Enquanto assistimos TV

A TV é o centro da sua casa. Pode e deve ser grande, quanto maior, melhor. Sua mobília deve centralizá-la. Tudo gira em torno dela. Mas, o que é realidade e o que é ficção?

Nessa semana, fui abordada por um casal com filhos lindos e gêmeos. O moço falava bem, a moça melhor ainda.

Estavam na rua com as crianças há dois meses, eles diziam. Viviam da solidariedade das pessoas que passavam e que automaticamente prestavam atenção naqueles bebês lindos e loiros. E comigo, não foi diferente: me compadeci.

Eles pediam fraldas e leite para as crianças. E como mãe, eu fiquei com o coração arrebentado. Logo a bebezinha loira de olhos azuis veio para o meu colo, enquanto seu irmão dormia no carrinho emprestado. Naquele momento, as histórias que ouvi por ai -de que tais pessoas pediam fraldas e leite para vender e consumir drogas - se calou dentro de mim, e deu lugar a um sentimento de responsabilidade para com aquela família.

Com a menininha no colo e a familia ao meu lado, entramos no mercado. Enquanto isso, eu ouvia do pai que, em troca de dinheiro e ajuda, algumas pessoas pediam a filha deles - aquela bebezinha loira e carinhosa, com olhos azuis puros e doces que estava no meu colo. Ouvi do pai que o conselho tutelar estava atrás deles para lhes tomar as crianças, e que tinha receio de deixar a mãe sozinha com os filhos gêmeos na rua enquanto ele fazia algum "bico". Ouvi ainda do pai que, não tendo endereço fixo, era mais dificil ainda conseguir trabalho.

Não pude deixar de notar que os gêmeos estavam gordinhos, limpos e corados. Compramos alguns "produtos emergenciais" no mesmo mercado que eu costumo fazer as minhas compras. Ofereci ainda banana, mas a mãe me mostrou que já tinha no carrinho, e que poderia estragar se comprássemos mais. A caixa, uma senhora, perguntou se aquela bebê era minha sobrinha, e eu disse "sim". O casal, permitiu na saída do supermercado, que eu os fotografasse com as crianças. Nos despedimos, e meu coração apertou ao devolver aquela menina e me despedi olhando aquelas duas crianças, me colocando no lugar deles. O pai me estendeu a mão e agradeceu. A mãe, percebendo que eu estava com os olhos marejados, me disse:

"Acalma o seu coração. Estamos bem. Já temos o que precisamos pra hoje. Fica tranquila."

Se a história que me contaram é verdade, eu não sei. O que sei é que o desemprego é uma realidade,que fica mais dificil pagar o aluguel. Que as contas de água e luz batem todos os meses à nossa porta. Sei ainda que os mercados não estão tão cheios de gente apressada com os carrinhos abarrotados pra passar no caixa.

Lembrei-me que não é mais necessário saber a matéria pra passar de ano na escola. Lembrei que cidadania não é mais assunto importante. Que oportunidades estão escassas, e quando aparecem, não encontram gente preparada.

O que sinto? Mais do que revolta. Tristeza.

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