Greve, mobilização, conformismo, atualidade

Reflexões sobre mobilizações em geral, com algumas ideias especificamente sobre a Petrobras

Estes dias venho pensando sobre a cultura do brasileiro, comparando algumas visões e experiências pessoais com alguns fatos recentes. Tenho uma impressão, de forma genérica, que nosso povo tem uma tendência à resignação e ao conformismo. Talvez um à preguiça de participar em comunidade. Isso pode ser, quem sabe, um auto-retrato, mas existe base para ampliar para mais pessoas.

O nosso desinteresse ficou refletido na minha memória em algumas oportunidades, lendo algumas notícias. Lembro de uma pesquisa no primeiro semestre de 2010 que apontava que cerca de 40% dos brasileiros não conheciam Dilma Rousseff. Tudo bem não conhecê-la bem, mas nunca ter ouvido falar de uma ex-ministra de minas e energia e da casa civil, que já tinha uma exposição maior por causa das intenções eleitorais, é um total desinteresse pelos temas gerais do país. Recentemente, outra pesquisa apontou que apenas 7% dos brasileiros leem jornais diariamente, enquanto 76% afirmam não ter hábito de ler jornais. Completando o quadro, existem estatísticas apontando que números de analfabetos funcionais rondam um terço da população. Somos desinteressados e, em grande medida, temos restrições para entender bem a realidade que se apresenta através da informação. Para a grande parte de nós, a realidade é a tangibilidade empírica do dia a dia, temperada com informação mal processada.

Por falar em realidade, ela nos ensina ao longo da nossa vida no Brasil que desafiar o sistema não traz grandes vantagens. Tentar questionar uma burocracia pública ou um cartório são experiências cruas de como as coisas são. Não vamos falar da autoridade policial. Não vamos falar de direitos escritos que todos deveriam ter e não têm. Que tal acompanhar uma CPI? Ou acompanhar a nomeação de pessoas sem mérito e competência para assumir funções públicas? Não vale a pena. Aprendemos que "a vida é assim" e "todos são assim". Criamos uma tendência a generalizar tudo e todos. Na verdade, são plantados os incentivos para se juntar a este estado de coisas. De forma geral, para muitos, parece ser mais vantajoso fazer parte do sistema do que ser um herói solitário. Afinal, políticos, burocratas, corruptos, nepotistas, entre outros, não vêm de Marte.

Por outro lado, contrastando com tudo isso, acompanhamos nesta semana a greve de petroleiros, um interessante retrato dos dias atuais. A greve é uma mobilização, ao contrário de tudo dito acima. Pessoas fazendo algo por uma causa. O contexto espelha a confusão em que o país está envolvido. Espelha também a força de uma ideologia que, de forma menos radical, pautou diversas políticas recentes no Brasil. A pauta de reivindicações do movimento grevista envolve uma lista de questionamentos relativos à gestão da empresa e do país, com ênfase, é claro, nas políticas relativas ao setor de petróleo.

A primeira curiosidade é o conflito da esquerda, de forma geral, em conseguir protestar, de forma coerente, contra o governo e a presidente. No caso, temos as reclmações dos sindicatos, historicamente ligados ao PT. Buscam caminhos que lembram o duplipensamento de Orwell, aquela capacidade de acreditar em duas coisas conflitantes entre si. A esquerda, ansiosa por questionar a política econômica -uma prova do estelionato eleitoral - e defender a presidente, protagoniza cenas insólitas, como os ataques ao ministro da fazenda, como se fosse um agente independente que faz o que bem entende. Assim, Levy é o alvo, Dilma a ser protegida. Ou melhor, alertada sobre os perigos do caminho que toma. Subitamente, a coração valente, reconhecida pela centralização e voluntarismo, se tornou um personagem dominado por Levy. Um dirigente sindical disse que o programa que estava sendo implantado era o de Aécio Neves. E o pensamento vai se cristalizando e a energia se acumulando para fazer oposição ao candidato perdedor e suas ideias. É o sabor da luta do contrário, de vencer a disputa, que só faz sentido como oposição. E, complementando, como diria Maquiavel, aqueles que vencem, não importa como vençam, nunca carregam vergonha.

Um dos principais pontos de reivindicação do movimento sindical é a interrupção do programa anunciado pela Petrobras de venda de ativos. É digno de nota que este programa já tem alguns anos e já realizou alguns bilhões. Também é digno de nota que a greve ocorre em momento de negociação de acordo coletivo. Mas o foco deve ser na análise mais ampla feita pelos sindicatos. Sua visão dos fatos. Esta visão, de forma menos radical e menos estruturada, parece estar presente no pensamento político de parcela significativa da população.

