Está na hora de abaixar as bandeiras e dialogar

Primeiramente, para o fim da corrupção não importa o impeachment ou a continuidade de Dilma, mas importa que o sistema mude. Ou se faz uma reforma política urgente ou trocaremos o comando e o barco continuará indo ao mesmo destino. Essa é a grande questão

O que o Brasil está vivendo é algo muito importante para a construção do país. Essa constatação não traz consigo nenhuma novidade. Todos sabem disso. Esquerda, direita, governo e oposição. O resultado desse momento é que pode ser discutível, mas a importância dele, essa é incontestável.


Me preocupa e me desperta muita curiosidade o porvir do Brasil, após esse momento se findar. Hoje temos povo na rua - muita gente! - protestando em diversos tons. Alguns se vestem de verde e amarelo, outros vestem a farda militar, alguns o preto de luto e outros ainda o vermelho da luta. Todos são legítimos em suas ações. As ruas estão bramindo e o governo, justiça, enfim, todos os elementos da república, devem estar de ouvidos atentos.

Claro que as opiniões opostas, nesse instante, tomam sonoridade agressiva e defensiva ao mesmo tempo. Discursos cheios de ódio e rancor, apontando que o outro lado é golpista, se tornaram comuns nos políticos e nos cidadãos comuns que vão se engajando aos movimentos. Mas o que é que rua quer?

Algumas pessoas estão pedindo internvenção militar definitiva (ditadura mesmo), outros querem uma intervenção provisória, somente até realizar-se nova eleição, outros querem somente o impeachment, alguns querem Lula presidente, outros lutam para Dilma fique... Mas parece que só uma coisa é comum a todos: o fim da corrupção.

Governistas dizem que acusações contra Lula são boatos, oposicionistas dizem que o que se tem já é suficiente para incriminá-lo e que Dilma, por acobertá-lo, é criminosa também. Há os que estão em cima do muro, pois numa situação assim é difícil saber quem está errado, afinal, se bem lidos e ouvidos, os argumentos dos dois lados são válidos e pertinentes. Mas então, como é possível que todos estejam errados e certos ao mesmo tempo? Onde ou em quê, está a verdade?

Primeiramente, para o fim da corrupção não importa o impeachment ou a continuidade de Dilma, mas importa que o sistema mude. O problema do impeachment é que quem assume faz parte do sistema. E a comissão do “semi parlamentarismo” vai colocar outros políticos que também já estão viciados pelo sistema. Ou se faz uma reforma política urgente ou trocaremos o comando e o barco continuará indo ao mesmo destino. Essa é a grande questão.

Prender Lula ou tirar Dilma do governo não moraliza a politica, se ocorrer isoladamente. Isso só fortalece os oposicionistas, tão indiciados quanto o governo, a pensarem que conseguiram acalmar os ânimos e continuarão com seus esquemas ilícitos. Mas tirar todos os políticos também é impossível e entregar aos militares não é garantia de lisura, afinal, nos tempos dos militares a corrupção andava livre, com a diferença de que não era investigada.

Mas o que mais preocupa é que se as ruas forem ouvidas, em seu tom mais alto – pró impeachment –, estaremos fadados a quebrarmos o ciclo democrático que é estabelecido pelo voto e que só deve ser quebrado pelo crime da presidência – o que ainda não houve, mas que pode ser descoberto a qualquer momento, pelo andar acelerado dos passos. Estaremos diante de uma ameaça a tudo que foi conquistado com o fim da ditadura e o início do Estado democrático. Estaremos dando uma lição para a próxima geração de que se não soubermos votar ou se não concordarmos com a decisão da maioria, podemos a qualquer momento quebrar o pacto de ordem social e tirar o eleito.

Por outro lado, se todo esse movimento que levou milhões pras ruas no final de semana e ontem, quinta-feira 17/03, fez com que a Av. Paulista fosse ocupada durante todo o dia – e isso não é pouca coisa! - não tiver repercussão, se não for atendido, estará se dizendo ao povo que, de fato, o poder não emana dele. Se tudo que está acontecendo não alcançar seus objetivos, o povo com suas reivindicações, será enfraquecido e perderá a confiança de que pode lutar por alguma coisa coletivamente.

A democracia está num beco sem saída, está entre a cruz e a espada. Os próximos capítulos trarão consquências graves ao Brasil, seja por motivo ou por outro, não importa quem ganhar essa disputa. A democracia está ameaçada. O Brasil está ameaçado.

A única opção que atenderia os anseios de todos é a mudança da estrutura, a mudança no sistema. O entrave é que isso demanda união de esforços de todos os lados, mas hoje em dia isso não está viável. Paradoxalmente, temos blocos indo para lados opostos e querendo chegar no mesmo lugar: um Brasil melhor. Está faltando abaixar as bandeiras e dialogar.

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