Falar é fácil
Falar é fácil

Falar é fácil

Já se deparou com pessoas que adoram dar "pitaco" em tudo, não abrem mão de suas opiniões e até ficam aborrecidas com que ouse duvidar ou questionar suas "verdades"?

Certo dia, em uma das empresas na qual trabalhei, um dos gerentes foi até a sala de manutenção para falar com o mecânico responsável. Ele queria um dispositivo que “filtrasse” uma determinada falha de montagem no processo. Não era tarefa simples, mas o gerente sugeriu fazer assim, assado e cozido de uma forma extremamente simplificada, como se o tal dispositivo pudesse ser feito ali, na hora, como se faz um sanduíche de queijo. O mecânico, um senhor experiente, desprovido de paciência, fitou o executivo com seu olhar de "que diabos esse cara está dizendo?" e soltou a frase que ficou conhecida na empresa e até virou jargão:

- Falar é fácil né? A língua não tem osso!

Não foi exatamente a atitude mais inteligente naquele momento, mas ele falou o que muitos de nós queremos dizer quando nos deparamos com situações semelhantes.

Na década de 60, Roberto Carlos “homenageou” uma figura fictícia do colunismo social chamada Candinha, que mantinha uma coluna na popular Revista do Rádio. A canção “Mexerico da Candinha” (nome da coluna) mencionava a tal colunista, que ganhava a vida falando das personalidades – o que elas vestiam, o que falavam, como se comportavam, quem namoravam etc. – não muito distante do que se faz hoje em dia. Infelizmente, as Candinhas não estão somente no colunismo social e no jornalismo sensacionalista. Elas estão em toda parte.

Você já deve ter encontrado pessoas que adoram dar “pitaco” em tudo, têm sempre opinião formada sobre qualquer coisa - da altura do salto da Valesca Popozuda às complexas teorias sobre o nascimento do universo – adoram criticar e até ficam magoadas (ou até com raiva) quando suas sugestões não são levadas em consideração. Se acham detentoras de uma sabedoria incontestável e não admitem que alguém ouse ir de encontro às suas opiniões.

No mundo das artes, existe a figura do crítico (musical, de cinema, de teatro etc.), um sujeito que não cria nada, mas (supostamente) detém o conhecimento do que é certo e errado, bom e ruim, e age como um imperador romano, posicionando seu dedo polegar de acordo com suas conveniências. Muitas carreiras já foram prejudicadas e até destruídas por conta deste “profissional da opinião correta”, mesmo considerando que todos nós temos o direito de ter uma.

No mundo corporativo existe a figura do gestor que nunca admite que algum subordinado vá de encontro às suas estratégias, mesmo quando está na cara que não vai dar certo. Se não der certo, a culpa é de quem executou. A filosofia é “eu falo e vocês obedecem”.

No cotidiano, temos inúmeros exemplos que nem caberia listar aqui. Parentes, colegas de trabalho, vizinhos, amigos etc.

Lidar com esse tipo de personalidade não é fácil, mas também não é impossível. O problema todo está quando ocorre o encontro de dois (ou mais) cachorros que não querem largar o osso. Pessoas agarradas às suas convicções, que jamais dão o braço a torcer (pelo menos em público) e não se permitem aprender com os outros. Elas acham que sabem tudo. Desprezam, completamente, a célebre frase socrática “só sei que nada sei”. Elas têm sua própria máxima: eu sei que tudo sei e não ouse duvidar disso! Sabe a personagem de Maryl Streep no filme "O Diabo Veste Prada"? Guardadas as devidas proporções, é por aí.

Para evitar conflito e gasto desnecessário de energia, o caminho mais sensato é não perder seu valioso tempo discutindo. É inútil. Nenhum dos seus argumentos, por mais coerentes que sejam, vai convencer o falastrão. Guarde seu tempo para coisas mais úteis e acabe a conversa concordando com ele ou, se isso for muito difícil para você, dando a entender que vai pensar a respeito. Ponto final. Siga seu caminho.

Um ponto importante a se mencionar: boa parte das pessoas com essas características são carentes de atenção e/ou inseguras. Precisam preencher uma lacuna existencial. Precisam estar em evidência de alguma forma. Uma das maneiras mais eficazes e rápidas é “presentear” os outros com sua (suposta) sabedoria. Adoram reconhecimento, adoram saber que estão certos. São metralhadoras giratórias no que se refere a opiniões, sugestões, soluções, convenções e outros tantos ões.

Bom, a finalidade deste texto não é tentar ensinar como se lida com os falastrões e sim sugerir que você não se torne um deles. Não existe problema nenhum em dar sua contribuição em assuntos relevantes para sua vida ou de outrem. O que pode ser destrutivo, em vários aspectos, é não ter a humildade de reconhecer que nem sempre a razão está com você, por mais difícil que possa parecer. Na medida em que a prepotência diminui, aumentam as novas perspectivas e, como um milagre, surge um mundo novo, completamente diferente do que você conhecia. Fazendo uma analogia, é como se uma pessoa cega recuperasse a visão. Tudo ao redor parece novo, mas este “tudo” estava lá o tempo todo, bem diante de seus olhos, encoberto pela névoa do orgulho e da soberba.

Nota final: a palavra soberba, oriunda do latim (superbia), define pessoas arrogantes, presunçosas, prepotentes e intolerantes. Não há, portanto, conotação com a posição social ou intelectual na qual o indivíduo se encontra. Pode ser “praticada” por qualquer pessoa desprovida do mínimo senso de humildade. Humildade não é definição de “baixar a cabeça” e também não está relacionada com baixo padrão de vida. Ser humilde é uma virtude daqueles que admitem suas falhas, têm a sabedoria de aprender com elas e a maturidade de corrigi-las.

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