Então, você quer mudar o país?

O pensamento atual de que a situação institucional do país é culpa de um partido é infantil. Está na hora de parar de pensar assim. A política não começa com os políticos: Ela começa com a gente

O cenário da política atual nos leva à sensação terrível de que está tudo desmoronando. De que o governo acabou com menos de um ano de reeleito e que estamos afundados numa crise na qual atingiremos um nível somaliano de desenvolvimento.

O descrédito total no país é estimulado todos os dias desde antes da campanha eleitoral para presidente, da qual não saímos ainda. Na TV, petistas acusados, de supostamente serem suspeitos de alguma coisa, de acordo com uma suposta delação de um delator. Nas ruas, as pessoas falam com raiva de “sua presidenta”. Panelas batem para o governo e seus aliados. Nas redes sociais, coxinhas e petralhas trocam farpas. Falam em impeachment. Em intervenção militar constitucional. E nem sabem direito quem assume no lugar.

A negação da política é o resumo de tudo isso: A omissão da sociedade em tomar seu lugar nas discussões que movem o país é o que nos fez chegar a este ponto. E a negação continua a ser estimulada: Ela será hoje à noite, novamente, no jornal do horário nobre. Seria essa a solução? O pensamento de que “a culpa não é minha, porque votei no outro cara” é do que o país precisa?

Os debates inflamados nas redes sociais, em sua maioria, seguem uma lógica perversa do quem é o pior dentre os piores, comparando escândalos de corrupção: Mensalões petistas, mensalões tucanos, mensalões democratas. Máfia das próteses, máfia dos fiscais, Caso Banestado, Trensalão. Lista de Furnas, Aécioporto, Sanguessugas. Nomenclatura fácil de pegar, mas dando a entender que a política brasileira está totalmente corrompida, sem o menor sinal de esperança. Mas ela ainda precisa existir e precisa ser recuperada quanto à sua essência de fazer acontecer as decisões que tocam o país e a vida de todos nós. Como fazer isso?

Com você.

Sim, você é peça fundamental na recuperação da ética na política nacional. Não. Não estou pedindo seu voto. Vai muito além do voto. Explico: A política não nasce em Brasília. Nasce na articulação que você faz para conseguir fechar uma venda em sua empresa. Você tem um objetivo, a outra parte tem outro objetivo, ambos vêem vantagens e desvantagens, um debate é realizado e a venda é concebida ou não. Não me refiro à política como a venda, mas como a articulação dela. O debate em torno de um objetivo a fim de alcançá-lo. E além de sua empresa, isso acontece também em sua comunidade, quando uma articulação com seus vizinhos pode recuperar uma praça com corrimões quebrados, iluminação ruim ou consertar um playground para as crianças.

A política acontece quando queremos a ajuda dos outros para atingir nossos objetivos. Sejam eles para o bem de todos ou de uma meia-dúzia. Mas eu já sei até a cor da gravata dessa meia-dúzia em que você acabou de pensar e isso é prova de que está mais do que na hora de pararmos de achar que a política é só para os políticos. Ela começa com a gente. E começa em nossa comunidade.

O distanciamento da política de nossas comunidades é resultado de um processo histórico movido há décadas através da exploração da ignorância, alimentada por uma educação pública desvalorizada intencionalmente, seguida também de uma saúde pública igualmente desvalorizada, criando um imenso abismo que separou as classes sociais que precisam desses serviços das que não precisam.

Apesar dos protestos dos mais radicais e odiosos, os governos recentes diminuíram este abismo e hoje a informação e o conhecimento está ao alcance dos que querem buscá-lo. Está mais do que na hora de reverter o quadro da ignorância e fazer em sua comunidade a política que você quer para o país. Há algum tempo se denuncia a indignação seletiva, a demagogia, a hipocrisia e o elitismo com que a política tem sido tratada pela chamada “grande imprensa”, que fala para todo o país, dita o ritmo das discussões e tenta impor sua vontade através da massificação da desinformação.

Mas também é fato que essa mesma grande imprensa hoje não fala mais para a mesma quantidade de pessoas de há dez anos atrás e que as redes sociais se tornaram palco dos embates, tendo a blogosfera como fonte de munição – real ou factoide.

Para recuperar a ética na política, é preciso, primeiro, se libertar de fontes tendenciosas de informação, sejam elas pró governo ou pró golpe. A ética não virá de cima para baixo, mas de baixo para cima. Virá de “nós, o povo”. Com as nossas atitudes a nível local, nossos exemplos comunitários de que a política também serve para melhorar a vida das pessoas e que é sobre isso o que devemos articular. É com nossos vizinhos, cuidando de um jardim comunitário, ou de uma associação de comerciantes, ajudando a bancar um sistema de vigilância eletrônica na praça onde estão os comércios, são os grêmios estudantis, que devem sair dos muros das escolas e provocar os alunos a buscarem convênios com instituições de ensino para desconto em cursos complementares, são os jovens trabalhadores, que devem sim, ingressar na luta sindical, os professores que devem passar confiança de que uma política séria deve começar a nível comunitário aos seus alunos, sem buscar a alienação para um lado ou outro da política e que suas convicções políticas não se resumam a por a culpa no PT por qualquer coisa, mas entender que o nosso sistema político precisa de uma mudança profunda, prometida, mas roubada, pelas alterações no Projeto de Lei 75 de 2015, a “minirreforma” política, para depois buscarmos mudanças mais profundas a nível de poder executivo e legislativo. Tanto o PT, quanto o PSDB, PMDB, DEM, os nanicos e os novos vão seguir jogando o velho jogo, enquanto as regras não forem mudadas. Não surgirão “Salvadores da Pátria” neste meio já apodrecido de jogos de interesses.

O salvador da pátria sou eu. É você. É seu vizinho. É o filho dele. É seu professor de filosofia do colegial. É o policial que não aceita suborno. É o dono do bar que não vende bebida a menores de 18. E qualquer um de nós pode ser vereador, deputado, prefeito, governador, senador, presidente... E continuarmos íntegros, porque aprendemos lá atrás que a política começa em nossa comunidade, na busca pelo melhor para o comum e não para si mesmo.

A política só vai mudar de verdade quando nós começarmos esta mudança. Não é com panelas batendo para a Dilma e totalmente mudas para o Cunha que isso será feito, mas quando enchermos estas panelas de comida e ajudarmos a alimentar aos que estão com fome sob algumas marquises. Não precisa esperar pelos outros. O país tem pressa.

“Antes de querer mudar o mundo, mude a si mesmo”
Gandhi

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