Flow na vida
Flow na vida

Flow na vida

Fazer coisas que dão prazer é estimulante. Comer a comida preferida é inspirador. “Viver” e desfrutar dos momentos, como fazemos com a melhor parte da sobremesa que deixamos por último no prato, para comer bem devagarinho e não perder nenhum sabor

Penso em demasia, ando depressa demais e nisso me vejo passando pela vida sem percebê-la. Agora estou diante do desafio de estar presente, buscando uma vida significativa. Eu, que de tanto imaginar crio um mundo imaginário, tenho que colocar os pés no chão e dar sentido à realidade.

A aplicação do Flow em tudo na vida é tão simples e complexa ao mesmo tempo, porque flow é “viver” e desfrutar dos momentos, como fazemos com a melhor parte da sobremesa que deixamos por último no prato, para comer bem devagarinho e não perder nenhum sabor.

Duas coisas que me foram apresentadas soaram como os sinos da igreja que me acordam no domingo de manhã. A primeira foi a reflexão para olhar as coisas com olhos de principiante e a segunda foi aceitá-las como elas são sem julgar.

Gente! Onde foi que eu me perdi? Fui uma criança ousada, acreditava que tudo era possível e fazia as coisas acontecerem. Era totalmente destemida, e agora o medo toma a maior parte de mim.

Deixei de comer meus pratos favoritos por medo de engordar; parei de me envolver com as pessoas para não me decepcionar; deixei de jogar futebol por medo de me machucar novamente; deixei de sair pelo receio de ser assaltada e violentada; parei de dirigir após um grave acidente; e, às vezes, deixo de me expressar para evitar julgamentos.

Fui uma criança obesa que usava óculos, estudava em grupo “mobral”, brincava com coisas de menino. Minha mãe era depressiva e todos diziam que ela era louca e eu seria igual. O apelido mais carinhoso que tive foi “baleia quatro olhos” e, mesmo assim, eu só enxergava possibilidades.

Triste, né? Não! Eu estou viva e é só disso que eu preciso.

Fazer coisas que dão prazer é estimulante. Comer a comida preferida é inspirador. Jogar futebol para mim é como voar, me sinto livre, relaxada e mega feliz. Nesses momentos não faço cobranças, apenas me deixo envolver naquela sensação mágica de me sentir boa em alguma coisa sem a obrigação de ser.

Mas, como nem tudo são flores, é muito difícil aceitar as coisas como elas são sem julgamentos. Estarmos presentes e atentos a nós mesmos e ao mundo, por vezes, faz com que pareça que tudo gira devagar. Há detalhes que passam despercebidos quando estamos desatentos, apressados e inconscientes.

Quantas pessoas sofrendo, vejo em seus olhos tristeza e falta de esperança; cenários de violência são rotineiros nas ruas e nas mídias; as cidades são sujas e há lixo por toda parte; as pessoas empurram umas às outras para entrar nos lugares; furam o sinal vermelho; param em cima da faixa de pedestre. Nossa, e como gritam: parece que tem um monte de grilos na minha cabeça! Eu seria mais feliz com um pouco mais de silêncio e uma boa dose de Educação.

Eu fico indignada ao ver como os idosos e as mulheres grávidas são tratados. Eu preferiria não perceber que as pessoas com as quais convivo diariamente agem de má fé, julgam, manipulam e mentem. Sabe, agora eu consigo entender porque as pessoas adoecem ou vivem fora da realidade: elas só gostariam de um mundo melhor.

Com certeza não posso fazer grandes revoluções para o mundo, mas posso fazer minha parte encarando o desafio de ser eu mesma e não me deixar corromper. Posso também estabelecer uma hierarquia, colocando as emoções positivas no topo e, assim, sigo adiante, compreendendo que aprender algo novo é um estímulo, mas também uma maneira em que me compreendo útil.

Penso que flow na vida é, sobretudo, ter consciência de si mesmo tendo a sabedoria de se entregar às pessoas nas doses corretas, respeitando seus limites, mas com consciência das nossas forças e virtudes. Meu pai, em sua simplicidade, sabe se doar a nós de uma forma intensa em amor, mas quase imperceptível, quando se trata da autoridade que exerce.

No meio de uma conversa, onde todos falavam o tempo todo, ele disse: "Deus é bom, ele nos oferece saídas. Com fé, vencemos os desafios sem perceber. Se você tiver o essencial, não precisa pedir mais nada". Achei incrível como ele consegue fazer essa distinção do ele precisa para viver e do que pode ser descartado. Percebo que ele não desperdiça suas energias com pensamentos e atitudes negativas e consegue ser respeitado por nós (esposa, cinco filhos, cinco netos) de uma forma muito sutil.

