ESCOLAS BRASILEIRAS: FORMANDO OPRESSORES E VÍTIMAS

O problema se alastra pelo mundo como rastilho de pólvora, mas, no Brasil, embora o governo admita sua existência, ele não é prioritário dentro das políticas educacionais. Iniciativas para combatê-lo geralmente partem de entidades como Unesco, pesquisadores e secretarias de educação.

O problema se alastra pelo mundo como rastilho de pólvora, mas, no Brasil, embora o governo admita sua existência, ele não é prioritário dentro das políticas educacionais. Iniciativas para combatê-lo geralmente partem de entidades como Unesco, pesquisadores e secretarias de educação. O MEC as apóia, mas elas contemplam um número reduzido entre mais de 200 mil estabelecimentos e não há diretrizes para um combate efetivo à violência escolar. As discussões são estéreis e as soluções apontadas abarcam desde munir escolas com modernos aparatos de segurança, até a implementação de projetos que visam à oferta de atividades culturais e esportivas para os alunos, passando pelo treinamento de professores em mediação de conflitos. Todas têm seu lado positivo e devem ser tentadas em conjunto, desde que não se caia em exageros: nem podemos transformar escolas em fortalezas, onde olhos eletrônicos vigiam qualquer movimento, e (no outro extremo) tampouco podemos nutrir a ilusão de que um jogo de bola nos fins de semana demoverá jovens infratores do hábito de portar armas e drogas e ameaçar a integridade física e mental de professores e colegas.
Inadmissível é adiar providências enquanto se buscam as causas da violência escolar e nos perdemos em um labirinto de achismos. De um lado, muitos crêem que as escolas são autoritárias, sufocam os alunos e favorecem sua agressividade. Outros acham que falta mais disciplina. De que lado você está? Particularmente, acho curioso que a ordem e disciplina que caracterizam as escolas japonesas não tenham evitado que, ano passado, uma menina de 11 anos tirasse a vida de uma colega com um estilete, porque não gostou da mensagem que esta lhe enviara pela internet.

Obviamente, há dois problemas em um. O primeiro, segundo especialistas norte-americanos, que têm como marco a tragédia de Columbine (em 1999, dois meninos mataram 12 colegas, um professor e se suicidaram), é o fato das escolas não estarem preparadas para detectar alunos com problemas emocionais graves. O Centro Nacional de Segurança nas Escolas (National School Safety Center NSSC) elaborou até uma lista de características dos alunos-problema que beiram a patologia para que sejam identificados antes de causarem uma desgraça. Esses casos bárbaros, no entanto, desvelam o segundo problema: um cotidiano de violências em vários graus, com a qual os alunos compactuam ou da qual temem falar.


A Unesco alerta que nas escolas impera a lei do silêncio e não há confiança entre professores, alunos e pais. O instituto de prevenção de violência na escola dos EUA entrevistou 477 alunos e 456 pais e constatou que 2/3 dos alunos participam de grupos que intimidam colegas; só 1/3 acha que a escola penaliza os intimidadores; entre as vítimas, apenas 16% pediriam ajuda a um professor e, entre recorrer aos pais ou a um amigo, 78% escolheriam o amigo. Na Alemanha, pesquisa entre 1100 jovens das 7ª e 8ª séries (2003) apontava que 60% já tinham batido em colegas nos últimos seis meses; 5% os intimidam regularmente e 8% os ameaçaram com facas e pistolas.
Na França, 23,9% dos alunos já foram agredidos; 72,4% sofreram insultos e 45,1% foram roubados. Mas esses percentuais não batem com dados oficiais, como frisou o representante do país em palestra sobre violência escolar na reunião da SBPC de 2004, em Cuiabá. Os dados oficiais apontam apenas 0,12% dos alunos como vítimas de furtos, 0,32% como vítimas de agressões e 0,25%, de insultos. Denúncias não são levadas à polícia: lá como cá, os alunos não crêem que ela vá protegê-los de represálias.


