Empreender ou gerar impacto social?

Muitas pessoas me perguntam como ganho dinheiro na área da promoção da mudança social. É possível empreender e gerar impacto social ao mesmo tempo?

É quase que automático! Quando me questionam sobre minha principal atividade profissional e eu respondo que sou fundadora e coordenadora geral de uma Organização da Sociedade Civil (OSC)*, de direito privado e de fins não econômicos, as pessoas querem saber como eu ganho dinheiro (ganhar dinheiro – muito dinheiro – parece ser o principal indicador de sucesso profissional por esses tempos). Essa dúvida surge, em parte, pela falta de informação da maioria das pessoas sobre os novos modelos de gestão adotados pelas OSCs, mas, por outro lado, essa “curiosidade” emerge do preconceito que ainda acompanha esse tipo de organização. Pessoas com esse questionamento tendem a pensar que indivíduos como eu andarão sempre com o “pires na mão”, a mercê da beneficência e solidariedade dos outros. Não as culpo, já foi assim e ainda há organizações com esse tipo de comportamento, no entanto, é cada vez mais frequente OSCs explorarem outros campos, como os negócios sociais, que têm se tornado excelente alternativa para seu financiamento e de seus projetos (veja bem, todos nós – a humanidade – precisamos que muito mais pessoas sejam solidárias todos os dias).

Provavelmente você já deve ter ouvido falar em negócios sociais. Segundo o Sebrae, negócios sociais são “empreendimentos que focam o seu negócio principal na solução, ou minimização, de um problema social ou ambiental de uma coletividade”. A Yunus Negócios Sociais Brasil destaca que “o sucesso do negócio não é medido pelo total de lucro gerado em um determinado período, mas sim pelo impacto criado para as pessoas ou para o meio ambiente”.

Antes de continuar falando sobre negócios sociais, permita-me falar um pouco da minha trajetória empreendedora. Sempre tive perfil empreendedor e uma mente inquieta. Na escola, eu vendia adesivos e pulseiras de missangas que eu mesma confeccionava. Quando criança, eu criara um “circo” no quintal da minha casa, que para assistir aos “espetáculos”, meus amigos tinham que pagar cinquenta centavos por noite. Fiz aulas de teatro, aulas de flauta doce, participei de coral, pratiquei esportes, entre outras atividades. Na faculdade, eu formei empresa júnior e realizei diversos eventos. Quando me formei, enfim, estava pronta para ser uma “empreendedora de verdade”. Então fundei, junto com um sócio, a Sportivus – Gestão & Marketing. Era 2011, vivíamos no boom das agências de negócios esportivos no Brasil, devido a década esportiva que ainda estamos atravessando. Mas, diferentemente do que eu imaginei, não logrei sucesso no negócio. Após fracassar e adquirir dívidas, aos 24 anos, eu precisei conviver com o fantasma da frustração; me reorganizar, principalmente na área emocional, e... a melhor oportunidade da minha vida aconteceu.

Em 2006, Muhammad Yunus, considerado o pais dos negócios sociais, ganhava o Nobel da Paz por ter inventado o sistema de microcréditos, que permite aos muito pobres ter acesso a pequenas quantidades de dinheiro. Quando ganhou o prêmio, o Grameen Bank, que ele fundara, tinha 6,5 milhões de clientes em Bangladesh, 96% deles mulheres. Em 2006, eu era apenas uma caloura universitária, que desconhecia totalmente tudo isso que acabei de relatar.

Você deve estar se perguntando qual foi a melhor oportunidade da minha. Eu respondo: foi conhecer o conceito de negócios sociais. Além do perfil empreendedor, eu sempre tivera vocação para o trabalho na área da promoção da mudança social. E entre ganhar dinheiro e mudar o mundo, eu descobrira que podia ficar com os dois. Era a minha oportunidade de realização pessoal e profissional ao mesmo tempo! Fundei, assim, com outros sócios, o Instituto Esporte Mais – IEMais, que hoje tem 1,6 ano. Apesar de ser um negócio recente, já temos um excelente portfólio e resultados.

*significa a mesma coisa que Organização Não-Governamental (ONG) – termo que se tornou mais conhecido devido ao fato de ser utilizado pela ONU e pelo Banco Mundial.

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