ENSINANDO A FAZER HISTÓRIA

Não é de hoje o processo ensino-aprendizagem na educação básica é repensado, sobretudo após a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases do Ensino e a fixação das Diretrizes Curriculares Nacionais, que batem pé na contextualização e no desenvolvimento de uma visão crítica tanto nos estudantes quanto em seus mestres.

Não é de hoje o processo ensino-aprendizagem na educação básica é repensado, sobretudo após a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases do Ensino e a fixação das Diretrizes Curriculares Nacionais, que batem pé na contextualização e no desenvolvimento de uma visão crítica tanto nos estudantes quanto em seus mestres. Docentes de todas as disciplinas admitem a necessidade de introduzir modificações no modo como conteúdos são transmitidos e de preencher suas lacunas. Mas tomo a liberdade de me fixar nos acertos e desacertos relativos aos novos métodos que se tem tentado impor ao ensino de História, e à inclusão de novos conteúdos, como a história africana, sem maiores discussões sobre como viabilizar as mudanças.
Basta ter sentado num banco de escola há 20 ou 30 anos para concordar que as aulas de História provocavam um tédio incontrolável com seu bla-bla-blá de fatos, datas e nomes de personagens que pareciam ter trazido a sociedade a reboque, como se a voz de milhões de anônimos não tivessem exercido influência nas circunstâncias que geraram os fatos. No mundo todo (no Brasil, particularmente após a abertura política), esta maneira de ensinar História começou a mudar.

Mais importante que contar os fatos é analisar as forças sociais em ação em dada época e esclarecer que os heróis foram aqueles que dispunham dos meios (e inteligência, competência etc.) para liderar movimentos sustentados por uma massa de desconhecidos. Tão importante quanto, é conseguir que o aluno compreenda como a combinação de acontecimentos durante várias gerações levou à construção do mundo atual e do seu país, afetando nossa percepção, crenças e valores.


Mas a reação à transmissão inadequada dos conteúdos da História levou também a equívocos, até nos livros didáticos. Há alguns anos a ONG Projeto Reeducar, de São Paulo, encaminhou ao MEC manifesto (que mantém de pé) contra (...) aqueles que, por meio de textos de literatura escolar, buscam quebrar em nossos filhos o orgulho de serem brasileiros, deformando as imagens dos grandes personagens históricos do nosso País!. Não podemos tirar sua razão, sobretudo quando o livro confunde linguagem coloquial com grosseria. A Princesa Isabel, por exemplo, era classificada pelo autor como feia como a peste e estúpida como uma leguminosa (fonte: O Globo, 14/04/02). Não é assim que discutiremos a maior ou menor importância da Princesa no processo que resultou na abolição. No mais, feia e estúpida são adjetivos que depreciam (se crianças vêem que são usados em um livro didático, tido como coisa séria, não verão problema em atacar com eles outras pessoas). Lembro que o edital do MEC para a escolha de obras escolares avisa que elas devem se guiar por preceitos éticos, o que inclui não veicular preconceitos que levem a discriminações (origem, etnia, gênero, religião, idade ou quaisquer outras formas de discriminação). Grifo meu.
Não creio ser intenção dos pesquisadores sérios derrubar heróis a pretexto de modernizar o ensino, pois cairíamos em uma armadilha: todos os países (desenvolvidos, sobretudo) cultuam personagens que despertam em seus povos o orgulho por suas origens. A missão dos pesquisadores é jogar luz sobre heróis sem nome que construíram a sociedade. Uma das providências que o governo tomou foi aprovar a lei 10639/03, obrigando o ensino da História da África e afrodescendentes na educação básica. Em 2004, o Conselho Nacional de Educação instituiu as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana.


O Brasil é plurirracial e, em se tratando dos africanos, dos quais descende quase metade da população, é imperioso sabermos como seus valores e cosmovisão interferiram na formação da identidade brasileira, antes e após contato com outros grupos. Mas, de novo, caímos em uma armadilha, pois se os professores não contam a história da África é porque não a conhecem. Discorrer sobre povos que, desde o início dos tempos, documentaram seus passos, é fácil. Mas quem se dispõe a matar as charadas africanas? O MEC destinará recursos para os pesquisadores dispostos a encarar o desafio, in loco? A lei 10639 levará a uma abordagem superficial do assunto nas escolas, pois sem pesquisa acadêmica não será possível expor a riqueza cultural do continente onde a espécie humana surgiu.

Estabelecer o que e como devemos ensinar é ter uma visão simplória da reforma que se faz necessária. A transformação só ocorrerá estimulando nos alunos e professores da educação básica o espírito investigativo e dando-lhes condições de recorrerem a fontes alternativas ao livro didático. Estes procedimentos devem estar ligados a mudanças nas licenciaturas e no incentivo (leia-se financiamento) a linhas de pesquisa que iluminem trechos obscuros da História, relativos não só à África, mas às complexas civilizações que povoavam as Américas antes dos europeus aportarem aqui, com sua vasta experiência de como fazer História. Em breve, falaremos disso.


