Grécia à beira do abismo

A situação Grega não está das mais fáceis e poderá refletir em toda a zona do Euro. Os próximos dias poderão ser definitivos, a Grécia está prestes a da um passo importante. Confira

O mundo se globalizou e está cada vez mais interligado, ou seja, cada vez mais depende de outros países para crescer. Desta forma, temos que admitir que a política tem, ao longo do tempo, adquirido cada vez mais poder, e poder demais na mão de poucos é um problema que temos que lidar. Será que quanto mais o mundo interage entre si, menor deve ser o poder político? Quanto mais livre é a interação entre os países, mais livre tem de serem os mercados para se equilibrar? É o que parece, e isso pode ser visto nitidamente no caso de Europa e Grécia, onde as políticas, implementadas irresponsavelmente pela Grécia ao longo dos anos, unido a uma política monetária rígida devido à zona do Euro, poderá trazer problemas não só para a Grécia como para a Europa como um todo – e já vem trazendo.

Em primeiro lugar, se faz necessário perceber as consequências que a unificação da moeda na zona do Euro traz aos países. Com uma moeda única, os países perdem o poder de comandar suas políticas monetárias e, embora não fique tão claro, isso afeta diretamente as políticas fiscais. Com uma política monetária que foge ao seu controle, há a necessidade de se ter responsabilidade fiscal grande, uma vez que o Estado não poderá transferir grandes custos ao mercado, ou então o país se tornará vítima da cotação da moeda. A Grécia tem caminhado no sentido oposto, sua política fiscal tem sido frouxa, com assistencialismos exagerados e gastos públicos exorbitantes. Estes fatos fazem com que o governo pese no mercado, acarretando em alta necessidade de arrecadação pública. Caso oposto é o da Alemanha, que tem crescido a passos largos, pois mantém uma política fiscal austera – criticada por boa parte da Europa. O país mantém seu mercado leve e competitivo e se beneficia das benesses de uma moeda forte e um mercado sólido – basta notar que apesar da elevada cotação do Euro, a Alemanha tem altos índices de exportação devido à competitividade de sua indústria.

Se o governo grego transferir todo este custo ao mercado, ou seja, imputar ao mercado uma carga tributária asfixiante, somado a um Euro valorizado, obviamente a capacidade competitiva deste país desabará. E como manter um governo heterodoxo “gastão” em um cenário de moeda valorizada e única, pertencente a um conglomerado de países mais competitivos que o seu (em sua maioria)? A política grega responde a essa pergunta: gaste, mas não transfira ao mercado, ou melhor, se endivide até não poder mais, afinal “em longo prazo estaremos todos mortos” – e nessa colocação, peço desculpas a Keynes, uma vez que a irresponsabilidade fiscal da Grécia foge até mesmo à teoria do “Estado Interventor” do mesmo.

Logo que foi eleito o primeiro ministro Alexis Tsipras, um esquerdista heterodoxo pertencente ao partido Syriza, foi ovacionado pela população como um “opositor” às políticas austeras severas que o FMI tentava lançar à Grécia, sob o discurso de que “jamais iria transferir o custo do que o ‘severo’ FMI empurrava goela a baixo à sua população”, o curioso é que me parece que essa conta ficará ainda mais cara aos mesmos. No final de 2014, postei um breve texto do que eu acreditava ser o ideal para a Grécia “sair do buraco”, cujo trecho incisivo neste sentido foi:

“O caminho é árduo, as irresponsabilidades foram muitas, mas ainda há saída. A Grécia precisa ganhar confiança e não perder. Obviamente, o regime de austeridade imposto pelo FMI é cruel de fato, mas como não ser? O país deve mais que o dobro do PIB, como confiar? A Grécia precisa passar por uma reconstrução fiscal abrupta, corte de gastos severos, juntamente com corte de impostos (e não aumento dos mesmos) menos que proporcionalmente aos gastos, a início, claro. Tem que apostar na produtividade com corte de custo, atraindo capital externo, que só conseguirá, demonstrando que terá responsabilidade daqui pra frente. Com um bom plano financeiro, pode renegociar os termos com o FMI. Há um caminho árduo a percorrer, sem dúvidas, mas ‘a noite é sempre mais escura antes do amanhecer’.”

Mas Tsipras, guiado pelo imediatismo que é peculiar à esquerda heterodoxa, defendeu que as políticas austeras haviam falhado com a Grécia até então, causando 25% de desemprego no país e que manter essa vertente seria insustentável. Ou seja, a culpa dos fatos de agora se deu a política – austera – imposta recentemente, e não às políticas heterodoxas praticadas até então no país. Não se trata de incoerência apenas econômica, mas também cronológica. Até parece que foi esquecida a origem da grande crise grega, quando, a cerca de 10 anos atrás, as autoridades europeias descobriram que a Grécia havia maquiado suas contas, durante vários anos, para se manter dentro das regras fiscais da zona do Euro.

É verdade que houve aperto fiscal no primeiro semestre do ano de 2015, mas até certo limite. O aperto foi mais guiado pela contenção dos credores do que vontade do governo. Obviamente, este “pequeno aperto” não foi o suficiente. Como previsto, Tsipras não conseguiu escapar da lógica, que crava: “gastar mais do que arrecada gerará dívidas, que terão de ser pagas em algum momento, fato que levará a necessidade de contenção de gastos e/ou aumento de arrecadação para sanar tal dívida”. Mas, o que não é tão lógico assim, principalmente à população, é que quanto mais postergamos este advento, maior o sacrifício e consequências.

Com a situação fiscal em “frangalhos”, e com o eminente risco de moratória, o BCE – Banco Central Europeu – se nega a injetar liquidez na Grécia, acertadamente, uma vez que o custo destas “injeções” recai diretamente sobre os países e a população dos mesmos, por conta de que esses recursos se originam nestes países, e uma moratória poria em risco todos os credores do BCE, do FMI e dos governos que injetam recurso no mesmo, o que poderia levar consequências para a própria economia destes países, já que os credores destas instituições possuem laços com o resto da economia. Este é o medo de uma eventual saída da Grécia da zona do Euro, que aumentaria substancialmente o risco do calote. Assim, tenta-se a qualquer custo negociar novos termos da dívida, que, aliás, tem para vencer uma parcela na data de amanha (30/06), mas com a inflexibilidade de Tsipras não está nada fácil.

Há, então, falta de liquidez na economia grega, que “obrigou” o governo grego a limitar os saques bancários em 60 euros, devido ao medo de uma corrida bancária, o que levaria diversas instituições a bancarrota e a uma substancial piora na situação da economia. Por hora, a população grega parece ter mantido a ordem e calma, sorte de Tsipras. Contudo, a situação tende a piorar, com menos poder de compra, a população consumirá menos e empresas investirão menos – ainda menos – levando a economia a uma recessão ainda pior e, assim, castigando a arrecadação pública – uma vez que "crescerá" menos – aumentando ainda mais o ônus do ajuste fiscal. Azar de Tsipras.

Dia 5 haverá um referendo decisivo. A população votará se apoia ou rejeita as negociações impostas pelo FMI. Caso vençam o referendo, a força política de Tsipras desabará – no qual já alegou que fará campanha pelo não –fato que fará pressão para que o mesmo renuncie. Porém, se ele ganhar, terá renovada sua força política e seu viés heterodoxo, e provavelmente uma saída da zona do Euro será inevitável, afetando aos demais países. A decisão está nas mãos do povo grego, se eles cairão na sedução apelativa e emocional da heterodoxia, ou se darão conta da realidade que vive a Grécia e de que Zeus, desta vez, não poderá ajudar.

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