Empreendedorismo - A construção da visão

A construção da Visão e o seu alinhamento é a mais vital das ações da liderança. O autoconhecimento que o processo propicia, a explicitação formal desse conhecimento e, posteriormente a busca pelo alinhamento e comprometimento dos colaboradores é condição indispensável para o sucesso de qualquer negócio. Sucesso esse que estará cada vez mais vinculado à sintonia com uma nova ordem que dá sinais cada vez mais dramáticos da sua existência. Uma onda de inconformismo se agiganta em todo mundo clamando por alternativas à situação da concentração excessiva da riqueza produzida à custa da pobreza de bilhões e da extrema degradação ambiental. Na construção da Visão, o Empreendedor tem a oportunidade de aclarar a sua consciência a respeito desses temas, vivenciar a emersão dos seus valores essenciais e dar a sua contribuição no surgimento dessa nova ordem

Alguns termos de tão repetidos deixam passar despercebida a sua complexidade e o seu fascínio. Empreendedor e empreendedorismo acredito, se incluem entre eles. Embalados pela magia da sua repetição, muitos avançam nas suas ideias gerando um comprometimento interno difícil de ser desfeito após algumas etapas cumpridas. Descortinam-se então, desafios e oportunidades as quais enfrentadas e exploradas de forma consciente mudam vidas e contribui para o desenvolvimento de uma nação.

Robert D. Hisrich afirma que: “empreendedorismo é o processo de criar algo diferente e com valor, dedicando tempo e o esforço necessários, assumindo os riscos financeiros, psicológicos e sociais correspondentes e recebendo as consequentes recompensas da satisfação econômica e pessoal.”[1]

Se empreendedorismo é o que nos diz Hisrich, quem é o empreendedor? Sua origem, formação, capacidades, capitais (financeiros e sociais)? Todo o arco da sociedade brasileira está representado em termos de classes sociais, gênero, formação e recursos. Desde o operário que deu a sua contribuição no chão de fábrica durante anos, a donas de casa que decidem por ampliar a sua atuação além do círculo familiar, até aqueles que ocupam elevados cargos em grandes empresas. Desde cidadãos praticamente analfabetos àqueles com formação nas melhores universidades do mundo.

Do chão de fábrica aos mais elevados cargos executivos passando por empreendedores (as) que rompem os círculos dos afazeres domésticos, uma ampla gama de aprendizados e de competências vêm acompanhadas por níveis variados de stress, frustração e muitas vezes sofrimentos de variegada procedência e causas. As empresas e organizações (com raríssimas exceções) representam ainda, sistemas sociais dinâmicos e complexos estruturados a partir de bases de domínio e poder, alimentadas pelo ego e continuamente aprimoradas desde a revolução industrial. O capitalismo que substituiu o sistema econômico e social feudal, movido pela ânsia do lucro, criou sem dúvida avanços inimagináveis no campo do conhecimento e da tecnologia. Entretanto, o seu caráter dominador e excludente, relega bilhões à miséria, está exaurindo os recursos naturais e colocando em risco o equilíbrio ambiental do planeta. Pressionando e obtendo a liberação dos mercados financeiros e dos fluxos de capitais nas décadas de 80 e 90, os grandes conglomerados econômicos e financeiros, aliados aos seus representantes na burocracia governamental dos países centrais promoveram a “financeirização” do capital que esteriliza trilhões de dólares na especulação e retira esses recursos da produção de bens e serviços para os povos de todo o mundo. Um círculo perverso de domínio e dependência que só leva à penúria e que traz em seu cerne a causa das últimas crises financeiras que relegaram ao desemprego e à miséria milhões e desestabilizaram nações.

A lógica do lucro e dos resultados em curto prazo aproveita qualquer imperfeição do mercado para “gerar” necessidades e “empurrar” ao mercado produtos e serviços completamente desnecessários e que visam explorar a insegurança e desinformação das pessoas, naquilo que Robert Disrich e Michael Peter denominaram de “pescando tolos”.[2]

Esses processos pressionam a todos e deturpam moralmente aqueles que precisam do trabalho gerando ansiedade, stress e um leque de doenças que se abate de forma cada vez mais abrangente sobre todos indiscriminadamente.