Não é de hoje o processo ensino-aprendizagem na educação básica é repensado, sobretudo após a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases do Ensino e a fixação das Diretrizes Curriculares Nacionais, que batem pé na contextualização e no desenvolvimento de uma visão crítica tanto nos estudantes quanto em seus mestres. Docentes de todas as disciplinas admitem a necessidade de introduzir modificações no modo como conteúdos são transmitidos e de preencher suas lacunas. Mas tomo a liberdade de me fixar nos acertos e desacertos relativos aos novos métodos que se tem tentado impor ao ensino de História, e à inclusão de novos conteúdos, como a história africana, sem maiores discussões sobre como viabilizar as mudanças.
Basta ter sentado num banco de escola há 20 ou 30 anos para concordar que as aulas de História provocavam um tédio incontrolável com seu bla-bla-blá de fatos, datas e nomes de personagens que pareciam ter trazido a sociedade a reboque, como se a voz de milhões de anônimos não tivessem exercido influência nas circunstâncias que geraram os fatos. No mundo todo (no Brasil, particularmente após a abertura política), esta maneira de ensinar História começou a mudar.
Mais importante que contar os fatos é analisar as forças sociais em ação em dada época e esclarecer que os heróis foram aqueles que dispunham dos meios (e inteligência, competência etc.) para liderar movimentos sustentados por uma massa de desconhecidos. Tão importante quanto, é conseguir que o aluno compreenda como a combinação de acontecimentos durante várias gerações levou à construção do mundo atual e do seu país, afetando nossa percepção, crenças e valores.
Mas a reação à transmissão inadequada dos conteúdos da História levou também a equívocos, até nos livros didáticos. Há alguns anos a ONG Projeto Reeducar, de São Paulo, encaminhou ao MEC manifesto (que mantém de pé) contra (...) aqueles que, por meio de textos de literatura escolar, buscam quebrar em nossos filhos o orgulho de serem brasileiros, deformando as imagens dos grandes personagens históricos do nosso País!. Não podemos tirar sua razão, sobretudo quando o livro confunde linguagem coloquial com grosseria. A Princesa Isabel, por exemplo, era classificada pelo autor como feia como a peste e estúpida como uma leguminosa (fonte: O Globo, 14/04/02). Não é assim que discutiremos a maior ou menor importância da Princesa no processo que resultou na abolição. No mais, feia e estúpida são adjetivos que depreciam (se crianças vêem que são usados em um livro didático, tido como coisa séria, não verão problema em atacar com eles outras pessoas). Lembro que o edital do MEC para a escolha de obras escolares avisa que elas devem se guiar por preceitos éticos, o que inclui não veicular preconceitos que levem a discriminações (origem, etnia, gênero, religião, idade ou quaisquer outras formas de discriminação). Grifo meu.
Não creio ser intenção dos pesquisadores sérios derrubar heróis a pretexto de modernizar o ensino, pois cairíamos em uma armadilha: todos os países (desenvolvidos, sobretudo) cultuam personagens que despertam em seus povos o orgulho por suas origens. A missão dos pesquisadores é jogar luz sobre heróis sem nome que construíram a sociedade. Uma das providências que o governo tomou foi aprovar a lei 10639/03, obrigando o ensino da História da África e afrodescendentes na educação básica. Em 2004, o Conselho Nacional de Educação instituiu as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana.
O Brasil é plurirracial e, em se tratando dos africanos, dos quais descende quase metade da população, é imperioso sabermos como seus valores e cosmovisão interferiram na formação da identidade brasileira, antes e após contato com outros grupos. Mas, de novo, caímos em uma armadilha, pois se os professores não contam a história da África é porque não a conhecem. Discorrer sobre povos que, desde o início dos tempos, documentaram seus passos, é fácil. Mas quem se dispõe a matar as charadas africanas? O MEC destinará recursos para os pesquisadores dispostos a encarar o desafio, in loco? A lei 10639 levará a uma abordagem superficial do assunto nas escolas, pois sem pesquisa acadêmica não será possível expor a riqueza cultural do continente onde a espécie humana surgiu.
Estabelecer o que e como devemos ensinar é ter uma visão simplória da reforma que se faz necessária. A transformação só ocorrerá estimulando nos alunos e professores da educação básica o espírito investigativo e dando-lhes condições de recorrerem a fontes alternativas ao livro didático. Estes procedimentos devem estar ligados a mudanças nas licenciaturas e no incentivo (leia-se financiamento) a linhas de pesquisa que iluminem trechos obscuros da História, relativos não só à África, mas às complexas civilizações que povoavam as Américas antes dos europeus aportarem aqui, com sua vasta experiência de como fazer História. Em breve, falaremos disso.


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