Encontro com o meu Eu

Não subestime o poder da linguagem e das suas crenças, são elas que moldam seus comportamentos

Você já parou para observar que existe uma “voizinha” aí dentro de você que interfere diretamente no seu comportamento, na sua motivação, nos seus interesses, enfim, na forma da qual você interpreta o mundo? Essa “voizinha” de impulsiona ou te limita?

Não sei se isso acontece com você com muita freqüência, mas comigo é muito comum, é eu estar prestes a tomar alguma ação ou decisão e vem a “voizinha” a desencorajar-me, colocar-me medo e muitas vezes convencendo-me que não devo ir, que não devo fazer, que não devo sonhar...

Hoje resolvi encarar-me de frente! Já pensou em fazer o mesmo? Entenda que este outro eu (voizinha) existe e poderá impedir você de chegar onde você quer chegar. Na verdade, a questão é: “o que essa “voizinha” anda falando com você?

Convido-lhe a refletir de onde ela veio, como se instalou e como você pode diminuir o impacto que este “outro eu” tem (e terá) em sua vida, nas suas decisões e na construção do seu futuro a partir de agora. Como Paulo Vieira cita: “a palavra tem poder de mudança”, então escolha bem elas, em especial, quando conversa consigo!

Levando em consideração as palavras, a “palavra escrita é libertadora...

Carta de libertação

Creio que chegou a hora de nós conversarmos e optei por escrever esta carta. Assim deixarei registrado suas falas e minhas falas como um ritual de passagem. Isto mesmo! Um ritual de passagem, pois ao final Você terá menos importância para mim e saberei quando devo e quando não devo te ouvir, quem sabe ainda, poderei fazer você crescer e assim ser meu auxiliar ao invés de meu adversário.

Há muito tempo, quando eu ainda era um bebe, Você era bem menos presente em minha vida. Eu era provido de uma coragem sem igual, nem andar eu sabia e já me arriscava, caia, me levantava e acreditava que eu podia tudo. Lembro de meus pais sempre ao meu lado, dizendo:

- Cuidado! Isso não pode! É perigoso!

E eu simplesmente ignorava os medos e “conselhos” deles e lá estava novamente me arriscando, caindo, levantando e eles por amor a mim, diziam:

-Tome cuidado! Eu já te falei pra não fazer isso! Vou pôr você de castigo!

Fui crescendo e então Você foi ficando mais evidente e suas falas tomaram outros significados, não mais aqueles amorosos. Ampliaram-se as punições quando eu não correspondia às “expectativas” e a voizinha (Você) foi ganhando cada vez mais o seu próprio vocabulário. Mais recomendações vieram:

- isso é pecado! Isso é errado! Isso não é pra você! Que feio! Uma criança educada não faz isso. Jesus fica triste quando você faz essas coisas. Se você fizer isso novamente vou pôr você de castigo ... e tantas outras formas que foram aos poucos inibindo minha coragem e espontaneidade, que hoje não fazem mais sentido.

E Você se fortalecia, crescia cada dia mais.

E eu fui percebendo através dos olhos dos outros, que o mundo não é seguro. Que me arriscar é perigoso. Que o novo tem de ser evitado, que eu poderia ser punido caso eu não correspondesse às expectativas de sei lá quem e ainda, que eu precisava fazer tudo certo para ser aceito e amada.

Percebia em alguns momentos que mesmo quando “os tantos outros” não estavam presentes, eu ouvia a voz deles me corrigindo, alertando, inibindo e assim, eu parava de fazer aquilo que “eles” não iriam gostar que eu fizesse. A voz deles se confundia com a minha e eu já não sabia mais o que era real e verdadeiro.

E foi ai, que de fato Você tornou-se meu outro Eu. Você foi tomando uma proporção cada vez maior, se alimentou de novas entonações e de novas proibições e por fim, ganhou personalidade própria, ficando cada dia mais presente em minha vida e interferindo significativamente em minhas escolhas e comportamentos.

No início Você era tão criança como eu e seu jeito me confortava, porque de alguma forma me dava segurança, mas sem perceber eu estava te alimentando e me enfraquecendo, ficando dependente e as vezes até refém de Você. Embora, em alguns casos Você também me ajudou a evitar determinadas complicações, pelo menos eu acredito que sim.

Em vários momentos estávamos juntos, Você sempre falando nos meus ouvidos, bem próximo a mim! Na escola, quando caí, você estava lá, dizendo que eu deveria ter tomado cuidado! Quando tive que me apresentar para meus coleguinhas, Você estava lá, dizendo que eles não iam gostar de mim porque era pobre, inferior, sem graça. Você sempre achava um motivo negativo para me amedrontar.

Nas provas, Você era implacável! Você me dizia:

-Vai lhe dar um branco! Ou, Você não está preparada o suficiente. Você não é inteligente!

Nos grupos sociais, Você não perdoava e me falava bobagens ao perceber um sorriso irônico. E no vestibular? E na minha primeira entrevista de emprego? Lembro-me bem as palavras duras que você me dirigiu! Foram tantos outros momentos de desafio que Você estava lá, sem trégua, falando que eu “Nunca vou conseguir, que não sou capaz, que não vou aprender”. Dizia-me também que “está tudo perdido e que não adiantaria eu tentar me esforçar! Para que se estressar, se toda vez é a mesma coisa?”. Foram palavras duras, mas acabei me conformando ao longo desse tempo.

