Fome de Poder: a criação do fast-Food e seus desdobramentos
Fome de Poder: a criação do fast-Food e seus desdobramentos

Fome de Poder: a criação do fast-Food e seus desdobramentos

Fome de Poder coloca a ambiguidade em torno da figura de Ray Kroc em ação, já que após ganhar a simpatia do público, o personagem aos poucos revela sua gigantesca ambição e seu extremamente desenvolvido senso de oportunidade

Imagine que você está em seu local de trabalho, a manhã está acabando, a fome vem surgindo, e de repente, já é hora do seu almoço. Você não está com vontade de bater aquele PF, então decide adentrar o McDonalds mais próximo para devorar um Big Mac ou um Quarteirão com Queijo com fritas, etc...

O que você não imagina, ao sentar-se para comer o seu lanche, é que este mesmo Big Mac que você está saboreando já foi motivo de muita, mas MUITA briga há muitos anos, uma disputa que veio a definir não só o McDonalds como o conhecemos hoje, mas principalmente o conceito de alimentação que domina o mercado gastronômico hoje em dia: o fast-food.

Esta inacreditável disputa é relatada em detalhes neste Fome de Poder (The Founder, EUA, 2016), uma produção que admira e enaltece seu protagonista, o fundador da rede McDonalds, Ray Kroc (o excelente Michael Keaton), mas que ao mesmo tempo mostra-se horrorizada pela maneira com que Ray construiu seu império. Tal tipo de ambivalência é sempre atraente, e um dos pilares de um bom drama. Fome de Poder vai além, e se solidifica como um business drama que prende o espectador e o leva em uma verdadeira montanha-russa de reviravoltas corporativas.

O derramamento de sangue nos business dramas é (geralmente) figurativo, mas o conflito continua sendo vibrante, o que faz com que muitos dos exemplares desta vertente cinematográfica sejam cativantes. Filmes como Wall Street: Poder e Cobiça, O Lobo de Wall Street, O Primeiro Milhão (cujos textos de minha autoria estão disponíveis aqui no Portal Administradores), e O Sucesso a Qualquer Preço (filme sobre o qual ainda pretendo falar aqui), são produções recheadas de pessoas com as quais você cruzaria em um local e as evitaria, porém por diversas vezes você ouve suas falas através das bocas de homens de negócios e estudantes de administração e economia, provavelmente porque é mais divertido se identificar com os sacanas que fazem a coisa acontecer, do que se identificar com as pessoas que sofrem com as ações destes tipos. O Ray Kroc deste Fome de Poder é uma espécie de versão mais comercial do Gordon Gekko que Michael Douglas imortalizou em Wall Street, e Keaton o interpreta com tamanho foco e obstinação, que mesmo quando o filme estarrece pelas obscuras manobras de Ray, ainda assim a produção se apoia em suas palavras e ações.

Conforme escrito por Robert Siegel (do excelente drama O Lutador, 2008), dirigido por John Lee Hancock (Um Sonho Possível, 2009), e representado por Keaton, Kroc, à princípio parece uma amálgama dos protagonistas do citado O Sucesso a Qualquer Preço, o tipo de vendedor que não desiste de tentar fechar um bom negócio, mesmo quando as coisas vão de mal a pior. No momento, Kroc tenta sobreviver como um vendedor de mixers para o preparo de milk-shakes, no ano de 1954. Ray usa o porta-malas do carro como sua "loja" e viaja longas distâncias batendo de porta em porta de restaurantes ao longo do caminho, na esperança de fazer o negócio de sua vida, ou pelo menos algum negócio.

É numa destas viagens que Ray se depara com uma pequena lanchonete na cidade de San Bernardino, na Califórnia, na época a única que carregava o nome McDonald's, e a primeira a estabelecer o conceito de fast-food nos Estados Unidos. Ray fica maravilhado com a dinâmica do lugar (a cena em que ele vai fazer seu pedido no caixa pela primeira vez é absolutamente fantástica), e após conhecer os donos, os irmãos Richard e Maurice McDonald (os ótimos Nick Offerman e John Carroll Lynch), decide fazer uma proposta de negócios à eles, uma proposta que viria a definir o destino de todos e o futuro da marca que se tornou a maior em toda a história dos restaurantes.

E é aí que Fome de Poder coloca a ambiguidade em torno da figura de Ray Kroc em ação, já que após ganhar a simpatia do público, o personagem aos poucos revela sua gigantesca ambição e seu extremamente desenvolvido senso de oportunidade. Digam o que quiserem do homem, mas Kroc definitivamente era um empreendedor que beirava a genialidade, ainda que por diversas vezes, seu caráter e bússola moral deixassem muito a desejar. Fica bastante nítido que Kroc construiu a corporação gigantesca que se tornou o McDonald's hoje, em cima da exploração do otimismo e confiança dos irmãos McDonald, que foram comprados por um preço baixíssimo e excluídos de qualquer tipo de faturamento de royalties futuros, após aceitarem a proposta de Kroc e um acordo de aperto de mãos que Kroc nunca honrou.

