Karoshi: a ameaça do trabalho demasiado que vem do Oriente

A cultura oriental sempre nos trouxe grandes ensinamentos. No entanto, um problema atual asiático pode estar também ameaçando o Ocidente. Karoshi, palavra de origem japonesa que pode ser traduzida literalmente como “morte por excesso de trabalho”. A mesma disciplina que nos trouxe o maior exemplo de organização econômica moderna trouxe também inúmeros danos aos seus cidadãos

Karoshi, palavra de origem japonesa que pode ser traduzida literalmente como “morte por excesso de trabalho”. Visto como um gatilho, a ascensão do Japão diante da devastação pós Segunda Guerra Mundial, somado à sua rigidez e disciplina, trouxe consigo a maior organização da sociedade moderna conhecida, mas também trouxe danos aos seus cidadãos.

O primeiro caso de karoshi foi relatado em 1969, com a morte relacionada a derrame de um trabalhador de 29 anos ocorrido dentro de uma grande companhia de jornal. O assunto voltou à tona em 2007, quando a Corte de Nagoya reviu a decisão do Ministério do Trabalho que havia recusado benefícios à viúva de um ex-funcionário da Toyota, que morreu em 2002 por excesso de trabalho, após comprovar que seu esposo chegava a passar semanas na empresa, sem ir para casa; e estava a mais de 40 dias ininterruptos sem folga em sua jornada de trabalho. Após isso, a mídia começou a prestar atenção ao que parecia ser um novo fenômeno, visto a partir de então como uma séria ameaça às pessoas na força de trabalho.

Na década de 80, o karoshi atingia trabalhadores entre 50 e 60 anos, hoje, frequentemente já atinge trabalhadores na faixa de 20 a 30 anos de idade. A epidemia também já atinge a China e Coréia.

Visto como uma sociedade coletivista, repleta de características de sacrifício pessoal e trabalho pelo bem de todos e do país, até bem pouco tempo 1/3 dos trabalhadores trabalhavam mais de 12 horas diárias, e parte desse período, as horas extras, eram consideradas como trabalho voluntário, portanto, não remuneradas. Mas porque estamos falando aqui no Ocidente sobre algo que ocorre do outro lado do mundo? Muito simples, com a globalização não há mais “o outro lado do mundo”, abandonando a impressão de imunidade ao que acontece longe de nós.

O termo em questão “morte de tanto trabalhar” existe apenas no Japão, e não se trata de mera crueldade do patrão, chefe ou capataz; mas sim, do sistema produtivo que pressiona a trabalhador a se comprometer “mais e mais” com sua produção. Pode, de maneira simplista, ser chamado no Brasil de compulsão pelo trabalho, trabalhando mais do que suporta o limite do seu corpo. Logo, o trabalho passa a ser seu único modo de extrair sentido da vida.

Pesquisas demonstram que a incidência do karoshi é maior entre pessoas que possuem maior responsabilidade e/ ou carga horária de trabalho aumentada, e em um ritmo intenso e estressante. Esses fatores isolam o trabalhador, promovendo uma auto-exclusão social, e impondo ao trabalhador a pressão de sempre fazer mais e melhor. O efeito de tudo isso é muito estresse, doenças físicas e psicológicas, e até a morte.

No Brasil, o termo, embora já existente no dicionário da Biblioteca Digital do Tribunal Superior do Trabalho, ainda não há registros oficiais de karoshi. No entanto, a ameaça se torna real quando vemos os casos de afastamento por depressão e stress grave, terem aumentado significativamente nos últimos anos.

Quem não conhece (ou reconhece em si) o que corre acima no texto? Todos os dias vemos empresários, chefes e gerentes, a maioria realmente apaixonados pelo que fazem, entregando-se ao trabalho de maneira intensa e desordenada, em nome do compromisso com a empresa, com seus clientes, ou com trabalho ainda por fazer, sem considerar ainda as horas e horas a fio sentados diante do computador.

Você se sente na obrigação de estar disponível ao trabalho o tempo todo? Têm receio de que algo dê errado porque não atendeu o celular? Ou porque não respondeu aquele e-mail?

Estamos começando também a promover essa ânsia em nossos filhos para que se adequem ao futuro e ao que o “novo mercado” exige. Nossas crianças vivem com suas agendas tomadas. Estudos na escola, em casa, tarefas, inglês, esportes, música, dentre tantas outras atividades que impusemos às suas rotinas. Tudo para que se tornem grandes profissionais, grandes cientistas, grandes engenheiros, grandes executivos, preparados para serem os melhores.

Ainda há tempo para rever nossas relações com o trabalho, e concluir que estão havendo mudanças, e que existe a necessidade de adaptação, preservando, porém, nossa qualidade de vida, bem como nossa saúde física e mental. Seja por sobrevivência ou por paixão pessoal, é necessário que haja o equilíbrio entre o trabalho e os afazeres pessoais.

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