Florestas, biodiversidade e pobreza
Florestas, biodiversidade e pobreza

Florestas, biodiversidade e pobreza

Desmatamento e substituição de ecossistemas não traz prosperidade

A maior parte das áreas de grande diversidade biológica está localizada em florestas e savanas das regiões tropicais. Não por acaso, estes extensos territórios com alta concentração de biodiversidade, estão situados em países onde por fatores históricos, geográficos e econômicos, estas riquezas naturais ficaram relativamente conservadas até as últimas décadas. O difícil acesso e o diminuto interesse econômico que estas regiões despertavam, fez com que se conservassem quase intactos muitos de seus ecossistemas ao longo da evolução da vida na Terra.

Este quadro quase idílico, no entanto, começou a mudar depois da Segunda Grande Guerra. A expansão do capitalismo industrial para todos os continentes habitáveis do planeta, incorporou estes países – muitos deles recentemente criados – como consumidores de produtos e supridores de matéria de matérias primas, ao sistema econômico mundial. Crescia a atividade econômica, chegavam os avanços da moderna medicina, como a vacinação e o saneamento, e assim decresciam os índices de mortalidade na infância. Com mais pessoas a serem alimentadas, a agricultura precisava avançar sobre territórios inexplorados, cobertos por florestas e savanas, onde a biodiversidade ainda era alta.

Começava assim a destruição das áreas remanescentes de biomas e ecossistemas originais, em áreas tropicais. O processo teve início na década de 1950 e se estende até os dias atuais. Ao longo desses sessenta anos, vastas extensões de floresta foram destruídas, na maior parte dos países da Ásia, África e América Latina. Estima-se que em 1800 a área de florestas tropicais era de cerca de 16 milhões de quilômetros quadrados em todo o planeta. Em 2010 estimava-se que menos da metade dessa área permanecia como floresta intocada, e cerca de um outro quarto sobrevivia como floresta fragmentada e degradada (Jornal da Unicamp de 7/08/2017).

Segundo o professor Luiz Marques, livre-docente do departamento de História da IFCH/Unicamp, as florestas tropicais são o lar de 80% de todas as espécies terrestres. Ainda segundo o professor, haveria entre 40 mil e 50 mil espécies diferentes de árvores nas florestas tropicais da Ásia, África e América do Sul. Segundo o docente, dados coletados por satélites em todo o mundo entre 1990 e 2010, mostram um aumento no desflorestamento de 62% na primeira década do milênio. No Brasil o processo de derrubada da floresta vinha diminuindo nos últimos dez anos, mas apresentou considerável crescimento, notadamente no período 2017-2018.

Uma rede de 120 cientistas de diversas especialidades e regiões do Brasil elaborou recentemente o Primeiro Diagnóstico Brasileiro de Biodiversidade e Serviços Ecossitêmicos. O trabalho identificou que 40% da cobertura florestal brasileira está concentrada em 400 municípios, nos quais vivem 13% da população mais economicamente carente do país. Estes municípios localizam-se principalmente na região Norte e em parte menor no Centro-Oeste. Estas áreas, apesar de ainda possuírem cobertura vegetal original considerável, apresentam índices de desenvolvimento humano (IDH) bastante baixos.

O baixo desenvolvimento econômico e social nessas regiões, classificado pelo relatório como “pobreza verde”, representa uma ameaça à conservação da floresta. A falta de perspectivas de sobrevivência, aliada à ausência de quase todos os serviços oferecidos pelo Estado, faz com que a população se volte para o aproveitamento da única riqueza imediatamente mais disponível: a floresta. Começa assim o ciclo de degradação, que se inicia pela retirada da madeira com algum valor comercial. Em seguida ocorre a derrubada e queima da vegetação, seguida pela agricultura de sobrevivência e pela criação de gado. O solo, que na maior parte da região é pobre, em poucos anos se torna degradado, não sendo mais indicado para a agricultura ou criação de animais.

Ao final deste processo, que pode durar alguns anos, a população não tem mais possibilidade de exercer nenhuma atividade econômica baseada na terra, que está esgotada. O passo seguinte é abandonar a região e dirigir-se para outras áreas ainda inexploradas ou se estabelecer na periferia das pequenas cidades da região. A falta de infraestrutura de saneamento, assistência médica e educação, faz com que este processo, do uso incorreto da floresta até a fixação na cidade, aumente a pobreza e o atraso nestas regiões.

Outro aspecto é que geralmente a exploração da floresta e sua substituição pela pecuária, não gera benefícios econômicos consideráveis para a região e seus habitantes. A maior parte dos recursos auferidos pelo comércio de madeira e do gado é recebido pelo dono (ou grileiro) da terra e do gado. Os impostos, quando devidamente pagos, pouco beneficiam as prefeituras e, indiretamente, a população local. Findo o processo de derrubada da floresta e exaurimento da terra, nada sobra para a região.

Para beneficiar econômica e socialmente estas regiões e suas populações, o relatório propõe uma série de iniciativas baseadas na manutenção da vegetação e a criação de cadeias de produção, com a utilização dos recursos naturais da floresta. “A mensagem principal do diagnóstico é que biodiversidade e serviços ecossistêmicos não podem ser vistos como obstáculos ao progresso”, diz o biólogo Carlos A. Joly, professor de ecologia da Universidade de Campinas e um dos especialistas que participaram na elaboração do documento, em declaração ao jornal Valor.

Os países em cujos territórios ainda sobrevivem florestas originais, ainda têm alguns anos para mudar a maneira como vêm utilizando – e destruindo – suas reservas vegetais. Além de repositório de grande biodiversidade e fonte de matérias primas e produtos naturais, estas (ainda) extensas áreas têm um importante papel no equilíbrio do clima do planeta. Seja como grandes sistemas que distribuem considerável parte das chuvas e da umidade, ou como sumidouro de imensos volumes de carbono. Se este gigante processo for afetado consideravelmente pelas atividades humanas, o clima da Terra sofrerá alterações ainda mais rápidas e drásticas.

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