Minha mãe parece uma menina travessa, ela se negou à realidade do mundo e teve depressão profunda durante vinte e oito anos, e hoje encara a vida e as pessoas com tanta naturalidade e alegria que parece que acabou de nascer.

Eu a julguei muito porque, devido à sua doença, não tive uma infância comum. Agora percebo o quanto ela é extraordinária. Mesmo após tanto sofrimento, ela conservou a doçura e o amor pela vida. Se fosse eu, acho que não me sairia tão bem. Ela ri de si mesma, gargalha dos seus tropeços e diz sempre “como a minha vida é boa”. Parece que a vida acredita nela, pois é contagiante sua alegria.

Observando os acontecimentos e as pessoas, experienciei que colocar-se no lugar dos outros nos permite uma análise positiva das situações. Aceitar as coisas como elas são sem julgamentos e preconceitos, e ter consciência do que somos sem resistências, são princípios de uma vida significativa. Porque aceitar permite a compressão e esta possibilita a mudança.

A vida é uma roda gigante, às vezes estamos no melhor lugar olhando do alto as coisas acontecerem, outras de cabeça para baixo, temendo o que poderá nos acometer. Mas compreendo que cabe a mim escolher se lamento ou acolho. Se acolher, me torno abrangente e abro um leque de possibilidades.

Aceitando as coisas que eu não posso mudar, percebo que sempre haverá dois lados, um ruim e o outro bom. Para colher a rosa que é de uma beleza e perfume incomparável, é preciso passar pelos espinhos. O fato de às vezes me machucar com os espinhos não faz com que a rosa deixe de ser bela e perfumada. E assim é a felicidade: o percurso nem sempre será virtuoso, mas a vida sempre estará nos oferecendo o melhor perfume. Apenas é preciso apreciá-lo com cuidado, atenção e amor.

Viver é um grande mistério, o dia nunca termina como começou. Podemos assumir a realidade cientes das nossas virtudes, sem culpas e necessidade de bajulações. Simplesmente, esvaziar a mente para perceber a vida como ela é, sabendo que do mesmo céu nasce o azul celeste regado pela luz do sol e a noite escura – cada qual com a sua beleza. Bom é ter a sensibilidade de entender que o mesmo sol que queima, ilumina a noite tenebrosa, que possui a beleza inigualável da lua e das estrelas.

A felicidade está na jornada e não no destino. Sendo assim, flow na vida é estar presente na vida “Agora”, olhando-a com a simplicidade de criança e acolhendo-a. É se dar o direito de ser fiel aos nossos valores, sem nos julgarmos por sermos quem somos.

Se acredito que é preciso grandes mudanças para aplicação do flow, terei uma grande empolgação inicial, porém, será frustrante quando perceber as dificuldades. De início, me planejei para fazer atividades para a aplicação do flow, depois fui percebendo que a vida é tão incrivelmente imprevisível que não nos permite métodos, por isso, a felicidade é um propósito de vida e seu estado máximo está no amor com que fazemos a travessia. Eu, por exemplo, adoro futebol, mas torci o tornozelo e estou com o pé imobilizado. Eu estaria frustrada se não tivesse percebido que independentemente das circunstâncias que a vida me trouxer eu posso escolher priorizar as situações positivas, aceitando os desafios como algo natural do percurso.

Percebi que por ir rápido demais ao ímpeto de fazer muitas coisas, o essencial passa despercebido. Vivemos quase que por instinto, agindo automaticamente. Por causa do meu machucado, pela primeira vez, eu andei na mesma velocidade que minha mãe. Ela anda muito lentamente e eu não tinha paciência de esperá-la.

Durante esses dias, ela está me ajudando a andar e falando comigo. Nossa! Ela sabe tantas coisas, é bem humorada e compreende as pessoas. Ela vive em paz porque aprendeu a deixar as pessoas livres. Mamãe tem um cheiro de Deus. Acalma meu coração e cessa minhas dores. Eu quero mais e mais beber dessa fonte. Percebi que em frente à dela tem uma praça onde mora a paz! Um campo de futebol que me inspira e árvores tão alinhadinhas que me fazem sonhar!

Mas nada seria possível, sem a compreensão de quem eu sou. Minha vida ganhou significado no momento que me libertei das expectativas das pessoas em relação a mim e me dei o direto de ser eu mesma. É libertador compreender que eu não preciso estar de acordo com os padrões sociais para ser feliz, muito pelo contrário, eu só preciso estabelecer uma relação de respeito e fidelidade comigo.

Eu sou o princípio e o meio, e eu não posso passar por essa vida apenas com espectadora – eu preciso experimentar cada segundo. Por ser tão boa, a vida se torna curta demais!

ExibirMinimizar
aci institute 15 anos compartilhando conhecimento