No Brasil, a pesquisadora Miriam Abramovay, vice-coordenadora do Observatório de Violência nas Escolas, realizou pesquisa com mais de 12 mil estudantes em 143 escolas públicas do Distrito Federal, Belém, Salvador, Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo: 84% dizem haver violência nas escolas; 37% já foram furtados e 4,7%, agredidos; 21,7% já viram canivetes e 12,1%, revólveres em sala de aula. Entre os que consideram a escola péssima/ ruim, 90,7% queixam-se da violência, assim como 78,3% dos que a consideram "boa/ótima". Ou seja, a violência campeia nas melhores instituições.

E que ações distintos países vêm promovendo para amenizar o fenômeno que fez do magistério profissão de risco e dividiu alunos em opressores e vítimas? Nos EUA, os estabelecimentos se equipam, contratam seguranças e dois mil deles estão recompensando alunos que informam, via disque-denúncia, atividades suspeitas. Na Inglaterra, crianças de dez anos respondem por seus crimes e podem ser expulsas da rede escolar. A Argentina desenvolve um trabalho pioneiro na América Latina, treinando professores para mediar conflitos. No México, implantou-se o programa Contra la violencia, eduquemos para la paz. Por ti, por mí y por todo el mundo. A Unesco propõe o Programa Abrindo Espaços: Educação e Cultura para a Paz, nascido da observação de experiências nos Estados Unidos, França, Espanha e países onde o trabalho com jovens nas dimensões artísticas, culturais e esportivas funcionou como prevenção à violência.
No Brasil, além do reforço de policiamento no entorno, as escolas também devem perder o escrúpulo de adotar medidas de segurança. Além disso, deve ser efetiva a integração famílias/escola, para que esta seja gerida de modo democrático e ofereça aos alunos oportunidades de expressarem seus talentos, não sua crueldade. Recomenda-se, ainda, turmas pequenas, para que alunos-problema sejam identificados e tenham mais facilidade de se adequarem ao contexto escolar. O ambiente deve favorecer o diálogo e a confiança, e a formação para a ética e tolerância, pressupostos da cidadania, deve ser priorizada. Mas educar para a cidadania também pressupõe que os alunos devem aprender a assumir a responsabilidade por seus atos. E complacência e violência, no caso, não rimam.


O problema se alastra pelo mundo como rastilho de pólvora, mas, no Brasil, embora o governo admita sua existência, ele não é prioritário dentro das políticas educacionais. Iniciativas para combatê-lo geralmente partem de entidades como Unesco, pesquisadores e secretarias de educação. O MEC as apóia, mas elas contemplam um número reduzido entre mais de 200 mil estabelecimentos e não há diretrizes para um combate efetivo à violência escolar. As discussões são estéreis e as soluções apontadas abarcam desde munir escolas com modernos aparatos de segurança, até a implementação de projetos que visam à oferta de atividades culturais e esportivas para os alunos, passando pelo treinamento de professores em mediação de conflitos. Todas têm seu lado positivo e devem ser tentadas em conjunto, desde que não se caia em exageros: nem podemos transformar escolas em fortalezas, onde olhos eletrônicos vigiam qualquer movimento, e (no outro extremo) tampouco podemos nutrir a ilusão de que um jogo de bola nos fins de semana demoverá jovens infratores do hábito de portar armas e drogas e ameaçar a integridade física e mental de professores e colegas.
Inadmissível é adiar providências enquanto se buscam as causas da violência escolar e nos perdemos em um labirinto de achismos. De um lado, muitos crêem que as escolas são autoritárias, sufocam os alunos e favorecem sua agressividade. Outros acham que falta mais disciplina. De que lado você está? Particularmente, acho curioso que a ordem e disciplina que caracterizam as escolas japonesas não tenham evitado que, ano passado, uma menina de 11 anos tirasse a vida de uma colega com um estilete, porque não gostou da mensagem que esta lhe enviara pela internet.
