Eu não sou pago para isso
Eu não sou pago para isso

Eu não sou pago para isso

Humilhações, gritos, ameaças, medidas disciplinares injustas ou desproporcionais: o assédio moral causa desequilíbrio emocional, podendo ocasionar doenças sérias como a depressão e até mesmo o suicídio.

Quando falamos sobre saúde e segurança do trabalho, é comum destacarmos somente aspectos ligados à integridade física dos colaboradores, mas ao considerarmos apenas essa ótica desprezamos uma ameaça igualmente – quiçá ainda mais – danosa: o assédio moral, abusos psicológicos ocorridos no ambiente laboral sofridos pelo funcionário e, via de regra, praticados por superior hierárquico e/ou funcional, perturbando ou desestruturando o equilíbrio emocional da vítima, podendo ocasionar doenças sérias como a depressão e até mesmo o suicídio.

Sob o velho e fracassado pretexto de se obter o engajamento da equipe com as metas de produtividade ou seu alinhamento com o perfil da organização, muitos chefes – recuso-me a chamá-los de líderes – adotam um comportamento agressivo, constrangendo e até humilhando pessoas por meio de palavras, gritos, gestos, ameaças, medidas disciplinares injustas ou desproporcionais, ou ainda por meio de indiferença tirana que objetive debilitar a autoestima da vítima.

Essa conduta violenta, além de provocar um clima desagradável no ambiente de trabalho, que desgasta não apenas quem sofre, mas também quem presencia esses abusos de autoridade, também compromete a comunicação, as relações interpessoais, a personalidade e a saúde do colaborador, ocasionando mal-estar físico e/ou psicológico, se manifestando por meio dos mais diversos sintomas, que variam dependendo do grau e do espaço de tempo da agressão.

De imediato, causa faltas no trabalho e uma nítida queda de rendimento da vítima, cenário que pode levar ao atraso ou impedimento de promoções, rebaixamento hierárquico e, inclusive o desligamento voluntário. A longo prazo, esse quadro de violência psicológica resulta numa vasta lista de danos morais, físicos e psíquicos, como perda de sono, falta de apetite, ansiedade, falta de ar, tonturas, perda do senso de humor, insegurança, crises de choro, dores generalizadas, distúrbios digestivos, sentimento de inutilidade, insônia ou sonolência excessiva, diminuição da libido, palpitações, tremores, aumento da pressão arterial, depressão e, em casos extremos, o suicídio.

Parece exagero? Sinto muito, mas não é. Na verdade é mais grave que imaginamos. Mesmo não mensurando o percentual de suicídios decorrentes de assédio moral, a OMS (Organização Mundial da Saúde) aponta que 800 mil pessoas cometem suicídio todos os anos. Além disso, para cada caso fatal há pelo menos outras 20 tentativas frustradas. Só em 2014 no Brasil, foram registrados 11.821 casos.

É assustador imaginar que nos dias atuais o assédio moral ainda seja um expediente tão comum nos mais diversos tipos de organizações, seja pública, privada, religiosa, filantrópica, etc., sendo quase impossível encontrar algum profissional que, ao menos uma vez na vida, jamais tenha sido alvo dessas arbitrariedades. Até mesmo nossa educação formal estimula, ainda que quase imperceptivelmente, o egocentrismo em detrimento da preocupação com o bem-estar do outro, pois nos seduz a priorizar o sucesso pessoal e o dinheiro, deixando em segundo plano os princípios morais.

Não se pode ignorar o fato de que, quando se fala em gestão de pessoas, as organizações militares, por serem a primeira base científica da Administração – e da Logística - como ciência, exercem profunda influência sobre a atual concepção de nossos ambientes laborais e estudantis, principalmente no que diz respeito a hierarquia, disciplina e organização. E é inegável que essa herança é riquíssima, nos legando inúmeros pontos positivos, mas como nem tudo são flores, parece que herdamos relacionamentos baseados na força, no qual o mais forte oprime o mais fraco, o menor sugere e o maior não escuta, o superior manda e o subordinado não tem o direito de questionar. O que me lembra as palavras de Daniel Goleman no livro Uma Força para o Bem: “Só recorre ao confronto e à violência quem não tem mais argumentos racionais”.

