Esportes radicais

Se a geração de adrenalina é o que define um esporte como radical, a mesa do empreendedor tem várias opções

A cada dia inventam um novo esporte dito radical. Não bastassem o alpinismo, paraquedismo, vôo livre, canoagem, ciclismo, entre diversos outros, criam-se novos a cada Fantástico. Todo domingo tem algo de novo e lá está a Gloria Maria fazendo o teste. Ao que tudo indica a adrenalina nacional também já não faz efeito. Agora é rapel, skate, bungee jump, snow boarding, beach soccer entre outros, ou “among many others” .

Não sei não. Estes esportes parecem radicais só para quem não provou a verdadeira adrenalina. Ao que parece, estes esportes todos, voltados ao convívio com a natureza, são na verdade muito leves. Este pessoal que os pratica tem uma vida mole, muito mole, indo daqui pra lá, de lá pra cá, da Joaquina para o Havaí, do Havaí para o Tibete, do Tibete para a Suíça. Muito fácil.

Se não, vejamos.

Minha tese é a de que a vida corporativa enseja muito mais emoção e consumo de adrenalina do que qualquer dos esportes radicais que se possa assistir no Fantástico, mesmo os saltos da Glória Maria, mesmo as comidas exóticas e as provas destes novos programas.

Tudo começa pelo uniforme. Terno e gravata em ambientes fechados, sem ar condicionado ou com ele desregulado. Para as senhoras, terninho ou costume, geralmente preto. O tal pretinho básico. Este é o cenário, que sem metáforas, já vai esquentando a cabeça do esportista, deixando-o mais ligado. A mil, como se diz. Por outro lado, o equipamento é simples: uma mesa, telefone, computador com internet, fax. Estas besteiras disponíveis em qualquer escritório, nada de muito emocionante. São apenas meio para a verdadeira emoção.

Mas vamos aos esportes propriamente ditos. Contas-a-pagar é dos mais emocionantes, só superado pelo contas-a-receber. Na realidade, são duas modalidades do mesmo esporte. Você pode escolher. Um dia pratica contas-a-pagar e em outro contas-a-receber. Os mais experimentados praticam ambos simultaneamente, algo assim como um supercampeonato. Você tem como certo o recebimento de um dinheirinho. No dia, nada. Você espera alguns dias e decide ligar para o devedor. Ele atende, mas diz que ele próprio estava esperando receber alguns recursos e, sem eles, não tem como pagá-lo. Adrenalina a mil, a gravata já fica meio fora do lugar. O telefone toca, é o credor que você esperava pagar com o dinheiro que tem para receber. Ele vai logo dizendo que sabe que você não recebeu e por isso não o pagou, mas com ele é diferente, não quer nem saber, vai tomar providências. Sangue fervendo. O que ele quer dizer com “tomar providências”?

Quer mais? Crédito bancário. Pra resolver a questão você vai ao banco. Preenche cadastro, prova que sua mãe casou virgem (se não for possível, vale a avó – se avó não casou virgem, desista, você não merece crédito), anexa papéis e espera alguns dias. Adrenalina pura. O telefone toca e você não atende pensando que é o credor, mas sonha ser o devedor querendo lhe pagar. Resolve atender.

É o credor.

Eu disse que era sonho. Volta ao banco e descobre que banco não empresta dinheiro para quem precisa. Banco só empresta dinheiro para quem tem. Há quem consiga o crédito desejado. Mas aí vem a verdadeira emoção, quando ao assinar o contrato lê a taxa de juros e a cláusula de multas. Emoção verdadeira e continuada pelo período do empréstimo e, naturalmente, suas renovações. Sem falar nas “reciprocidades”, um seguro contra visita de marcianos ou um destes títulos de capitalização (dos bancos) que nada capitaliza pra você, embora você concorra a um fusca 67.

Ai você volta para sua escrivaninha. Repouso do atleta.

Estes são os mais emocionantes dos esportes corporativos. Mas há outros. Corrida para a promoção, corrida da demissão, reuniões de avaliação, reuniões de planejamento, apresentações das diretrizes da matriz e, é claro, os discursos de posse e as festas de fim de ano.

Pelo menos o uniforme é o mesmo para todos.

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