Obviamente, há dois problemas em um. O primeiro, segundo especialistas norte-americanos, que têm como marco a tragédia de Columbine (em 1999, dois meninos mataram 12 colegas, um professor e se suicidaram), é o fato das escolas não estarem preparadas para detectar alunos com problemas emocionais graves. O Centro Nacional de Segurança nas Escolas (National School Safety Center NSSC) elaborou até uma lista de características dos alunos-problema que beiram a patologia para que sejam identificados antes de causarem uma desgraça. Esses casos bárbaros, no entanto, desvelam o segundo problema: um cotidiano de violências em vários graus, com a qual os alunos compactuam ou da qual temem falar.
A Unesco alerta que nas escolas impera a lei do silêncio e não há confiança entre professores, alunos e pais. O instituto de prevenção de violência na escola dos EUA entrevistou 477 alunos e 456 pais e constatou que 2/3 dos alunos participam de grupos que intimidam colegas; só 1/3 acha que a escola penaliza os intimidadores; entre as vítimas, apenas 16% pediriam ajuda a um professor e, entre recorrer aos pais ou a um amigo, 78% escolheriam o amigo. Na Alemanha, pesquisa entre 1100 jovens das 7ª e 8ª séries (2003) apontava que 60% já tinham batido em colegas nos últimos seis meses; 5% os intimidam regularmente e 8% os ameaçaram com facas e pistolas.
Na França, 23,9% dos alunos já foram agredidos; 72,4% sofreram insultos e 45,1% foram roubados. Mas esses percentuais não batem com dados oficiais, como frisou o representante do país em palestra sobre violência escolar na reunião da SBPC de 2004, em Cuiabá. Os dados oficiais apontam apenas 0,12% dos alunos como vítimas de furtos, 0,32% como vítimas de agressões e 0,25%, de insultos. Denúncias não são levadas à polícia: lá como cá, os alunos não crêem que ela vá protegê-los de represálias.
No Brasil, a pesquisadora Miriam Abramovay, vice-coordenadora do Observatório de Violência nas Escolas, realizou pesquisa com mais de 12 mil estudantes em 143 escolas públicas do Distrito Federal, Belém, Salvador, Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo: 84% dizem haver violência nas escolas; 37% já foram furtados e 4,7%, agredidos; 21,7% já viram canivetes e 12,1%, revólveres em sala de aula. Entre os que consideram a escola péssima/ ruim, 90,7% queixam-se da violência, assim como 78,3% dos que a consideram "boa/ótima". Ou seja, a violência campeia nas melhores instituições.
E que ações distintos países vêm promovendo para amenizar o fenômeno que fez do magistério profissão de risco e dividiu alunos em opressores e vítimas? Nos EUA, os estabelecimentos se equipam, contratam seguranças e dois mil deles estão recompensando alunos que informam, via disque-denúncia, atividades suspeitas. Na Inglaterra, crianças de dez anos respondem por seus crimes e podem ser expulsas da rede escolar. A Argentina desenvolve um trabalho pioneiro na América Latina, treinando professores para mediar conflitos. No México, implantou-se o programa Contra la violencia, eduquemos para la paz. Por ti, por mí y por todo el mundo. A Unesco propõe o Programa Abrindo Espaços: Educação e Cultura para a Paz, nascido da observação de experiências nos Estados Unidos, França, Espanha e países onde o trabalho com jovens nas dimensões artísticas, culturais e esportivas funcionou como prevenção à violência.
No Brasil, além do reforço de policiamento no entorno, as escolas também devem perder o escrúpulo de adotar medidas de segurança. Além disso, deve ser efetiva a integração famílias/escola, para que esta seja gerida de modo democrático e ofereça aos alunos oportunidades de expressarem seus talentos, não sua crueldade. Recomenda-se, ainda, turmas pequenas, para que alunos-problema sejam identificados e tenham mais facilidade de se adequarem ao contexto escolar. O ambiente deve favorecer o diálogo e a confiança, e a formação para a ética e tolerância, pressupostos da cidadania, deve ser priorizada. Mas educar para a cidadania também pressupõe que os alunos devem aprender a assumir a responsabilidade por seus atos. E complacência e violência, no caso, não rimam.


