Estudo de caso tupiniquim

Os problemas do uso da metodologia pedagógica de "estudo de caso" estão na escolha pelos professores dos casos a serem estudados e, na falta de bons casos brasileiros.

A metodologia pedagógica do estudo de caso visa aproximar os alunos do mundo real e prático dos negócios. Ela consiste na descrição de um dilema gerencial real numa determinada empresa. Os alunos são estimulados a assumirem os papéis de analistas e de tomadores de decisões. O método é excelente. Ele quase sempre consegue envolvimento e muita participação. Ele atende ao que o mestre Piaget defendia, ao dizer que: o conhecimento é a experiência adquirida através da interação com o mundo, com as pessoas e com as coisas. Os problemas do uso dessa metodologia no Brasil estão na escolha pelos professores dos casos a serem estudados e, na falta de bons casos brasileiros.

Muitos professores das faculdades de negócios bombardeiam seus alunos com estudos de casos importados. Um exemplo é o caso de uma indefinição na gestão mercadológica da British Iced Coconut Corporation, especializada em vender cocos gelados nas belas praias inglesas. Outro seria uma indefinição na gestão de custos da American Yellow Acarajé Corporation, uma empresa de fast food que vende acarajés e suco de pitanga para os jovens norte-americanos. Essas empresas e suas atividades são fictícias. Elas não existem. Se existissem, logo seus casos ou cases empresariais iriam para os livros de negócios. Depois de traduzidos para o português, eles se espalhariam pelas bibliotecas das nossas faculdades. Esses casos seriam discutidos exaustivamente nas salas de aula. Tudo conforme a metodologia de estudos de caso gerada em Harvard. Nossos estudantes de negócios aprenderiam sobre o modelo de gestão dessas empresas. Estudariam as melhores estratégias de marketing para vender cocos e acarajés para os bronzeados banhistas ingleses e para os jovens gordinhos norte-americanos. Depois de infindáveis discussões acadêmicas, os alunos conheceriam bem essas empresas. Só não saberiam responder para o seu João do Quiosque 17, nem para a dona Maria Baiana do Quiosque 21 como vender cocos e acarajés nas praias brasileiras. Alguns tentariam dar orientações copiando, literalmente, o que apreenderam nos dois estudos de caso importados. Eles recomendariam coisas inovadoras como: ferver os cocos para esterilizá-los ou substituir a pimenta dos acarajés por molho de catchup com mostarda.


A maneira como se fazem e se gerenciam negócios em Recife é diferente da maneira como se faz a gestão dos mesmos negócios em Florianópolis. Imaginem o enorme fosso que separa o processo de gestão das empresas brasileiras do das estrangeirais. Os professores alegam a inexistência de bons casos de negócios brasileiros para a aplicação da metodologia de ensino. Dizem que, diante disso, só resta a abertura de casos enlatados, ocorridos numa realidade de negócios muito diferente da brasileira. Mesmo dissecando casos da U.S. Steel ou da Boeing Corporation, algum aprendizado acontece quando o aluno é um bom aprendiz. Quando ele aprende a selecionar e adaptar alguns ensinamentos retirados desses casos empresariais estrangeiros.

O problema da inexistência de casos brasileiros poderá ser rapidamente resolvido por parte do meio acadêmico. Basta que a direção das faculdades incentive e promova a qualificação de professores e alunos para desenvolverem um processo de pesquisa e produção de casos empresariais. Esses estudos poderiam até ser exigidos como trabalhos de conclusão de cursos das faculdades de negócios. O grande problema a resolver estaria fora dos muros acadêmicos. Estaria nas empresas. A maioria das empresas brasileiras resistirá muito na hora de se abrir para narrar seus casos. Nesse aspecto, a cultura empresarial brasileira é muito diferente da norte-americana. As dificuldades surgirão na hora delas revelarem as estratégias de gestão e os dados empresariais necessários para se montarem casos dignos de estudo. Esperamos que prevaleça nos empresários brasileiros o espírito de altruísmo, de vontade de colaborar com o sistema educacional, de ajudar a desenvolver gestores mais competentes. Deverá prevalecer a visão de longo prazo. A visão dos possíveis retornos na melhoria futura do ambiente geral dos negócios e, conseqüentemente, da melhoria da gestão da própria empresa que se abre ao estudo.

Eder Bolson, empresário , autor do livro Tchau, Patrão! www.tchaupatrao.com.br


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