Exercício de reflexão após as ruas

Todo poder emana do povo e somente a este o poder deve servir. E não a partidos políticos, grupos editoriais e pretensos movimentos de pressão popular que defendem e incitam o que querem e quando querem.

Que a economia do Brasil vai mal das pernas, isso é inegável. E que os indicadores sociais também estão muito aquém do desejado, isso é indiscutível.

Contudo, e os movimentos que saíram às ruas em 15 de março, 12 de abril e 16 de agosto mostraram muito bem, o que a população não vem tolerando é a falta de perspectiva acerca da retomada de uma trajetória econômico-social que nos coloque em pés de igualdade com o mundo em competitividade e que nos aproxime das nações mais desenvolvidas em termos de IDH.

Some-se a isso que, nos últimos anos, fomos impelidos a desfrutarmos de um padrão de vida ao qual, até o início dos anos 2000, poucas pessoas tinham acesso e que vem se perdendo com essa crise que foi alimentada pela corrupção e pela falta de um projeto de desenvolvimento nacional de longo prazo. Em suma, a expectativa que se criou com o tal espetáculo do crescimento que nos foi vendido não se concretizou e, agora, o povo exige providências.

Essa é a essência que está por trás da insatisfação popular que tomou conta do país nos últimos meses, levando as pessoas às janelas de suas casas com as panelas e às ruas com suas vozes.

Porém, um fato perturbador tem chamado a atenção desde que esses movimentos populares ganharam consistência, foco e intensidade: a tentativa de apropriação popular por grupos políticos, desvirtuando o propósito maior dos movimentos que vêm saindo às ruas, que é o de criticar e combater a corrupção institucionalizada e os que se valeram dela para lograrem vantagens, independentemente da orientação política ou da fé que professam esses que fizeram a Administração Pública de butim.

Para ilustrar, temos os casos de alguns grupos editoriais e de alguns blogs que se consideram “apartidários e independentes”, mas que desviam o foco em relação à corrupção que existe em diversos outros entes políticos além do Governo Federal para canalizarem seus esforços em torno do impeachment da Dilma. Para tanto, essas mídias têm utilizado seus próprios canais e seus recursos para induzirem os movimentos sociais a amplificarem essa bandeira do impeachment, sem levarem em conta as reais necessidades e anseios da população que saiu às ruas.

Em outras palavras, esses mesmos grupos que bombardeiam Dilma, Lula, Cunha e Renan ignoram que muito do que conduziu a essa corrupção institucionalizada contou com a conivência, até mesmo, de pessoas que se dizem oposição. Exemplo: no próprio esquema do Petrolão, políticos da direita à esquerda estão envolvidos. E ninguém descreve essa constatação com a devida lisura que ela deve ser revelada para municiar a sociedade da informação certa no momento certo. O mesmo vale em relação à falta de interesse dessas mídias em amplificarem outros casos de corrupção que estão sendo investigados e julgados, envolvendo administrações de grupos oposicionistas ao Governo Federal, como o Cartel do Metrô de São Paulo e o caso Banestado.

Além disso, se a Dilma e o PT não mais representam os interesses do povo brasileiro, muito menos o PSDB e o DEM (antigo PFL), que governaram o país, de 1995 a 2002, para alguns em detrimento do todo. O desemprego, o “custo Brasil” e a elevada concentração de renda que se viram ao longo da década de 1990 estão aí para demonstrarem que FHC, Serra, Aécio e Companhia também não nos representam, tampouco nos inspiram e nos motivam a sairmos às ruas contra o atual Governo.

Portanto, o exercício de reflexão que fica com este texto é o de não nos deixarmos induzir por dicotomias ultrapassadas e inconsistentes, como as tais esquerdas e direitas brasileiras, para alimentarmos projetos de poder de alguns. Todo poder emana do povo e somente a este o poder deve servir. E não a partidos políticos, grupos editoriais e pretensos movimentos de pressão popular que defendem e incitam o que querem e quando querem.

Fica o recado: fora esquerda caviar! Fora direita coxinha! O Brasil e o povo agradecem.

Um forte abraço a todos e fiquem com Deus!

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