O problema se alastra pelo mundo como rastilho de pólvora, mas, no Brasil, embora o governo admita sua existência, ele não é prioritário dentro das políticas educacionais. Iniciativas para combatê-lo geralmente partem de entidades como Unesco, pesquisadores e secretarias de educação. O MEC as apóia, mas elas contemplam um número reduzido entre mais de 200 mil estabelecimentos e não há diretrizes para um combate efetivo à violência escolar. As discussões são estéreis e as soluções apontadas abarcam desde munir escolas com modernos aparatos de segurança, até a implementação de projetos que visam à oferta de atividades culturais e esportivas para os alunos, passando pelo treinamento de professores em mediação de conflitos. Todas têm seu lado positivo e devem ser tentadas em conjunto, desde que não se caia em exageros: nem podemos transformar escolas em fortalezas, onde olhos eletrônicos vigiam qualquer movimento, e (no outro extremo) tampouco podemos nutrir a ilusão de que um jogo de bola nos fins de semana demoverá jovens infratores do hábito de portar armas e drogas e ameaçar a integridade física e mental de professores e colegas.
Inadmissível é adiar providências enquanto se buscam as causas da violência escolar e nos perdemos em um labirinto de achismos. De um lado, muitos crêem que as escolas são autoritárias, sufocam os alunos e favorecem sua agressividade. Outros acham que falta mais disciplina. De que lado você está? Particularmente, acho curioso que a ordem e disciplina que caracterizam as escolas japonesas não tenham evitado que, ano passado, uma menina de 11 anos tirasse a vida de uma colega com um estilete, porque não gostou da mensagem que esta lhe enviara pela internet.
Obviamente, há dois problemas em um. O primeiro, segundo especialistas norte-americanos, que têm como marco a tragédia de Columbine (em 1999, dois meninos mataram 12 colegas, um professor e se suicidaram), é o fato das escolas não estarem preparadas para detectar alunos com problemas emocionais graves. O Centro Nacional de Segurança nas Escolas (National School Safety Center NSSC) elaborou até uma lista de características dos alunos-problema que beiram a patologia para que sejam identificados antes de causarem uma desgraça. Esses casos bárbaros, no entanto, desvelam o segundo problema: um cotidiano de violências em vários graus, com a qual os alunos compactuam ou da qual temem falar.
A Unesco alerta que nas escolas impera a lei do silêncio e não há confiança entre professores, alunos e pais. O instituto de prevenção de violência na escola dos EUA entrevistou 477 alunos e 456 pais e constatou que 2/3 dos alunos participam de grupos que intimidam colegas; só 1/3 acha que a escola penaliza os intimidadores; entre as vítimas, apenas 16% pediriam ajuda a um professor e, entre recorrer aos pais ou a um amigo, 78% escolheriam o amigo. Na Alemanha, pesquisa entre 1100 jovens das 7ª e 8ª séries (2003) apontava que 60% já tinham batido em colegas nos últimos seis meses; 5% os intimidam regularmente e 8% os ameaçaram com facas e pistolas.
Na França, 23,9% dos alunos já foram agredidos; 72,4% sofreram insultos e 45,1% foram roubados. Mas esses percentuais não batem com dados oficiais, como frisou o representante do país em palestra sobre violência escolar na reunião da SBPC de 2004, em Cuiabá. Os dados oficiais apontam apenas 0,12% dos alunos como vítimas de furtos, 0,32% como vítimas de agressões e 0,25%, de insultos. Denúncias não são levadas à polícia: lá como cá, os alunos não crêem que ela vá protegê-los de represálias.
