Enem 2014 e adultos crianças

Análise dos resultados do Enem 2014 tendo em vista o rendimento dos alunos de Escolas Públicas no Estado de São Paulo

Os dados do Enem 2014 foram divulgados no dia 5 de agosto pelo MEC.

A distância entre o desempenho das escolas ricas em relação aos colégios com público de baixa renda diminuiu um pouco, mas ainda há um abismo.

Em 2014, a média das notas de escolas classificadas no nível socioeconômico “muito alto”, ficou 133 pontos acima à das escolas no estrato “muito baixo”. No Enem anterior a diferença era maior, de 160 pontos.

A média das escolas de nível alto caiu, de 599 para 587 e a dos colégios do nível baixo subiu de 439 para 454. (F S P, 6.8.2015, p. B-1).

Das cem escolas com maiores notas no Enem 2014, em 15 a maioria dos alunos fez aulas do 1º ou 2º ano em outro colégio.

A nota média das escolas estaduais cresceu para 506 pontos e o conjunto de escolas públicas de outras unidades da federação teve nota 489, uma diferença de 21 pontos, que era de 26 no Enem 2012.

No conjunto de 10% dos colégios de todo o país mais bem colocados no exame, 34% eram paulistas. Na edição anterior eram 32%.

A maior parte dos colégios paulistas nesse grupo de elite é da rede particular. As escolas estaduais representam apenas 7% do grupo, mas todas são escolas técnicas.

A elite das escolas públicas é formada por uma maioria de escolas federais, que geralmente tem cursos técnicos ou são ligadas a universidades e fazem seleção de alunos. (F S P, 6.8.2015, p. B-4).

Os alunos das escolas públicas de São Paulo, mais bem colocadas no Enem 2014 têm renda e condição social muito distantes do restante da rede e comparáveis à de quem estuda nos colégios privados, mais bem avaliados.

Em 90% das cem escolas estaduais com melhor desempenho no exame, a maioria dos estudantes tem perfil sócio econômico “alto”, ou “muito alto” classificação dada pelo Ministério da Educação e que considera itens como renda familiar, bens e escolaridade dos pais.

Considerando toda a rede pública do Estado, esta proporção é de só 35%. Nas cem escolas particulares no topo do ranking, alcança 98%.

O grupo de elite das públicas é formado quase integralmente pelas Etecs (escolas técnicas estaduais), que fazem seleção de alunos, e por colégios ligados às universidades paulistas. (F S P, 7.8.2015, p. B-1).

“Mas, a nota média das dez escolas técnicas de melhor desempenho no Estado de São Paulo fica 75 pontos (3/4 de desvio padrão) acima da média das dez instituições estaduais regulares mais bem posicionadas.” (F S P, 8.8.2015, p. A-2).

O sucesso deste grupo de elite demonstra que é possível a escola pública de segundo grau ter boa qualidade e se as demais não tem o motivo não é o perfil sócio econômico, mas a orientação pedagógica que passou a predominar na Secretaria de Educação e que colocou em segundo plano o desempenho do aluno e a meritocracia.

Outras escolas que apresentam bom desempenho são as escolas básicas públicas administradas pela Polícia Militar. O modelo melhora o desempenho dos alunos. Em nove Estados, estes colégios ficaram em 1º entre as estaduais no Enem.

O Brasil atualmente tem 93 instituições de ensino da PM. Goiás tinha 18 e passou para 26 colégios militares em agosto. Minas Gerais aumentou de 20 para 22 e a Bahia, com 13, deve abrir mais quatro.

O que as escolas da PM têm de vantagem é exatamente aquilo que foi perdido em São Paulo com a concepção de que o aluno é um coitadinho e precisa ser superprotegido.

O professor perdeu autoridade e a indisciplina generalizou-se, refletindo no rendimento escolar, porque não há possibilidade de bom aproveitamento se um professor não consegue dar sua aula com tranquilidade e os alunos não prestam atenção.

É justamente o aspecto da disciplina que é valorizado nas escolas administradas pela PM. Alunos usam farda, prestam continência, e falam “senhor” e “senhora”. Descuidos com a higiene podem causar punição. São ensinadas “noções de cidadania” em sala de aula.

Estudantes que se destacam ganham condecorações e quem não se adapta é transferido. A disciplina cria um ambiente sem perda de tempo. Engana-se quem acha que os alunos não se aceitam este modelo. A maioria aprova porque sabe que somente com rigidez é que tem condições de participar de uma aula com tranquilidade e assim aprender mais. ( F S P , 10.08.2015, p. B-7) .

Qualidade no ensino

Como visto no resultado do Enem 2014, mais uma vez, a qualidade do ensino público de primeiro e segundo graus no Estado de São Paulo deixou a desejar por uma série de fatores. Planejadores escolares incorporaram teorias segundo as quais o aluno é um coitadinho, precisa ser protegido, e os responsáveis pelos altos índices de reprovação eram a escola e os professores.

