Ladrão morto à beira da rodovia

Algumas reflexões sobre o radar escondido e os escândalos diários de corrupção

Esses dias recebi um “meme” pelo celular em que, logo abaixo do título “ladrão morto à beira da rodovia”, havia a foto de um equipamento de radar fixo (ou pardal, como chamam alguns) caído à margem de uma estrada.

Radares, blitze e multas sempre despertaram a ira de muita gente.

Até pouco tempo atrás a lei só permitia a instalação de radares se houvesse placas indicando que o motorista estava sujeito à fiscalização de velocidade. A partir de 2012 uma resolução do Contran tornou desnecessária a instalação de placas alertando para a existência de radares, desde que eles não fiquem escondidos. Mas você já parou pra pensar na coerência disso?

Isso significa que, se você desrespeitar os limites de velocidade (ou seja, a lei), você só poderá ser punido se você for avisado (com antecedência) de que aquele local está sendo fiscalizado (ou desde que você consiga identificar que existe um radar instalado ali). Ou seja, você só precisa cumprir a lei se estiver sendo fiscalizado.

Você acha justo que alguém que roube (ou que mate, ou que desvie dinheiro público) só seja punido se for avisado, com antecedência, que seu comportamento está sendo fiscalizado? Não acha justo? Então responda: qual a diferença entre essa situação e a do radar escondido?

É óbvio que a segunda é crime e é bem mais grave mas, na essência, ambas são atitudes de desrespeito a regras. E quem faz parte do trânsito sabe o quanto as regras são desrespeitadas: é gente estacionando em fila dupla, em vaga de idoso ou de deficiente, ultrapassando pela direita ou pelo acostamento, forçando ultrapassagem e te jogando pra fora da pista, ocupando duas vagas no estacionamento ou fechando cruzamentos.

No fundo todos esses comportamentos são violações de regras, e qual a finalidade das regras, além de tornar suportável a vida em sociedade? No caso do trânsito elas servem também para proteger a própria sociedade.

Dados de 2013, levantados pela pesquisadora Silvânia Suely Caribé de Araújo Andrade, da Faculdade de Saúde Pública da USP, mostram que houve mais de 170 mil internações hospitalares em decorrência de acidentes de trânsito, que representaram mais de 1 milhão de dias em que pessoas ficaram paradas, ao custo de mais de R$ 230 milhões ao SUS. E aí não estão incluídos outros prejuízos financeiros, como pagamento de benefícios pelo INSS e diminuição da força de trabalho nas empresas, por exemplo.

E os danos não param por aí: ainda em 2013 o trânsito brasileiro matou mais de 42 mil pessoas. Pra se ter ideia do absurdo que é isso, a guerra civil na Síria mata cerca de 50 mil pessoas por ano.

Voltando à história do radar escondido, muitos dizem não achar justo pagar multas porque o dinheiro arrecadado não retornará em serviços para a população. Óbvio que existe corrupção e que, provavelmente, alguma parte do dinheiro das multas será desviada no meio do caminho, e o mesmo acontece com os impostos nossos de cada dia, mas isso justifica o desrespeito às leis?

Num país em que “Lei de Gerson”, “custo Brasil” e “jeitinho brasileiro” são expressões aceitas como normais, os hipócritas escolhem quais regras querem cumprir. O cidadão que fura a fila, não devolve o troco recebido a mais, baixa filme pirata ou cola numa prova, muitas vezes é o primeiro a se levantar em protesto a cada novo escândalo da corrupção endêmica que envolve nossos governantes. Mas o que seria a corrupção, senão o próprio descumprimento de regras?

Embolsar a caneta da empresa, usar a copiadora do escritório pra imprimir o dever de casa do filho ou pedir uma nota fiscal maior no almoço a trabalho pode, mas desviar R$ 200 mil da merenda escolar não pode? A partir de quantos reais começa a corrupção? Existem níveis aceitáveis de desonestidade?

Se existem corruptos no Brasil é porque existem corruptores, e nossos políticos corruptos não vieram de Marte ou de Vênus, eles são humanos e brasileiros como cada um de nós, e vêm da mesma população que acha normal dar cinquentinha pro guarda não multar a falta do uso do cinto de segurança.

Não existe comportamento desonesto sem consequências. As carteirinhas de estudante falsas encarecem os espetáculos no Brasil. A falta do empregado que apresentou um atestado médico falso sobrecarrega de trabalho seu colega. O lixo descartado irregularmente volta em forma de alagamentos, dengue, chikungunya, zika e microcefalia. O jovem embriagado que desviou da blitz, porque foi avisado pelo WhatsApp, atropela pais de famílias. O desvio de dinheiro dos governos mata pessoas nas filas de hospitais e condena à mediocridade e à pobreza os que não recebem educação de qualidade.

E por que agimos assim? Talvez nos falte empatia, que é a capacidade de nos colocarmos no lugar do próximo antes de tomarmos uma decisão.

Uma frase atribuída ao filósofo grego Epicuro diz que caráter é aquilo que você é quando ninguém está te olhando.

Quem sabe não é a hora de nos preocuparmos mais com nosso caráter, mesmo que não sejamos alertados por uma placa?

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