Empreendedorismo cultural

O Brasil passa por crises de toda sorte: ética, social, econômica e, sobretudo, política. Como, a médio/longo prazo, inverteremos esse arquétipo cultural?

O panorama hodierno brasileiro nos convida a refletirmos em razão da série de intempéries que, concomitantemente, sobrevieram sobre o nosso país, as quais nos acometem diariamente, direta ou indiretamente. Temos, necessária e obrigatoriamente, que diagnosticar, tal como diziam os Escolásticos, as "causas causantes" e as "causas causadas", a fim de podermos recomendar os "remédios" escorreitos, sem os quais, decerto, o Brasil não suplantará suas erronias e, ipso facto, não ingressará na senda da instabilidade institucional genuína e do crescimento econômico sustentável.

Em primeiro lugar, devemos reconhecer que o sistema político atual é um entrave ao desenvolvimento em decorrência de duas causas, a saber, a "causante" e a "causada", respectivamente: o sistema de Voto proporcional e a qualidade e legitimidade dos respectivos eleitos. Neste processo, o cidadão não é eleito em virtude de seu mérito; pode, todavia, ser eleito pelo número global de votos que a sua legenda auferiu, possibilitando, dessarte, o uso de um expediente espúrio: a cooptação de indivíduos que gozam de algum prestígio na sociedade, alguns dos quais sendo meras subcelebridades, para angariarem o maior número de votos possível para elegerem, mediante esse artifício, os indivíduos que o Partido quer, e não os cidadãos. Nesse quadro, é patente que a vontade popular não é respeitada. Nesse sentido, em contraposição a esse modelo deletério, deveríamos instituir o Voto distrital, segundo o qual o Brasil seria dividido em determinado número de distritos, logo, sagrar-se-ia vencedor aquele que obtivesse maior número de votos no seu respectivo distrito, trâmite que seria mais legítimo sob o prisma moral, meritório e de fidedignidade. Dessa debiidade decorre um outro vício: a qualidade técnica dos parlamentares e políticos em geral. Via de regra, o indivíduo que se aproxima da política é um cidadão que, ao longo de sua vida, não conseguiu grandes feitos de ordem técnica em sua vida pessoal; é, pelo contrário, um cidadão cujas características estão em absoluta dissonância com as premissas elementares de um cidadão que pretenda tornar-se um homem público, função para a qual exige-se, preliminarmente, faculdades técnicas e excelência no seu labor em sua vida privada. Além disso, há outro atributo indispensável do qual nós, os eleitores, não podemos nos olvidar: a moral ilibada e a vida pregressa imaculada, requisito indissociável do primeiro.

Ademais, enfrentamos um outro paradoxo cuja existência enseja um óbice de ordem econômica, isto é, por que os brasileiros não confiam nos políticos e, no entanto, acreditam em uma solução miraculosa oriunda do Estado? A problemática mesma ínsita a essa dicotomia, se o silogismo ainda é um raciocínio credível, pressuporia uma mentalidade menos voltada ao dirigismo estatal e mais direcionada à iniciativa-privada, à economia de mercado e não o contrário. À luz da mentalidade popular, o Estado seria como que um ente abstrato cuja direção seria capitaneada por anjos ou entidades celestiais, e não pelos políticos a que eles têm aversão. Se o raciocínio popular tivesse respaldo na realidade, por via de consequência todos ou a maioria colossal, unânimes, pediriam a redução do poder estatal, do escopo de atuação do Estado sobre a sociedade e, evidentemente, a redução drástica do número de políticos aos quais a maioria tem ojeriza. Uma vez que tal lógica não sucede na realidade fática, remanescemos com o Estado anabolizado, com um número abissal de políticos e burocratas para cujas existências demandam-se cada vez mais tributos. Para tanto, mais leis são editadas, as quais asfixiam sistematicamente a liberdade dos cidadãos, comprometendo toda a cadeia produtiva em vista da majoração da carga tributária e da burocracia em si, por conseguinte, ocasionando um comprometimento considerável no domínio econômico e no ambiente empreendedor, cuja origem é, lamentavelmente, a mentalidade corrente contraditória brasileira.

Nesse diapasão, "sobe a ribalta" a responsabilidade de modificarmos o domínio no qual a política e a economia estão subsumidos, dentro do qual ambos estão e sem o qual sequer existiriam: a cultura. Toda e qualquer ação humana tem, inexoravelmente, que ser abonada pela cultura, razão pela qual, dadas as circunstâncias, contanto que efetivamente queiramos interferir positivamente nos fatos em prol da nossa nação, temos que alterar a nossa conjuntura cultural mediante a atividade dos "empreendedores culturais". Estes, grosso modo, são aqueles que detêm influência e autoridade em um segmento específico do tecido social, podendo ser artistas, escritores, apresentadores, etc, cada qual exercendo ingerência de maneira a moldar novos valores nos cidadãos, promovendo a mudança cultural de que precisamos, inoculando princípios capitalistas, pró-mercado, alusivos ao mérito, à capacidade individual e à redução do Estado com vistas ao aperfeiçoamento do ambiente empresarial, o qual cria a riqueza e propicia a melhoria efetiva na qualidade de vida dos cidadãos.

Em suma, temos que contender no campo cultural, visto que neste se dá toda a relação político-econômica em consequência da qual nossas vidas são afetadas. Somos chamados a disseminar novos princípios e valores que, no transcorrer natural dos fatos, lapidarão uma mentalidade corrente favorável ao desenvolvimento econômico, político e social caso ganhemos esse confronto, cuja lide ocorre no campo das ideias. Portanto, o papel dos empreendedores culturais nesse contexto é cardeal, com o intuito de fomentar, fustigar e conclamar os cidadãos brasileiros a reverem os conceitos nos quais se baseiam. Em síntese, em conhecendo os fatos, evita-se a fatalidade.

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