O retrato dos irmãos McDonald apresentado por Fome de Poder é devastador, de longe o elemento mais forte de todo o filme. Cada parada dos irmãos na estrada rumo à ruína é sinalizada e catalogada, desde a decisão de permitir que Kroc fosse o responsável por expandir a franquia para outros estados. As ideias avançadas e ousadas de Kroc nunca foram bem aceitas pelos irmãos, que temiam que seu pequeno porém rentável e amado negócio virasse algo voltado para as massas, e sua essência fosse perdida. E neste ponto, mais uma vez Fome de Poder transcende a mera narrativa baseada em fatos reais para narrativamente estabelecer uma atmosfera paradoxal à história; até que ponto estariam os irmãos McDonalds corretos sobre seus medos, e até que ponto estariam eles completamente equivocados sobre a gestão de seu negócio? É como se Richard e Maurice tivessem ganho asas para voar, mas por medo de cair, as deram para Ray, que as transformou em verdadeiras turbinas de avião e em seguida decolou com elas, deixando os McDonald no solo.

Até o ponto onde documentos são assinados e grandes somas de dinheiro começam a trocar de mãos, o filme trata Kroc como um homem à beira do fracasso, em busca de uma oportunidade de redenção. Logo, não é surpresa que os irmãos McDonald o vejam desta forma também, e se comovam o suficiente para tornar o sonho de Kroc (e o deles também, já que falharam ao tentar tornar seu negócio em uma franquia), realidade. O roteiro de Siegel trata Kroc como a personificação de uma maneira particular de se olhar para os valores do business americano: sempre um sorriso no rosto, e o entendimento de que o capitalismo é uma pura virtude que faz tão bem à sociedade que as perdas pelo caminho simplesmente não importam.

Na estrada, Kroc repete frases motivacionais que ele memorizou de um disco de auto-ajuda. Ele acredita nestas frases como os religiosos acreditam na Bíblia Sagrada, e suas conversas com outros personagens são repletas de formulações que você talvez ouviria da boca do líder de algum culto. Elas são ousadas e surpreendentes, mas também auto-indulgentes e cínicas, como quando ele menciona que o logo do McDonalds deveria ser tão onipresente quanto a bandeira americana e a cruz de Cristo: "A nova igreja americana... alimentando corpos, alimentando almas."

E apesar de seu evidente oportunismo, Kroc enxerga a si mesmo como um idealista e criador de mitos, não um mero mascate. Ele não é uma pessoa maldosa, mas há um vazio em seu núcleo, que como Fome de Poder sugere, pode ser visto como uma exigência para se alcançar o sucesso, exatamente como a persistência que o disco de auto-ajuda de Kroc tanto prega. Há quem reclame que Fome de Poder por vezes carregue uma aura de vídeo celebratório, daqueles que poderiam ser exibidos em alguma convenção das franquias McDonalds. Mais ou menos como o filme Náufrago fez com a marca Fedex, gigante do serviço postal e de encomendas americano. Aliás, Náufrago é outro dos filmes sobre os quais ainda pretendo falar aqui no Administradores.

O filme também equilibra bem sua trama central voltada para o business com a tumultuada vida pessoal do protagonista. Ele se divorciou de Ethel (Laura Dern), sua esposa há muitos anos, e se casou novamente com uma mulher mais jovem, Joan (a bela Linda Cardellini, do vindouro A Maldição da Chorona), numa atitude claramente motivada pelo grau do apoio de Joan à visão de negócio de Ray. Os irmãos McDonald são personagens secundários também, mas suas individualidades são bem destacadas na trama, e é bem possível distinguir entre suas vidas antes e depois de Kroc. Já Ethel, na visão de Kroc, funciona mais como um cobertor de orelha do que como uma apoiadora propriamente dita. Diferente de Joan, que compara Kroc à Alexandre o Grande não como um aviso, mas sim como um elogio.

Confesso que depois que assisti a este Fome de Poder pela primeira vez, me peguei por várias vezes pensando no filme. É quase como se o filme começasse como um anúncio para uma das maiores brands da história da humanidade, para de repente se tornar algo completamente diferente, algo sombrio e um tanto triste na maneira com que encerra uma história de conquista mas também de perda. Um dos aspectos mais intrigantes e surpreendentes sobre Fome de Poder é que, no final das contas, o próprio filme parece um tanto envergonhado pelas ações de seu protagonista. O Kroc de Keaton rouba o filme das mãos de Hancock e Siegel assim como ele roubou o McDonalds das mãos dos irmãos que dão nome à franquia.

Após o término de minha sessão do filme, me lembro bem de sair do cinema com um gosto bastante ruim na boca, e em seguida, resolvi ir ao McDonalds da praça de alimentação e pedir um belo de um Big Mac com fritas e uma Coca grande para completar.

Continua difícil resistir àqueles grandes arcos amarelos.

Fome de Poder está disponível em canais a cabo e mercado de home-video e VOD.

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