Café com ADM
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ESTAMOS NO ANO DA EDUCAÇÃO FÍSICA. ALGUÉM NOTOU?

Falar sobre educação física, sobretudo a que é ministrada nas escolas brasileiras, é expor-se a críticas. Mesmo entre experts do ramo, é raro haver consenso sobre a maneira como a matéria deve ser abordada

Falar sobre educação física, sobretudo a que é ministrada nas escolas brasileiras, é expor-se a críticas. Mesmo entre experts do ramo, é raro haver consenso sobre a maneira como a matéria deve ser abordada. Se consenso há, é acerca da gritante precariedade da infra-estrutura da rede pública de ensino, que impossibilita os mais esforçados professores de desenvolverem um bom trabalho. Declarado Ano da Educação Física e dos Esportes pela ONU, com o propósito de lembrar às nações que o acesso à educação física e à prática esportiva é direito de todo ser humano, conforme estabelecido na 20a Conferência Geral da Unesco (1978), 2005 chegou à metade sem que tenhamos notícias de nenhuma ação eficaz no sentido de conferir a esta disciplina o mesmo grau de importância conferido a outros componentes obrigatórios do currículo escolar. A situação é tão grave que, no início do ano, o Ministro dos Esportes, Agnelo Queiroz, queixou-se que, das nossas 180 mil escolas públicas, metade sequer contava com uma quadra esportiva, e salientava que era preciso investir na educação física agora, para não ser preciso investir em presídios e hospitais amanhã.
Segundo dados da Unesco, ele está certo: o aumento de 25% de participação em uma atividade física (partindo do pressuposto de que 33% de uma população pratica atividades físicas regulares) representaria uma redução de gastos com saúde pública na ordem US$77,8 milhões (ano base: 1995) e acarretaria ganhos de produtividade de 1% a 3% (estudo apresentado na Conferência Mundial Sobre Educação Física, Berlim, 1999, tomando o exemplo dos Estados Unidos). Quanto ao rendimento escolar, comparando-se crianças de seis a 12 anos que praticam atividades físicas cinco horas por semana com as que praticam apenas 40 minutos por semana, comprova-se que o desempenho dos primeiros é expressivamente melhor. Mas isto não parece sensibilizar os poderes públicos em boa parte do mundo: de 126 países pesquisados pela Unesco, em 92% a educação física é obrigatória, mas em poucos a lei é cumprida. No plano mundial, 30% dos programas relativos à disciplina são desprezados em detrimento de outras atividades escolares, e somente 31% dos países dispõem de estrutura para oferecer uma educação física que cumpra (o que acredito sejam) seus reais objetivos: fazer com que os alunos conheçam e respeitem seu corpo, evitando condutas autodestrutivas; descubram o prazer de se exercitar e aprimorar suas aptidões físicas; adquiram hábitos saudáveis e trabalhem pela melhoria da qualidade de vida no âmbito individual e coletivo.

Poderíamos acrescentar que a educação física tem a finalidade, ainda, de estimular o espírito de equipe, a autodisciplina e a obediências a regras. De acordo. Contudo, quero evitar um enfoque limitado, que acaba por confundir educação física com adestramento para alguns esportes mais divulgados na mídia, como futebol, vôlei ou basquete. Investir no treinamento em esportes específicos, com o fim de descobrir talentos e vencer competições, pode ser ótimo para clubes e academias, procurados por aqueles que já descobriram sua vocação. Mas creio piamente que não é a melhor forma de conduzir a educação física em uma escola: as turmas são heterogêneas, os alunos têm limitações que devem ser respeitadas, e habilidades distintas que devem ser estimuladas. Impor uma modalidade esportiva a centenas de indivíduos acaba por resultar na exclusão de boa parte deles que, considerando-se menos capazes que os demais, alimentarão um sentimento de baixa auto-estima: exatamente o que a educação física deve evitar.


Friso que a crítica não é direcionada aos professores. Na rede pública, eles fazem o que podem com o pouco que têm e, não poucas vezes, vêem sua disciplina ser reduzida à mera recreação. Quando têm um plano mais ambicioso como identificar a inclinação de cada aluno, separá-los em grupos e horários para desenvolver um trabalho diferenciado são impedidos por falta de espaço, tempo e equipamentos. Sem opção, resta a eles levar turmas inteiras para a prática de um esporte, em flagrante desrespeito à individualidade dos alunos. A má vontade de muitas crianças forçadas a entrar no bolo denuncia a sensação de inadequação.
A dobradinha professores frustrados/alunos irritados, definitivamente, não condiz com uma disciplina que deveria ser extremamente prazerosa. Fica a sugestão para este ano em que se celebra a educação física: que as escolas tenham condições de transformá-la em ferramenta educacional de fato, obedecendo a princípios como o respeito à diversidade, incentivando a inclusão. Seria ótimo se pudéssemos, também, treinar atletas olímpicos, mas o objetivo primeiro de uma escola, afinal, não é esse. É preparar cidadãos e lhes ensinar meios de atingir o bem-estar físico, mental e emocional. A sociedade agradece qualquer esforço neste sentido.





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