Inimigo oculto

A crise dos refugiados chegou ao seu ápice nos ataques à Paris por inimigos ocultos. Países desenvolvidos se comprometeram, mas a responsabilidade assumida não se confirmou em ação. O que se viu foi o total despreparo desses países frente a um problema de extremo grau de delicadeza, difícil. Efetivamente, não houve um planejamento adequado

Os ataques terroristas à cidade de Paris, no último dia 13 de novembro de 2015, deixaram muito mais do que 129 mortos e cerca de 350 feridos, dentre os quais, 99 em estado gravíssimo segundo diversos veículos de comunicação que acompanharam tal desfecho. Estes ataques demonstraram a situação crítica que assola, em especial, o território europeu que é destino de milhares de refugiados de diversas nações que se encontram em guerra civil e que fogem em busca de proteção e sobrevivência para si e para seus membros familiares.

Antes dos ataques à cidade luz, a corrida dos refugiados se mostrou intensa. Poucas semanas antes, diversos países europeus resolveram endurecer os termos de suas políticas migratórias resultando no fechamento de muitas fronteiras. A Suécia, até então um país extremamente receptivo, foi o último país a decidir adotar medidas de controle mais rígidas. A crise migratória instalada revelou a imensa incapacidade das ditas nações desenvolvidas em lidarem com questões desse porte, ainda que em alguns países como a Alemanha, a Holanda e a própria Suécia tenham sido àqueles que mais receberam refugiados. Ocorre que isso não foi o suficiente.

A guerra, a miséria e a perseguição política e religiosa são apenas alguns dos principais motivos que fizeram emergir esse verdadeiro "tsunami do desespero". Países como o Líbano, o Iraque, o Afeganistão, a Líbia, a Somália, a Eritréia e a Síria, em especial, foram as nações que mais "expulsaram seus cidadãos", esses que rumaram à Europa, muitos à pé e outros tantos pelo mar, em busca de esperança. Muito embora alguns países europeus desenvolvidos tenham, em princípio, assumido publicamente um conjunto de "boas intenções" para com os refugiados, não passou disso. A responsabilidade assumida não se confirmou em ação. O que se viu foi o total despreparo desses países frente a um problema de extremo grau de delicadeza, difícil. Efetivamente, não houve um planejamento adequado.

Ao que parece, a "teoria das ondas históricas" vem ganhando mais força quando olhamos para o passado e o confrontamos com o presente vivido para compararmos os fatos e identificarmos evidências. Variáveis econômicas, políticas, filosóficas, sociais, culturais e geográficas, em linhas gerais, formam a base dessas ondas que atingem sua maturidade precedidas por momentos de instabilidade política e social e períodos de recessão econômica.

Vamos clarear: os saques inescrupulosos, durante os séculos XIX e XX, realizados pelos impérios europeus no continente africano deixaram muita miséria, causaram muito medo e provocaram muita discórdia por praticamente todo àquele território. O declínio das colônias europeias na África não acabou com os problemas daquela região. A independência de muitas nações africanas, algumas recentes, não foi a saída definitiva delas de um cenário marcado pela pobreza extrema, inclusive, recursos naturais. Ao contrário das benesses que a liberdade pode oferecer o que se viu e o que se vê é, na verdade, governos frágeis do ponto de vista da gestão ou governos opressores que buscam o poder total através da violência explícita e gratuita e da guerra contra seus opositores.

Os efeitos dessa "pós libertação" são diversas guerras civis, sendo as mais recentes a do Sudão, a da Somália e a do Congo. Com os Governos locais em situações de fragilidade e, até, destituídos, a barbárie corre solta. A consequência óbvia é a fuga em massa de cidadãos de tais países rumo, principalmente, ao continente europeu. Uma coisa é interessante: o modelo tradicional do campo de batalha já não é mais o mesmo. Estratégias e táticas de defesas e ataques nunca foram mais complexas e coordenadas. Mesmo em estado de guerra, até então, havia um senso de moralidade, talvez respeito pelo inimigo. O interstício de guerra é um exemplo. Havia uma declaração explícita de guerra, um considerável aviso prévio de ataque e os adversários sabiam que estavam em guerra. Não é mais assim.

