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Existe relação de poder nas parcerias entre ONGs e empresas privadas?

Abordamos neste artigo uma análise teórica da possibilidade de relação de poder entre organizações não governamentais (ONGs) e empresas privadas. As análises organizacionais tiveram grande impulso somente na segunda metade do século XIX. A partir deste período é que se verifica o interesse dos pesquisadores em acrescentar aos estudos empíricos realizados nesta área as contribuições da perspectiva institucional, atentando-se para a compreensão de organizações não econômicas devido ao aumento significativo do número de organizações assumindo atividades conduzidas por grupos semi-organizados ou não estruturados do ponto de vista da concepção racionalista da gestão que orientou grande parte das perspectivas organizacionais. Os ambientes institucionais caracterizam-se pela elaboração e difusão de regras e procedimentos, que proporcionam às organizações legitimidade e suporte contextual. Nesse caso, o controle ambiental incide sobre a adequação da forma organizacional às pressões sociais, resultando em isomorfismo institucional. Vieira e Misoczky (2003) afirmam a importância da discussão do poder como ponto central para o entendimento do processo de institucionalização e dinâmica social. Classifica o poder em dois tipos: poder sem conflito e poder com conflito. A classificação em poder sem conflito inclui a abordagens que concebem o poder como um fenômeno do próprio sistema social, com as necessidades dos indivíduos equivalendo às próprias necessidades da sociedade. Dessa concepção decorre a definição de autoridade como poder legitimado, como aceitação racional da autoridade. Nessa abordagem, o poder só se caracteriza ao ser legitimado não se colocando a possibilidade da não existência do poder contestado, de disputa pela legitimação. O poder é a capacidade generalizada para servir à realização das obrigações encadeadas pelas unidades dentro de um sistema de organização coletiva, quando as obrigações são legitimadas por referência à sua relação com os objetivos coletivos. Já o poder como conflito é intencional, deliberado, causal e visível (HARD apud VIEIRA e MISOCZKY, 2003). Está interessado no ator que governa, ou que pode comandar. As lutas inerentes aos campos sociais, e a conseqüente mobilização dos tipos de capital (de poder), ocorrem pela existência em interesses em jogo. O impulso para criar um regime de regras básicas de requisitos práticos da organização, inclui a eficiência do uso dos recursos humanos. Porém, esses incentivos não trazem por si só a legalização uma vida organizacional, a eles devem ser adicionadas uma dimensão política a criação de novas organizações, a luta pelo reconhecimento e poder, a demanda para as novas bases de autoridade e novas formas de participação. (Selznick, 1969, p.121 apud Selznick, 1996, p. 272). As organizações não governamentais (ONGs) desenvolveram-se no Brasil nas décadas de 1970 e 1980 inicialmente com características assistencialistas e originárias de grupos de assessorias a movimentos sociais populares urbanos. A crise do Estado de bem-estar social e a diminuição paulatina da responsabilidade do Estado, as ONGs passam a assumir esse espaço de atuação social. A partir da década de 1990, as ONGs têm sofrido grandes dificuldades financeiras, pelo aumento das demandas sociais e a redução de financiamentos estatais. Com estas dificuldades financeiras, faz-se necessário repensar a forma de gerenciamento de seus recursos e a busca de fontes alternativas de financiamento de suas ações. Atualmente, tem-se presenciado um número crescente de ONGs que buscam parcerias com empresas privadas como alternativas de financiamento de suas ações e para tal surge à necessidade da garantia de legitimidade das ONGs perante estas empresas. À luz das abordagens institucional e do poder, há uma necessidade de legitimação das organizações não governamentais perante as empresas privadas visando à captação e a otimização de recursos para financiar seus projetos sociais para atender as demandas sociais e poder desenvolver seu papel no ambiente social. Para isto, é necessário ter uma estrutura organizacional bem definida e focalizada desenvolvendo projetos que apresente claramente ganhos tanto para a sociedade quanto para os mantenedores facilitando assim, a captação destes recursos. Estes projetos serão melhores aceitos quando objetivarem a multiplicação de recursos captados em projetos sociais, alocando-os de forma que busque o desenvolvimento do empreendedorismo social. A relação de poder na parceria entre organizações não governamentais e empresas privadas existe, pois as empresas podem impor ou mudar um determinado padrão das ONGs, por exemplo: fazendo elas se estruturem similarmente às empresas com fins lucrativos e se situem em um ambiente competitivo, buscando aumentar seus financiamentos, diminuir custos e otimizar seus projetos, ou seja busquem pelos padrões de eficiência e eficácia importados das empresas com fins lucrativos. Esta afirmação da relação de poder e explicitada pela relação de dependência de recursos financiados pelos detentores do poder (empresas privadas), o que leva, provavelmente, a aceitação de imposições, exigências e vontades, principalmente quando a sobrevivência da ONG depende da parceria. Também, as formas de controle e estruturas exercidas atualmente pelas empresas privadas sobre as ONGs apresentam elementos que caracterizam o exercício do poder, como por exemplo, os relatórios descritivos técnicos de financeiros da aplicação dos recursos repassados. Outro ponto a destacar seria a suposição do fortalecimento e a legitimidade das ONGs perante a sociedade, invertendo-se assim, o fluxo do poder, cabendo à empresa privada adaptar-se à organização de fins não econômicos se desejarem obter benefícios deste relacionamento. Há uma necessidade emergente das ONGs preservarem a identidade de organizações do terceiro setor e de serem legitimadas perante a sociedade em função da implementação de suas ações e não somente a legitimação perante as empresas parceiras. Também, é necessário verificar como os projetos que não têm interesse por parte das empresas privadas são tratados pelas ONGs, pois segundo Tenório (1999 apud Monte, 2003) o conhecimento que deve ser utilizado pelas organizações sem fins lucrativos deve ser um produto social, não pautado somente na racionalidade do mercado, como é o gerenciamento das empresas privadas. É necessária para estudos futuros pesquisa empírica em ONGs nos diversos focos de atuações, bem como em outras organizações do terceiro setor para verificar como se dar o fluxo de poder e quais são os principais elementos envolvidos na relação de parceria, bem como quais as influências das pequenas organizações nas alterações do ambiente e vice-versa. REFERÊNCIAS MONTE, Távia Correia. Parcerias entre ONGs e empresas: uma relação de poder camuflada. In: CARVALHO, Cristina Amélia; VIEIRA, Marcelo Milano. F. (Orgs.). Organizações, cultura e desenvolvimento local: a agenda de pesquisa do observatório da realidade organizacional. Recife: EDUFEPE, 2003. SELZNICK, Philip. Institutionalism old and new O. Administrative science quarterly, v. 41, n.2, p270-277, 1996. TENÓRIO, Fernando Guilherme. Flexibilização organizacional, mito ou realidade? 2. ed. Rio de Janeiro: FGV, 2002. VIEIRA, Marcelo Milano F.; MISOCZKY, Maria Ceci. Instituições e poder: explorando a possibilidade de transferências conceituais. In: CARVALHO, Cristina Amélia; VIEIRA, Marcelo Milano. F. (Orgs.). Organizações, cultura e desenvolvimento local: a agenda de pesquisa do observatório da realidade organizacional. Recife: EDUFEPE, 2003.
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