Essa velha ordem fundamentada no egoísmo, domínio e exclusão, traduzida na busca de resultados em curto prazo e lucro, não importando o nível de insegurança e danos causados (pessoais, coletivos e ambientais) está claudicante e é cada vez mais moralmente insustentável. Uma nova ordem dá sinais de estar emergindo, vozes estão se manifestando e novas soluções sendo buscadas. A pergunta que fica para cada um de nós, e, principalmente àqueles que estão se dispondo a dar sua contribuição à criação de riqueza e desenvolvimento é: Como vou me posicionar? Como mantenedor do status quo ou como criador da nova ordem que está surgindo? Como o ser íntegro ao qual todos almejamos e que pulsa dentro de nós, ou, como alguém que abrirá mão dos seus princípios para garantir a remuneração dos acionistas e aproveitar as imperfeições do mercado e as inseguranças das pessoas para gerar receitas, no que os autores citados acima denomina de “pescador de tolos”?

Após a reflexão acima e tendo claro o seu posicionamento é bom que se diga que empreendedor e empreendimento não se confundem, embora este seja impregnado em suas operações e desenvolvimento pela Visão daquele. Como veremos a seguir, o empreendedor tem os seus objetivos e motivações e o empreendimento após ter sido “apresentado” ao mercado, demanda necessidades específicas como por exemplo, novos recursos e capacidades, novas tecnologias, organizações, sistemas e processos e novos sistemas de gestão, ditadas pela dinâmica das interações com as forças desse mesmo mercado. É de fundamental importância que o empreendedor compreenda essa verdade sob pena de ver frustradas as suas expectativas e o risco de o empreendimento não assimilar o processo do aprendizado contínuo e, por conseguinte, não conseguir avançar nas etapas do ciclo de vida que o levarão ao seu crescimento, desenvolvimento e maturidade. Nessa incompreensão se explica boa parte dos altos índices de mortalidade de novos negócios.

Raros são os empreendimentos que chegam ao estágio da maturidade se esse estágio não tiver sido “visualizado” pelo empreendedor no seu início. As corporações que atualmente causam admiração pelo seu tamanho e dinamismo já começaram “grandes” na visão dos seus fundadores. O processo de construção da Visão passa a ser então, a oportunidade primeira, para que o empreendedor conheça melhor e mais profundamente inicialmente a si próprio (seus valores, crenças, comportamentos, atitudes, capacidades, desejos e expectativas), para então buscar o conhecimento necessário ao estabelecimento do seu negócio. Pela abrangência, profundidade e complexidade que envolve entenderemos que “A Visão que temos da empresa no futuro inclui quais deverão ser a sua estratégia, cultura, recursos, organização, mercados e inter-relações.” [3] A definição de Levy, pressupõe visão sistêmica e dinâmica o suficiente para lidar com a rotina e a ruptura, conduzindo o empreendedor e o empreendimento em uma trajetória de aprendizagem contínua privilegiando o que ele classifica como gestão evolutiva.[4] Avançar o mais que puder no conhecimento e construção de cada um desses pilares do modelo da Visão, foi o desafio enfrentado e vencido pela quase totalidade dos empreendedores de sucesso.

A primeira questão que se coloca como fator motivador transcende o usual e comum citado na bibliografia sobre o tema. É a conscientização das profundas motivações do ser humano enquanto ser.

Essas profundas motivações são as fontes de energia essenciais que impulsionarão o empreendedor além das dificuldades inerentes ao empreendimento. Caberá então a ele se posicionar como alguém que pretende fazer diferença ou que atuará na vala comum do egoísmo da prepotência e da exclusão. Como alguém que se conectará com os seus valores essenciais quando a necessidade o exigir, criando um ambiente de aceitação, respeito e dignidade humana que estará liberando o potencial criativo e inovador dos seus colaboradores ou, estará repetindo a fórmula batida, arcaica e claudicante do “aqui manda quem pode e obedece quem tem juízo”. Neste sentido, o empreendedor estará se posicionando como um co-criador da nova ordem ou, será mais um reles “pescador de tolos”.