Por isso, uma série de ajustes foram feitos. Acabou-se com a nota de zero a dez, substituída por conceitos que vão de A a E. A reprovação a cada série foi eliminada com a criação de ciclos. Isso sem contar que reprovação ao final de ciclos é muito difícil devido a conselhos de classe.

Mas, especificamente com relação à equivocada visão de que o aluno é um coitadinho e, portanto não poderia sofrer “frustrações”, na escola com notas baixas ou reprovação devido ao seu mau aproveitamento, é interessante citar as ideias da ex-reitora da Universidade Stanford, Julie Lythcott-Haims.

Segundo ela, “um adulto é, por definição, alguém capaz de refletir e descobrir como lidar com determinada situação... Essencialmente, um adulto coloca as questões a si mesmo, antes de coloca-la a seus pais”.

Mas, quando famílias ou instituições protegem em demasia os jovens, o resultado é que são criados “adultos-crianças”.

“Adultos-crianças”, “tem pouca confiança em si mesmos. “Os pais desses ‘adultos-crianças’, sempre determinaram o que eles tinham de fazer, e isso os impediu de desenvolver esse tipo de habilidade – pensar por si próprios e planejar o próximo passo. As consequências de uma vida excessivamente gerenciada pelos pais se refletem de maneira muito acentuada no trabalho”.

Pais superprotetores “são aqueles que acreditam que qualquer coisa pode machucar seus filhos e, por isso, preferem que eles estejam sempre dentro do seu campo de visão”.

Esse tipo de raciocínio pode ser estendido para o campo pedagógico. A escola deve ser um momento onde a criança e o jovem tem que encarar a realidade.

E a realidade é se não estuda, se é displicente, ou se tem dificuldade de aprender e vai mal nas provas e tira notas baixas e se mantém este comportamento ao longo de todo o ano, a consequência inevitável deveria ser a reprovação.

Com o uso de conceitos em vez de notas, o aproveitamento é mascarado. Com a criação de ciclos, não há reprovação ao final de cada ano e o problema vai sendo jogado para a frente, ficando para o final de cada ciclo.

Ao construir este mundo irreal, o que os educadores conseguiram foi mascarar os índices de reprovação que passam a ser totalmente irreais, desvalorizaram a figura do professor que fica totalmente desautorizado porque os alunos sabem muito bem que ele não pode reprovar ninguém.

Mas, se as estatísticas internas são maravilhosas com baixa reprovação e evasão, a realidade aparece nos exames de qualificação feitos, onde o desempenho médio dos alunos é muito baixo.

Também ao aliviar a situação do aluno em seu desempenho escolar o que a escola consegue é apenas jogar o problema para a frente, porque o mau aluno sai da escola, mas quando entra no mercado de trabalho não vai encontrar a mesma tolerância e sua formação deficiente acaba se refletindo no desempenho no trabalho e aí não tem conceitos em vez de notas, ou ciclos em vez de séries, mas sim a porta da rua.

As escolas incorporaram uma pedagogia superprotetora. Voltamos à Dra. Julie, “É difícil, mas é preciso deixar que as crianças vivam para que virem adultas. Não podemos segurá-las em nossos braços a vida inteira, cobri-las com plástico-bolha e manda-las para o mundo inteiramente protegidas de tudo. Temos de fortalecer seu caráter, sua determinação, seu senso de ‘ eu me machuquei, mas estou bem’”.

Ou seja, fazendo uma analogia para a vida escolar; “Eu tirei notas baixas na escola, mas estou bem”. Notas baixas e a frustração decorrente delas devem fazer parte do processo de crescimento e de amadurecimento da personalidade.

É assim que as crianças e os jovens devem crescer, deparando-se com obstáculos da vida, no caso da escola, com a necessidade de ter bom aproveitamento e, tendo dificuldades de aprendizagem, esforçando-se para superá-los e somente assim tornam-se verdadeiros adultos.

Ao superproteger jovens da escola, infelizmente, a instituição está contribuindo para criar “adultos-crianças”.

“São os pequenos fracassos da infância que desenvolvem as habilidades, as competências e a confiança dos adultos. O fracasso é talvez o melhor professor da vida, e ficamos mais fortes quando somos desafiados”. (Revista Veja 5.8.2015, p. 15-19).

É importante ressaltar que os professores das escolas estaduais de ensino fundamental e médio de São Paulo não tem culpa do baixo rendimento de seus alunos. O problema é do modelo, da concepção pedagógica. O sistema foi montado com base em princípios pedagógicos equivocados e o resultado, como não poderia deixar de ser está sendo um desastre, embora o Estado tenha um corpo docente devidamente qualificado.

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