Entrevista com Eduardo Giannetti

Sem medo de errar, eu diria que <b>Eduardo Giannetti </b>é uma das maiores inteligências do país. Giannetti é economista pela FEA/USP, formado em Ciências Sociais pelo FFLCH/USP e PhD pela Universidade de Cambridge. Já lecionou na FEA/USP e também em Cambridge. Atualmente, é professor do Ibmec-SP. No último dia 19 de abril, Eduardo Giannetti esteve em Porto Alegre, a convite da <b>Revista Amanhã</b>, onde proferiu a palestra que leva o nome de sua obra – <i>O Valor do Amanhã</i>. Na ocasião, o autor conferiu a seguinte entrevista.

Sem medo de errar, eu diria que Eduardo Giannetti é uma das maiores inteligências do país. Giannetti é economista pela FEA/USP, formado em Ciências Sociais pelo FFLCH/USP e PhD pela Universidade de Cambridge. Já lecionou na FEA/USP e também em Cambridge. Atualmente, é professor do Ibmec-SP. Já escreveu diversos livros, dentre os quais destacam-se
Vícios privados, benefícios públicos? e

As partes & o todo, ambos ganhadores do Prêmio Jabuti, o mais tradicional e importante prêmio concedido ao mercado editorial do Brasil.

Giannetti está novamente na lista dos best-sellers brasileiros com o seu mais recente livro O Valor do Amanhã - Ensaio Sobre a Natureza dos Juros.



No último dia 19 de abril, Eduardo Giannetti esteve em Porto Alegre, a convite da Revista Amanhã, onde proferiu a palestra que leva o nome de sua obra O Valor do Amanhã. Na ocasião, o autor conferiu a seguinte entrevista.


Leandro Vieira (LV) - Qual o fator que você acha mais importante para explicar a nossa baixa taxa de poupança:
a) o caráter epicurista do povo brasileiro, que prefere o consumo imediato ao consumo futuro; ou
b) a existência de um grande contingente de pessoas que aufere uma renda muita baixa, uma vez que as camadas mais pobres da população não podem poupar pois mal conseguem satisfazer as suas necessidades mais básicas de consumo?


Não acho que é uma coisa ou outra. Na verdade, são muitos fatores. Não está contemplado aí na pergunta que o momento atual da vida brasileira talvez seja o principal fator de baixo nível de poupança na sociedade. É o fato de que o estado brasileiro arrecada 38% da renda nacional na forma de tributos, ainda por cima tem um déficit nominal gasta mais do que arrecada de algo em torno de 2 a 3% do PIB, e embora ele absorva 40% da renda nacional brasileira que é a soma da carga tributária mais o déficit nominal -, a sua capacidade de poupar e investir é ínfima. Quase a metade da renda dos brasileiros, o valor que os brasileiros criam com o seu trabalho, é drenado pelo setor público, e no setor público se transforma em gasto ruim e não em novos investimentos. O comportamento social brasileiro e a psicologia social brasileira são dados que não vão mudar no curto prazo. O que dá para mudar no curto prazo é esse padrão em que o estado entra nessa equação na direção errada. Ao invés de contribuir para que a sociedade poupe e invista mais, ele acaba contribuindo para que a sociedade poupe menos e invista menos. Isso aí é o que dá para mudar.

LV - Há alguns pressupostos - que inclusive fazem parte do senso comum - que traçam uma imagem do brasileiro como um sujeito criativo e empreendedor. Inclusive, figuramos sempre entre os países mais empreendedores do mundo. Em sua opinião, quais são as reais vocações do brasileiro em termos de real potencial para a criação de riqueza?

Pode até ser um senso comum, mas eu acho que, de fato, a sociedade brasileira tem vocação empreendedora forte. O que nós não temos é muita disciplina, nem muito preparo para tornar essa vocação empreendedora em uma realidade econômica. São muitas iniciativas de precaríssima viabilidade e com muita improvisação e que não redundam em organizações e empresas capazes de agregar valor. Agora, a febre empreendedora do brasileiro é uma coisa espantosa. Basta ir em qualquer periferia e observar como as pessoas tomam iniciativas, muitas vezes atabalhoadamente, mas elas não se resignam, elas buscam fazer alguma coisa. E o pior: muitas vezes acabam tomando iniciativas empreendedoras na direção da criminalidade, que não deixa ser um empreendedorismo, mas muito mal direcionado.


LV - O problema do baixo crescimento brasileiro se deve basicamente a que fatores?

Baixa poupança, baixo investimento, baixa formação de capital físico e de capital humano.

LV - E o que explica o sucesso de outras economias emergentes, como a China, Índia e Coréia do Sul? O Brasil deve seguir a receita desses países ou seguir outro caminho diferente?

Acho que nós temos muito a aprender com o sucesso dos países asiáticos, que dos anos 60/70 pra cá deram saltos de desenvolvimento muito consistentes. A principal lição não é nenhuma medida mágica de política macroeconômica. A principal lição é a seriedade com que eles trataram a formação de capital humano: ensino fundamental, planejamento familiar e uma certa disposição a se aprimorar nas competências para formar valor.

Existe uma saída [para o Brasil]: educação fundamental de qualidade para toda a população. A universalização de um ensino fundamental de qualidade. Capital humano é o que mais funciona para equalizar rendimentos. Se o Brasil é um país muito desigual, praticamente a metade dessa desigualdade advém de desigualdade educacional.


LV - Os recentes escândalos de corrupção e os seus respectivos efeitos em termos de opinião pública demonstram que a sociedade brasileira não consegue perceber a real dimensão que a falta de ética acarreta ao desenvolvimento de uma nação. Em sua opinião, em termos objetivos, quais são os reflexos da corrupção na dinâmica econômica?

Uma conseqüência muito grave da situação que o Brasil vem vivendo nos últimos 8 meses é que se tirou totalmente o foco do governo das questões que realmente importam para o país. O governo está muito paralisado e consumido nas suas entranhas pela administração de uma crise de governabilidade, uma crise de credibilidade. Isso é péssimo para o país. A segunda metade de um mandato já é uma parte mais enfraquecida do mandato, mas no caso do governo Lula foi muito mais longe. O governo praticamente implodiu e hoje vive o dia a dia mais improvisado apagando incêndios. Isso prejudica muito perspectiva do país.

LV - E qual seria a saída (se é que existe) para reverter esse caráter apático da população?

Isso é uma coisa preocupante. Parece que boa parte da população se resignou à existência da corrupção como um fato incontornável da vida pública brasileira. Cabe a nós, que somos mais informados, que tentamos formar opinião de alguma maneira, mostrar que existem alternativas e que não precisa ser assim, inclusive mudando algumas regras que acabam favorecendo a prática de corrupção em nossa país.


LV - Que conselho você daria para o nosso próximo presidente?

Usar o início do mandato de uma maneira muito corajosa para fazer as mudanças estruturais que o país precisa. Se não usar o capital político do início do mandato, e deixar pra mais tarde, não conseguirá fazer.



Algumas obras de Eduardo Giannetti publicadas no Brasil:

O Valor do Amanhã - Companhia das Letras, 2005.
O Mercado das Crenças: Filosofia Econômica e Mudança Social - Companhia das Letras, 2003
Felicidade - Companhia das Letras, 2002
Auto-Engano - Companhia de Bolso
Vícios Privados, Benefícios Públicos?: a Ética na Riqueza das Nações - Companhia das Letras, 1999

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