Esse contexto do mais forte contra o mais fraco nos remete a tempos de selvageria e nesse momento cabe lembrar o que Darwin nos ensinou, que não é o mais forte que sobrevive e sim aquele que melhor se adapta, ou seja, tanto líder quanto liderados precisam se adaptar aos novos tempos, às novas formas de relacionamento, criar mecanismos que inibam tanto o comportamento de predador quanto a passividade da presa e desenvolver um comportamento mais humanizado, mais civilizado.

Só para exemplificar. Certa vez no início de uma reunião, vi um gestor proferir palavras que lhe garantiram a admiração de todos. Ele disse que o fato de ele estar ali como líder não implica dizer que ele é o mais inteligente da sala, nem o mais capacitado, ou que não possa ser questionado ou acatar ideias dos demais, diz apenas que ele teve oportunidades que outros não tiveram. Suas palavras não foram “da boca pra fora”, como muitos pensaram, ele realmente transformou o discurso em ação. Mais do que o respeito dos demais ele “ativou” a chave da criatividade e da comunicação de mão dupla, o que deu um tom especial à reunião e fez surgir grandes ideias. Eis o exemplo de um líder que se adaptou aos novos tempos, às novas formas de relacionamento.

O mais interessante é que este episódio ocorreu em uma instituição que, por mais inacreditável que possa parecer, ainda adota o tempo de serviço como critério para promoções. Essa modalidade de promoção permite que profissionais menos capacitados assumam posições mais elevadas do que outros com melhores conhecimentos, competências e habilidades, pelo simples fato de que estes têm menos tempo de empresa do que aqueles. Não que experiência não seja importante, pois ela é e muito, mas é apenas um entre muitos outros atributos de um líder.

Se no topo da pirâmide já é um desafio combater o assédio moral, à medida que nos aproximamos da base a pressão e as dificuldades são ainda maiores. Porém não podemos desanimar, muito menos nos esquecer dos males que essa perseguição causa e então precisamos nos precaver, adotando medidas que evitem tais situações.

Antes de tudo é preciso conhecer bem o ambiente, isto é, com quem você pode ou não contar, saber como suas queixas serão recebidas, se serão averiguadas e resolvidas, pois as providências a serem adotadas dependerão do estado de ânimo do agredido e do estágio em que a situação se encontra.

Em casos incipientes, em que o vitimado se sinta desconfortável, mas queira manter a discrição, pode ser possível procurar a ajuda de um terceiro que tenha condições de mediar o conflito, seja pela posição que ocupa ou pelo grau de intimidade/camaradagem com as partes. O funcionário também pode relatar a situação ao setor responsável, RH, departamento jurídico, entre outros.

Em situações mais hostis, não se pode deixar de recorrer à Justiça do Trabalho. Neste caso é necessário que haja comprovações quanto à veracidade dos fatos, por isso é importante anotar detalhadamente todas as humilhações sofridas. Se possível anote data, hora e local ou setor, nome do agressor, colegas que testemunharam, teor da conversa e o que mais você julgar pertinente. Se possível disponha de cópias de e-mails, gravações de telefonemas e filmagens, inclusive feitas por celular.

Se você tem sido vítima de assédio moral, antes de tudo, cuide da sua saúde, busque apoio junto a familiares, amigos e colegas, pois o afeto e a solidariedade são imprescindíveis para manter ou recuperar a autoestima e a dignidade. Se você não sofre essas humilhações, mas as presencia, não se acovarde, seja solidário com seu colega, se ponha no lugar do outro e tente imaginar o quanto você necessitaria de apoio. Não se esqueça de que seu silêncio reforça o comportamento do agressor e em algum momento a vítima pode ser você.

Por outro lado, se você exerce a função de liderança, tenha o cuidado de não confundir autoridade com autoritarismo, firmeza com grosseria, subordinação com escravidão. Não se trata de fazer vista grossa ou mimar os funcionários, muito menos minar sua autoridade. A questão é tratar a todos com respeito e dignidade, tal qual gostaria de ser tratado, pois nada justifica a violência.

Lembre-se de que como líder você é responsável pela administração da equipe, isto é, seu estado de ânimo, pela satisfação dos funcionários, pelos resultados obtidos, quer sejam negativos ou positivos. Como escreveu James Hunter em O Monge e o Executivo: “A chave para liderança é executar as tarefas enquanto se constroem os relacionamentos. ”

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