No Brasil, a pesquisadora Miriam Abramovay, vice-coordenadora do Observatório de Violência nas Escolas, realizou pesquisa com mais de 12 mil estudantes em 143 escolas públicas do Distrito Federal, Belém, Salvador, Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo: 84% dizem haver violência nas escolas; 37% já foram furtados e 4,7%, agredidos; 21,7% já viram canivetes e 12,1%, revólveres em sala de aula. Entre os que consideram a escola péssima/ ruim, 90,7% queixam-se da violência, assim como 78,3% dos que a consideram "boa/ótima". Ou seja, a violência campeia nas melhores instituições.
E que ações distintos países vêm promovendo para amenizar o fenômeno que fez do magistério profissão de risco e dividiu alunos em opressores e vítimas? Nos EUA, os estabelecimentos se equipam, contratam seguranças e dois mil deles estão recompensando alunos que informam, via disque-denúncia, atividades suspeitas. Na Inglaterra, crianças de dez anos respondem por seus crimes e podem ser expulsas da rede escolar. A Argentina desenvolve um trabalho pioneiro na América Latina, treinando professores para mediar conflitos. No México, implantou-se o programa Contra la violencia, eduquemos para la paz. Por ti, por mí y por todo el mundo. A Unesco propõe o Programa Abrindo Espaços: Educação e Cultura para a Paz, nascido da observação de experiências nos Estados Unidos, França, Espanha e países onde o trabalho com jovens nas dimensões artísticas, culturais e esportivas funcionou como prevenção à violência.
No Brasil, além do reforço de policiamento no entorno, as escolas também devem perder o escrúpulo de adotar medidas de segurança. Além disso, deve ser efetiva a integração famílias/escola, para que esta seja gerida de modo democrático e ofereça aos alunos oportunidades de expressarem seus talentos, não sua crueldade. Recomenda-se, ainda, turmas pequenas, para que alunos-problema sejam identificados e tenham mais facilidade de se adequarem ao contexto escolar. O ambiente deve favorecer o diálogo e a confiança, e a formação para a ética e tolerância, pressupostos da cidadania, deve ser priorizada. Mas educar para a cidadania também pressupõe que os alunos devem aprender a assumir a responsabilidade por seus atos. E complacência e violência, no caso, não rimam.


O problema se alastra pelo mundo como rastilho de pólvora, mas, no Brasil, embora o governo admita sua existência, ele não é prioritário dentro das políticas educacionais. Iniciativas para combatê-lo geralmente partem de entidades como Unesco, pesquisadores e secretarias de educação. O MEC as apóia, mas elas contemplam um número reduzido entre mais de 200 mil estabelecimentos e não há diretrizes para um combate efetivo à violência escolar. As discussões são estéreis e as soluções apontadas abarcam desde munir escolas com modernos aparatos de segurança, até a implementação de projetos que visam à oferta de atividades culturais e esportivas para os alunos, passando pelo treinamento de professores em mediação de conflitos. Todas têm seu lado positivo e devem ser tentadas em conjunto, desde que não se caia em exageros: nem podemos transformar escolas em fortalezas, onde olhos eletrônicos vigiam qualquer movimento, e (no outro extremo) tampouco podemos nutrir a ilusão de que um jogo de bola nos fins de semana demoverá jovens infratores do hábito de portar armas e drogas e ameaçar a integridade física e mental de professores e colegas.
Inadmissível é adiar providências enquanto se buscam as causas da violência escolar e nos perdemos em um labirinto de achismos. De um lado, muitos crêem que as escolas são autoritárias, sufocam os alunos e favorecem sua agressividade. Outros acham que falta mais disciplina. De que lado você está? Particularmente, acho curioso que a ordem e disciplina que caracterizam as escolas japonesas não tenham evitado que, ano passado, uma menina de 11 anos tirasse a vida de uma colega com um estilete, porque não gostou da mensagem que esta lhe enviara pela internet.
