Estamos nos tornando obesos de informação?

Para a psicanalista Anna Mautner, ler e aprender sempre foi tido como algo bom, algo que deveríamos fazer cada vez mais. Não sabíamos que haveria um limite para isso. Mas há

Você sabia que, se dormirmos 8 horas por dia quando completarmos 40 anos teremos dormido 13 anos? E que piscamos nossos olhos 25.000 vezes ao longo de um dia? Que temos em média 1.460 sonhos por ano? Que cerca de 98% dos nossos átomos são substituídos a cada ano? Que ao nascermos temos 300 ossos e em nossa vida adulta são 206? Respiramos 12 a 20 vezes por minuto? E que se não exercitarmos o que aprendemos, perdemos 25% em 6 horas, 33% em 24 horas e 90 % em 6 meses?

Desde os tempos em que o primeiro pirata desenhou o mapa do tesouro e que a Bíblia foi escrita, ter informação é sinônimo de poder. A afirmação é do escritor americano Richard Wurmann, ao abordar o excesso de informação disponível hoje em dia para qualquer indivíduo. Ainda de acordo com o autor, o que nos diferencia, uns dos outros, é a capacidade de absorver os dados e conseguir transformá-los em informações úteis. E, convenhamos, é muito difícil filtrar o que tem ou não utilidade ante a avalanche ininterrupta de informações que recebemos a todo momento.

Para que tenhamos uma ideia desta afirmação, basta saber que em uma única edição do diário New York Times, por exemplo, encontramos mais informação do que uma pessoa comum poderia receber durante toda a vida na Inglaterra do século XVII. Em pesquisa realizada com 17.000 internautas pelo site Netaddiction constatou-se que 6% deles têm comportamento compulsivo diante da internet. Preocupante, também foi perceber que há pessoas que, se não leem a mesma informação em três ou quatro fontes diferentes, ficam inseguras sobre sua veracidade.

O poder advindo da informação, promove esta incredulidade pois, a se considerar a infinidade de fontes disponíveis, checar e rechecá-las faz parte do processo e visa ratificar sua natureza. Estes indivíduos, perdem horas de sono na ansiedade pela nova informação, por sua veracidade, suas fontes e sua aplicabilidade. É a síndrome do excesso de informação que espanta o sono devido a uma atitude de alerta anormal da pessoa que sofre. Estes indivíduos são os chamados 'dataholics', literalmente viciados em informação, define Renato Sabbatini, neurocientista da Universidade de Campinas. Eles simplesmente não querem dormir para não perder tempo e continuar consumindo informações. Médicos ingleses descobriram que as pessoas com quadro agudo dessa síndrome são assoladas por um sentimento constante de obsolescência, a sensação de que estão se tornando inúteis, imprestáveis, ultrapassadas. A maioria não expressa sintomas tão sérios, o que as persegue é uma situação extrema de desconforto.

De acordo com o escritor Wayne Luke, vivemos em uma era onde quanto mais sabemos, mais nos sentimos inseguros. Isso se dá por que, de acordo com o escritor, no ocidente, em relação à absorção das informações produzidas e disponíveis, a sensação é de que não se pisa em um chão firme, é como se estivéssemos pisando em areia movediça pois não conseguimos metabolizar as informações disponibilizadas por meio de livros, imprensa, TV e internet. Por isso, quanto mais sabemos, menos sabemos. Nada mais do que uma versão contemporânea da máxima de Sócrates, quando este proferiu: Só sei que nada sei.

Para a psicanalista Anna Mautner, ler e aprender sempre foi tido como algo bom, algo que deveríamos fazer cada vez mais. Não sabíamos que haveria um limite para isso. Está acontecendo com a informação o que já aconteceu com o hábito alimentar. Em vez de ficarmos bem nutridos, estamos ficando obesos de informação. As sequelas mais comuns da super informação são fuga de responsabilidades, isolamento, perda de atenção, desvio de foco, estresse, angústia, ansiedade e desinteresse por coisas ditas banais, como uma conversa com um amigo.

Todos os anos são produzidos mais de 1,5 bilhão de gigabytes em informação impressa, filme ou arquivos magnéticos. Isso dá uma média de 250 megabytes de informação para cada homem, mulher e criança do planeta. Seriam necessários dez computadores pessoais para cada pessoa guardar apenas a parte que lhe caberia desse arsenal de conteúdo. Nos EUA são comprados anualmente mais de um bilhão de livros. Cerca de 43% da população se configura como leitores de pelo menos 5 livros/ano, entre estes 7% vão mais além, bem mais, diga-se de passagem, consomem aproximadamente 50 livros/ano. Segundo pesquisa feita em cinco países pela Reuters Business Information, metade dos executivos ouvidos pelos encarregados do trabalho afirmou não se sentir capaz de lidar com toda a informação que recebe.

E o que fazer? Para Wurman, é necessário filtrar o que serve e descartar o que não nos é útil. A arma para isso é a "ignorância programada", ou seja, a escolha criteriosa do que se quer absorver. O resto deve ser deixado de lado, como o compositor que intercala pausas de silêncio entre as notas para que a música faça sentido aos ouvidos. "A ansiedade de informação é o buraco negro que existe entre os dados disponíveis e o conhecimento".

O nosso cérebro tem uma capacidade limitada de processamento. Não conseguimos desempenhar de maneira satisfatória um número elevado de tarefas, talvez sejamos capazes de fazer duas coisas só ao mesmo tempo. A memória é vulnerável e suscetível a influências — explica Lucas Alvares, orientador do programa de pós-graduação em Neurociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O pesquisador ratifica, ainda, a importância de criar filtros para a informação e se concentrar em um assunto de cada vez, esteja ele na internet, na televisão, no rádio ou qualquer outro meio. Em salas de aula e reuniões familiares, a regra deve ser a interação com a pessoa presente fisicamente. Tarefa difícil mesmo, pois já em 2013, cerca de 30 milhões de brasileiros se conectavam simultaneamente a três telas, isso significa quase o dobro do que pratica-se na França e no Reino Unido. Soma-se, aqui no Brasil, aproximadamente 58 horas por semana de consumo entre smartphones, TV, notebooks, etc.

A boa notícia vem da afirmação do neurologista Ivan Izquierdo, coordenador científico do Centro de Memória da PUCRS, de que o cérebro ainda está dando conta do recado. Ele acredita que a cognição resiste bem ao assédio das informações por causa dos mecanismos de seleção cerebrais: Sabemos que o cérebro descarta o que é desnecessário com uma rapidez fantástica. É preciso que tenhamos neurônios livres, e por enquanto ainda temos. O cérebro revisa todo seu arquivo com uma velocidade incrível. Dessa forma, nem tudo é armazenado.

E agora, que terminou de ler esse artigo, você certamente está se perguntando o que acontece com os outros 94 ossos que deixamos de ter enquanto adultos? Seria capaz de dizer quantas vezes respiramos por minuto? Quantos gigabytes se produz anualmente?

Então respire fundo, abra sua lixeira mental e descarte tudo que julgar inútil!

Até a próxima!

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