Eu prefiro plantar uma macieira

Existe atualmente, todos sabem, a indústria da felicidade. É, todos sabem mas poucos realmente conseguem ser livres dela. E eu penso: somos assim pela influência da indústria ou nós somos a indústria?

Existe atualmente, todos sabem, a indústria da felicidade. É, todos sabem mas poucos realmente conseguem ser livres dela. E eu penso: somos assim pela influência da indústria ou nós somos a indústria?

Se você for um observador do comportamento humano como eu, vai perceber que as pessoas, ao menos na cultura brasileira, têm uma necessidade paranoica de viver enredos de novela. É a síndrome do farofeiro. Ninguém coexiste com o outro realmente respeitando o ser incrível que tem ao lado mas o instinto de dominar o próximo parece ser maior até que o de comer.

Criar desacordos, imposição e, como diz minha mãe, picuinhas, se demonstra uma necessidade vital. Existe uma competição profunda sobre quem ganha mais, quem é melhor casado, quem tem o melhor filho ou que proezas deram mais destaque ao indivíduo. Uma competição sobre quem é mais feliz.

Nesse cenário não existe mais espaço para o sofrimento, para as peripécias da vida, para o riso sobre o desastre (só vale quando for de si mesmo). Não há mais a percepção de que o sofrimento enobrece, que as dificuldades fazem parte, e que toda perda ou ganho faz a experiência se tornar interessante. Ao contrário, se você passou a andar a pé você é um fracassado, se houve desentendimento em casa você não atingiu a perfeição, se seu filho ainda não sabe inglês você é um alienado.

Não existe o respeito à individualidade, nem o entendimento que talvez tudo seja uma opção de vida. Talvez você queira andar de fusca e viajar pelo mundo, e eu prefira ensinar meu filho a plantar uma macieira e deixar a decisão de aprender uma nova língua para quando ele estiver mais maduro, ou, talvez, realmente algum de nós foi pego de surpresa e tudo deu errado. Mas que parâmetros (reais) há para medir o valor de alguém se isso acontecer?

Não se pode mais chorar por um sofrimento de questionamento próprio (amadurecimento) que a conclusão social é de que você é mal casado. Se o choro é por um ente querido que está doente, você provavelmente apanhou em casa. Se está triste (por direito) porque perdeu o emprego, as pessoas comemoram pois estarão “sobre a carniça” por um tempo.

chorando1

Tem gente que chora de raiva, tem gente que chora de alegria, tem gente que chora por falar e outros por guardar, tem gente que chora de tristeza e outros por confusão. Quem terá o direito de questionar o choro alheio? Alguém com habilidades extra-terrenas que o faça o senhor (entendido) de todas as perdas? Não há como julgar a dor ou a felicidade de alguém; cada um tem uma visão de mundo, e portanto, da realidade vivida.

No assunto dor e alegria alheia, só tente entender se for genuíno, só dê significado se for contribuir. Seja gentil, não seja a indústria da felicidade. Plante uma macieira que te dê sombra pra chorar, sorrir e contribuir.

Publicado originalmente no Blog Quem Crescemos.

ExibirMinimizar
aci institute 15 anos compartilhando conhecimento