Obviamente, há dois problemas em um. O primeiro, segundo especialistas norte-americanos, que têm como marco a tragédia de Columbine (em 1999, dois meninos mataram 12 colegas, um professor e se suicidaram), é o fato das escolas não estarem preparadas para detectar alunos com problemas emocionais graves. O Centro Nacional de Segurança nas Escolas (National School Safety Center NSSC) elaborou até uma lista de características dos alunos-problema que beiram a patologia para que sejam identificados antes de causarem uma desgraça. Esses casos bárbaros, no entanto, desvelam o segundo problema: um cotidiano de violências em vários graus, com a qual os alunos compactuam ou da qual temem falar.
A Unesco alerta que nas escolas impera a lei do silêncio e não há confiança entre professores, alunos e pais. O instituto de prevenção de violência na escola dos EUA entrevistou 477 alunos e 456 pais e constatou que 2/3 dos alunos participam de grupos que intimidam colegas; só 1/3 acha que a escola penaliza os intimidadores; entre as vítimas, apenas 16% pediriam ajuda a um professor e, entre recorrer aos pais ou a um amigo, 78% escolheriam o amigo. Na Alemanha, pesquisa entre 1100 jovens das 7ª e 8ª séries (2003) apontava que 60% já tinham batido em colegas nos últimos seis meses; 5% os intimidam regularmente e 8% os ameaçaram com facas e pistolas.
Na França, 23,9% dos alunos já foram agredidos; 72,4% sofreram insultos e 45,1% foram roubados. Mas esses percentuais não batem com dados oficiais, como frisou o representante do país em palestra sobre violência escolar na reunião da SBPC de 2004, em Cuiabá. Os dados oficiais apontam apenas 0,12% dos alunos como vítimas de furtos, 0,32% como vítimas de agressões e 0,25%, de insultos. Denúncias não são levadas à polícia: lá como cá, os alunos não crêem que ela vá protegê-los de represálias.
No Brasil, a pesquisadora Miriam Abramovay, vice-coordenadora do Observatório de Violência nas Escolas, realizou pesquisa com mais de 12 mil estudantes em 143 escolas públicas do Distrito Federal, Belém, Salvador, Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo: 84% dizem haver violência nas escolas; 37% já foram furtados e 4,7%, agredidos; 21,7% já viram canivetes e 12,1%, revólveres em sala de aula. Entre os que consideram a escola péssima/ ruim, 90,7% queixam-se da violência, assim como 78,3% dos que a consideram "boa/ótima". Ou seja, a violência campeia nas melhores instituições.
E que ações distintos países vêm promovendo para amenizar o fenômeno que fez do magistério profissão de risco e dividiu alunos em opressores e vítimas? Nos EUA, os estabelecimentos se equipam, contratam seguranças e dois mil deles estão recompensando alunos que informam, via disque-denúncia, atividades suspeitas. Na Inglaterra, crianças de dez anos respondem por seus crimes e podem ser expulsas da rede escolar. A Argentina desenvolve um trabalho pioneiro na América Latina, treinando professores para mediar conflitos. No México, implantou-se o programa Contra la violencia, eduquemos para la paz. Por ti, por mí y por todo el mundo. A Unesco propõe o Programa Abrindo Espaços: Educação e Cultura para a Paz, nascido da observação de experiências nos Estados Unidos, França, Espanha e países onde o trabalho com jovens nas dimensões artísticas, culturais e esportivas funcionou como prevenção à violência.
No Brasil, além do reforço de policiamento no entorno, as escolas também devem perder o escrúpulo de adotar medidas de segurança. Além disso, deve ser efetiva a integração famílias/escola, para que esta seja gerida de modo democrático e ofereça aos alunos oportunidades de expressarem seus talentos, não sua crueldade. Recomenda-se, ainda, turmas pequenas, para que alunos-problema sejam identificados e tenham mais facilidade de se adequarem ao contexto escolar. O ambiente deve favorecer o diálogo e a confiança, e a formação para a ética e tolerância, pressupostos da cidadania, deve ser priorizada. Mas educar para a cidadania também pressupõe que os alunos devem aprender a assumir a responsabilidade por seus atos. E complacência e violência, no caso, não rimam.


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