Nesse novo cenário, o inimigo se utiliza de artifícios pouco convencionais e todos esses artifícios são regados pela imoralidade, pela covardia e pela barbárie, para dizer o mínimo. O inimigo não pode ser visto a não ser que queira. O inimigo pode ter 60 nacionalidades, pode ser homem, mulher, adolescente, idoso, turista, morador local, rico, pobre, militar ou não. O inimigo é descentralizado, apesar de ter um centro de comando supostamente enraizado em território sírio. O inimigo tem algo em torno de 30mil agregados e não é, nem de longe, um exército numeroso. Mas isso é o que menos importa. Eles têm domínio sobre poços de petróleo da região e faturam mensalmente 40milhões de dólares com a venda desse produto, e este dinheiro é o combustível que financia esta verdadeira rede criminosa que se autodenomina Estado Islâmico.

Mas, quem são aqueles que compram um produto que é produzido por criminosos e, mesmo sabendo disso, continuam realizando negócios? O fato é que alguém está financiando esta guerra, ainda que indiretamente. A economia de guerra é extremamente lucrativa para muitos, especialmente para os chamados intermediários. Os spreads conseguidos na compra e venda daquele petróleo são especialmente convidativos, principalmente por intermediadores que se situam em regiões de fronteira entre o seu país e o país em guerra. Pode ser que o país do atravessador não negocie diretamente com a rede do Estado Islâmico, mas não há como negar a evidência dos fatos. Nesse sentido, o país do comprador (intermediador) não pode ser declarado inocente, pois sabe dos fatos.

O dinheiro oriundo da venda do petróleo serve para financiar a compra de armamentos diversos, carros (inclusive de luxo), carros de combate (como tanques) e até, mísseis. Ainda, garante o pagamento dos salários dos soldados, com sobras. E com tanto dinheiro para se autossustentar, não é possível deixar de notar o poder que a propaganda dessa rede criminosa incide sobre o olhar de leigos e especialistas na arte de se comunicar. Parece algo fantástico, uma verdadeira produção hollywoodiana com crianças tomando sorvete de "graça" nas praças e soldados mirins sorrindo e desfilando com pistolas e metralhadoras. O efeito desse marketing agressivo é tão devastador que é capaz de adentrar na mente dos indivíduos mais desatentos e causar estragos irreparáveis. Um exemplo prático desse verdadeiro absurdo é o aliciamento externo, cada vez mais recorrente, de jovens mulheres de diversas regiões pela rede terrorista que se utiliza de redes sociais para divulgar seus intentos e cooptar adeptos.

Todo o poder da tecnologia atual é utilizado de forma ilegal e aética por essa rede extremista. Aplicativos como o facebook, o twitter e o skype são utilizados por eles para aproveitar ao máximo todos os benefícios oriundos da difusão em massa de sua ideologia extremista através dessas ferramentas comunicativas e de compartilhamento instantâneo. São a evolução da Al-Qaeda. O poder de sua mídia profissional se canaliza em vídeos impactantes postados no YouTube que revelam como são cruéis e bárbaros os elementos pertencentes àquela rede. Algozes mutilam seus oponentes, não há respeito e nem piedade. Cabeças são cortadas, corpos são crucificados e prisioneiros são fuzilados, tudo ocorre em praça pública. E o que parece ser surreal: tudo isto é comemorado pelas testemunhas presentes que banalizam tais atos como se fossem algo trivial.

Para finalizar, este assunto pode render discussões mais profundas que exigem maior grau de cientificidade devido ao seu nível de complexidade. São muitas as variáveis envolvidas e o zelo para que se evite o "senso comum" deve ser preservado ao máximo. Não devemos colocar no mesmo "saco" todos os cidadãos do islã, pois a última coisa que o Estado Islâmico prega é a religiosidade. Muito cuidado nessa hora.

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