Apesar de tudo, nós tínhamos uma relação saudável, amistosa eu até acreditava que eu precisava de Você do jeito que você é! Eu gostava de Você e Você de mim. Você por diversas vezes me ajudou, mas não sei bem quando e onde Você mudou, ou eu mudei. Você foi ganhando cada vez mais espaço, ficamos rancorosos, medrosos, perdemos a coragem, o entusiasmo e o foco de experimentar as potencialidades do que somos capazes! Continuava me dizendo que “eu não sei de nada, que estou desperdiçando meu tempo em tentar, que ninguém iria me escutar ou me dar atenção”. E ainda que “eu não fazia nada direito!” Tantos nãos e nãos! Responsabilidade minha que lhe dei alimentos psicológicos, emocionais e de crenças erradas! Perdoemo-nos.

Você também me ensinou uma outra palavra, infelizmente, a palavra Se. Eu acreditei em Você! Achei que teria melhor emprego se fosse uma pessoa de sorte! Teria mais oportunidades se o Brasil não estivesse do jeito que está! Que seria mais feliz se tivesse tudo àquilo que não tenho!

Saiba Você que não viverei mais acreditando nos seus nãos e nas suas condições (Se)! Hoje tomo as rédeas da minha vida de volta!

Ajude-me a me observar, entender meus pontos positivos, aquilo que eu tenho de bom que poderá minimizar os pontos que eu ainda tenha que melhorar. Sendo tua proposta me ajudar, acredito que você pode aderir esta postura, não é mesmo? Quero ver o mundo com menos filtro, confiar mais em mim e nas pessoas. Saber que sou capaz, que tenho muitos talentos e que poderei fazer muito mais do que já fiz, principalmente se Você não ficar aqui minando minha coragem.

Trate de melhorar seu humor, sua percepção do mundo. Aprenda a fazer perguntas ao invés de ficar ai sentado no trono da “sabedoria universal” me dando respostas, acreditando que você tudo sabe e que as coisas só tem uma forma de serem vistas.

Troque o simples Se, por: e se você fizesse assim? E se você fosse por este outro caminho? Isso mudará tudo, me fortaleceria e é esta postura que eu quero de Você a partir de agora.

Aprendi a me perdoar, a dar valor a mim mesmo, bem como a celebrar as minhas vitórias! Dessa forma, estou cada vez mais aprendendo a lidar com os meus sentimentos de forma positiva e a construir uma imagem positiva de mim mesmo! Tenho me alimentando de palavras e pensamentos positivos, seja auto-sugestão, seja frequentando ambientes e grupos mais inspiradores. A cada frase sua que contém um não tenho duas outras mais afirmativas e positivas!

Aprendi a fazer perguntas ao invés de já ter respostas prontas com base no passado, na sua influência, naquilo que nem é meu, mas sim “dos outros”. Agora vou pergunto-me frequentemente:

O que é mais importante para mim? Quais são meus pontos fortes? Como posso melhorar certos comportamentos meus? Qual o primeiro passo? O que eu quero ser, ter e/ou fazer? Que estratégias e recursos preciso desenvolver e ter para atingir meus objetivos? O que está me impedindo de exercer o meu melhor? Que barreiras eu preciso remover nestas circunstâncias? Qual o meu primeiro passo hoje para me mover em direção aos meus sonhos e objetivos?

Despeço-me de “Você limitante” hoje, pois prefiro ficar com a versão melhorada de mim mesmo e com Você observador e orientador, caso você não consiga ser assim, aceitar as melhorias, não terei alternativa, a não ser me separar de Você.

O que a sua voz interior anda dizendo para você e o que você tem feito com ela?

Como tem negociado com o seu lado que te impede de ser uma versão bem melhor de você mesmo?

Um poema para reflexão que surgiu em meio a construção desse artigo!

Carta de alforria para meu crítico interno

E nesta carta registrei / Nossa longa caminhada/ A sua construção/ A minha libertação.

Hoje me encontrei!/ As cresças foram rasgadas/ A percepção ampliada/ hoje estou empoderada.

Os tombos de ontem apenas/ No ontem ficarão/ Olho para o futuro/ Deixo o passado no passado/ derrubo muitos muros.

Sinto que passei, de rascunho/ A carta oficial/ Queres seguir comigo?/ Então não me faças mal.

Podemos ser grandes amigas/ companheiras de viagem/ eu lhe ajudando/ você me devolvendo a coragem.

Autoria: Maria Tomasia

Nota: este texto tem como base uma das ferramentas de coaching chamada de “neutralizador de crítico interno”, embora não o traduza com precisão. Além disso, há alguns princípios de técnicas de mudança de comportamento que tentamos abordar de forma poética, bem como de mudanças de crenças limitantes, esta como os principais obstáculos ao nosso desenvolvimento.

Este artigo tem a co-autoria da psicóloga, empresária, poetisa e coach Maria Tomasia. Conheça mais: www.facebook.com/mariaterezinha.tomasia

Algumas das frases negativas foram extraídas das falas de alguns clientes, amigos e até mesmo da nossa voz interior.

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