Primeiramente, vale destacar o mundo binário da visão sindical. Um mundo do sim ou do não. As ponderações e quantificações, o meio do caminho, são ignorados. Se o princípio é considerado correto, não importa a dose da implementação. Exemplifico: o sindicato reconhece o nível gigantesco da dívida da Petrobras (a maior dívida corporativa do mundo!), entretanto, defende esta dívida argumentando que foi ela que possibilitou a descoberta do pré-sal. É um mundo em que retorno de investimentos sequer passa pela discussão. Como se investir 2 ou 20 bilhões de dólares para fazer a mesma refinaria fosse exatamente a mesma coisa. Nas avaliações sindicais, nenhuma ponderação sobre isso. Não surpreende a total recusa em vender qualquer ativo em qualquer hipótese. O sentido de valor não existe, é irrelevante. Parte ideologia, parte ignorância. O sindicato espalha em seus jornais que um ativo de petróleo vale o número de suas reservas multiplicado pelo preço do petróleo. Conceitos como custo de extração, infraestrutura, riscos operacionais, de mercado, valor no tempo, por exemplo, não existem. Como bem destacou Jabor em uma coluna, "acham que a complexidade é um complô contra eles, acham a circularidade inevitável da vida uma armação do neoliberalismo internacional. Para eles "administrar" é visto como ato menor, até meio reacionário, pois administrar é manter, preservar - coisa de capitalistas". Dá vontade de confiar nas palavras de Millor: "entre a burrice e a canalhice não passa o fio de uma navalha". Entretanto, por opinião pessoal, talvez entre a burrice e a canalhice passe uma gorda dose de ignorância.

O mundo binário da visão sindical também pode ser contrastado nas diferentes percepções sobre o uso dos recursos da empresa. Fazer política de preços controlados é apoiado. Não importa a dose. É certo... afinal, deixar preços flutuarem de acordo com o mercado...deve haver uma injustiça em algum lugar. Onde há mercado, há injustiça, onde há governo há justiça. Então, que se regulem os preços. O mundo real: o controle de preços custou dezenas de bilhões de reais à Petrobras. Vale questionar que, se simplesmente não houvesse essa política, talvez a empresa estivesse em situação imensamente mais confortável e, ironicamente, possivelmente não precisaria vender tantos ativos. Ponderação adicional: mesmo vendido, um ativo seguirá produzindo. O país perderá? Difícil dizer que sim. Incontestável é o fato que a empresa perdeu capacidade de investimento e o país sofre por este motivo. Mas essa discussão, nos sindicatos, não existe. Preços regulados são coisa certa. Ponto.

Outra reivindicação é a retomada de obras interrompidas como a refinaria do Comperj. Situação semelhante vive o país, que corta investimentos do PAC. Em ambos os casos, os investidores não tem recursos para continuar obras e o passado recente comprova alto índice de sobrecusto e atraso. Para investir tem que ter capital. Isso parece óbvio, mas não é pra todos. Nem está claro que as políticas recentes torraram capital que nunca será recuperado. Evidentemente, cortar projetos é cortar empregos. Vivemos em um estado de coisas no qual as pessoas querem gastos estatais infinitos. Assim, a Petrobras teve que subsidiar combustíveis, controlar inflação, fazer o maior programa de investimentos do mundo (em alguns casos, proibida de dividir risco com outras empresas), participar obrigatoriamente de outros investimentos, fazer projetos de economicidade questionável (alguns custaram bilhões e sequer começaram), além de irrigar campanhas políticas e outros bolsos privados. Mas, para uma corrente ideológica, nada disso importa. A empresa tem que fazer tudo isso e mais um pouco. O sindicato sugere reestatizar integralmente a empresa utilizando as reservas internacionais brasileiras.

A origem do conflito da greve parece estar na última campanha eleitoral, que mascarou a verdadeira realidade do país para promover a reeleição. O país saiu da eleição dividido, com os vencedores necessitando reparar seus próprios erros e, na prática (mas não no discurso), desmentir toda a campanha e todas as promessas. A falta de reconhecimento da gravidade da situação nacional por muitos é semelhante à falta de reconhecimento pelos sindicatos da situação da Petrobras. Fato é que "o futuro não será mais o que era", como disse Valery. E mesmo onde há reconhecimento de crise, os diagnósticos são, muitas vezes, diametralmente opostos e, frquentemente, causas e consequências se misturam. Exemplo disso é o próprio partido no poder sugerir o retorno justamente das políticas que trouxeram a situação ao estágio atual. O mesmo pedido de continuidade das atividades da Petrobras é reivindicado pelos sindicatos dos petroleiros. Promover um conflito por fins que não possuem meios factíveis é um prejuízo para a sociedade como um todo, especialmente porque, como a própria frase subentende, estes fins jamais chegarão. É pegar a rota errada. Como disse Burke "os homens tem sido levados a ações, às vezes gradativamente, às vezes precipitadamente, das quais, se tivessem podido ver ao mesmo tempo o conjunto, nunca se teriam permitido a mais remota aproximação".

Enquanto isso, somos obrigados a viver rodeados pela convicção da dinâmica expressa na precisa passagem do seriado House of Cards: "os políticos vivem tentando transformar o obsceno em algo palatável". Vale complementar considerando o comportamente daqueles que apoiam este governo e aqueles resignados e indiferentes. Não podemos querer estar saindo de um conformismo tradicional, parcialmente alimentado por um torpor recente provocado por crescente melhoria de padrão de vida, para uma mobilização motivada por interesses corporativistas, que significa, na verdade, motivada por interesse próprio. Parece haver, neste grupo de pessoas, uma aura de superioridade, uma convicção em princípios questionáveis, uma limitação da capacidade de criticar, uma incapacidade de reconhecer falhas, uma tentativa incoerente e desesperada de tratar multiplicidade de opiniões como falha de caráter individual - uma confusão conveniente, que, ao final, abafa a indignação imparcial, aquela que poderia provocar, de fato, uma evolução coletiva. O sentimento destas pessoas parece poder ser exemplificado por um pensamento de Millor: "o mundo tem muitos canalhas, mas, felizmente, todos nas outras mesas".

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