtidos de forma mais eficiente. O Dia D, que marcou o início do fim da hegemonia alemã na Europa, e registrada como a maior operação militar da história, exigiu quase três anos de planejamento e trabalho incessantes. Mobilizar, preparar e treinar 175 mil homens para uma invasão guardada como um segredo militar por tão longo período, e que seriam transportados em 15 mil barcos e navios e 10 mil aviões, não é uma tarefa fácil até para os dias de hoje. Mas o planejamento meticuloso, detalhado, e a preparação persistente possibilitaram o êxito. Os planos estão para as visões assim como o treinamento intensivo está para a preparação de uma equipe para a Copa. Quando o treinamento é feito para as câmeras de TV, e permite-se à equipe gostar apenas do peladão de uma hora em meio campo, o resultado é óbvio: 1 a 0 para a França. A terceira lição vem da ação. Agir com base nos planos e na visão é o principal desafio para uma equipe. Até então, tudo estava no mundo intangível do pensamento, do planejamento, das possibilidades, da preparação. A ação deve consolidar toda a trajetória da elaboração, desde a visão, de forma a explorar um arsenal de recursos e competências colocadas a serviço do êxito. Para isso, é fundamental que haja concentração, seriedade, comprometimento. Tudo deve ser repassado e reavaliado meticulosamente para que se possa alcançar o objetivo e, simultaneamente, estar preparado para mudanças bruscas ou eventuais nos cenários, situações e realidades. Cerca de 30 minutos antes de entrar em campo para o jogo derradeiro, mata-mata, a Seleção Brasileira estava dentro de um ônibus de última geração, usufruindo do melhor que o dinheiro e a tecnologia podem comprar, com seus jogadores batucando um sambinha de roda pra relaxar. Escrito na lateral: monitorado por 180 milhões de corações. De nada valeu o monitoramento cardíaco-emocional quando o comando da Seleção, nas mãos de Carlos Alberto Parreira, permitiu tal nível de descontração, desconcentração. Uma situação absolutamente ridícula, mas que retratou toda a trajetória da falta de compromisso com a visão. Na realidade, tudo foi construído com base em falsas premissas e estratégias de marketing ilusórias: quadrado mágico, time dos sonhos, melhores do mundo. Este é o legado da incompetência, da idealização desconectada da realidade, da submissão a uma estratégia que nasceu errada, com base no já ganhou. E não poderia existir situação pior do que Parreira, o apático técnico da seleção sem tesão, declarar que não estava preparado para a derrota. Quem não se prepara para a derrota, muito menos preparou-se para a vitória. Talentos sem uma estratégia funcionam como um grupo de crianças numa loja de brinquedos. Talentos sem disciplina reagem como obesos mórbidos diante de um banquete. Talentos sem comando são pênaltis sem gol. É muito difícil lidar com o talento quando a sedução fora do campo é muito superior, iluminada por milionários contratos com bancos, cervejas, refrigerantes, artigos esportivos, carros e cartões de crédito. Ainda mais quando a origem é numa favela perdida, num subúrbio qualquer, perdido numa cidade qualquer desse imenso país produtor de talentos. O resultado é óbvio: 1 a 0 para a França. Ah, antes que eu me esqueça: Parreira é autor do recém-lançado livro Formando Equipes Vencedoras, pela editora Best Seller. 1 a 0 para o Felipão.
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