Feita a grande escolha eu diria existencial, pode-se mapear uma grande variedade de motivos que levam as pessoas a ter seu próprio negócio. Alguns dos mais comuns são: vontade de ganhar muito dinheiro, mais do que seria possível na condição de empregado; desejo de sair da rotina e levar suas próprias ideias adiante; vontade de ser seu próprio patrão e não ter de dar satisfações a ninguém sobre seus atos; a necessidade de provar a si e aos outros de que é capaz de realizar um empreendimento e o desejo de desenvolver algo que traga benefícios, não só para si, mas para a sociedade.

Ser empreendedor também tem um custo que muitos não estão dispostos a pagar. É preciso esquecer, por exemplo, uma semana de trabalho de 40 horas, de segunda a sexta, das 8 às 18 horas e com duas horas para o almoço. Normalmente, o empreendedor, mesmo aquele muito bem sucedido, trabalha de 12 a 16 horas por dia, não raro sete dias por semana. Ele sabe o valor do tempo e procura utilizá-lo trabalhando arduamente na consecução dos seus objetivos.

Você é um técnico que conhece profundamente como se fabrica determinado produto ou como se presta um determinado serviço. Mas, tem experiência em compras, vendas, aspectos contábeis, financeiros e tributação, recursos humanos, sistemas de informações e aspectos organizacionais?

Há que se ter em mente que o empreendimento não é o produto que se pretende fabricar ou o serviço que se pretende prestar. Qualquer empreendimento é um sistema social complexo e aberto que se relaciona com outros sistemas sociais complexos e abertos, revelando interconexão e interdependência, cuja existência só se torna real pelo concurso de seres humanos. As fronteiras nas quais ocorrem a interconexão são plenas de desafios e oportunidades que exigem humildade, energia e perseverança para que a interdependência propicie aos envolvidos oportunidades de crescimento e desenvolvimento. Está o empreendedor consciente dessa realidade e disposto a exercitar a sua assertividade, criatividade e inovação (lembrando que criatividade diz respeito à geração de novas ideias e concepções e inovação a colocação delas em prática), de forma construtiva com a sua equipe e com as equipes dos demais sistemas sociais que revelam interconexão e interdependência com o seu empreendimento?

Gradualmente, à medida que o seu empreendimento se desenvolve, o empreendedor terá que se distanciar cada vez mais de rotinas operacionais e delegá-la para mais e mais colaboradores. Está ele disposto a “entregar” as operações do seu empreendimento a “terceiros”? Está ele finalmente, disposto a caminhar rumo a se tornar “patrão” ao invés de “empregado” do seu empreendimento? Está ele disposto a adquirir as novas competências e capacidades que o seu empreendimento está a exigir dele?

São reflexões essenciais a serem feitas antes de iniciar a jornada do empreendedorismo. As etapas fundamentais e suas variáveis serão demonstradas a seguir.

A definição do negócio exige que se reflita e se responda às seguintes questões que representam dimensões de análises e decisões: o que vai ser atendido, quem vai ser atendido e como vai ser atendido?

A resposta a essas perguntas dependerá das capacidades do empreendedor em termos de seus conhecimentos e recursos. A movimentação em qualquer uma das dimensões implica em adoção de novas estratégias e consequentes revisões de posicionamento de mercado, aquisição de novas competências e de alocação de recursos determinando novo processo de aprendizagem.

É de vital importância que o empreendedor esteja consciente para os movimentos que ele realiza ao longo dessas dimensões. Tanto a expansão quanto a contração em cada uma delas, tem impacto no mercado, na forma como ele entrega seus produtos e/ou serviços, nos seus processos e sistemas e na capacitação dos seus colaboradores. É imprescindível que cada movimentação seja precedida de um estudo minucioso quanto aos seus requerimentos em termos de tecnologias, processos, sistemas e pesquisa junto a fornecedores no sentido de conhecer a disponibilidade dos insumos em termos de prazos, custos e qualidade e qual o perfil de resposta dos concorrentes frente ao novo posicionamento. Após esses estudos, dimensionar o volume dos investimentos necessários e seus impactos no fluxo de caixa. Não estar atento a esses impactos, pode gerar uma quebra de expectativas em seus clientes, resultando em baixa rentabilidade e no comprometimento da saúde do seu negócio.

A estratégia de negócio a ser definida, dependerá então do nível do conhecimento em cada uma dessas dimensões e dos recursos e capacidades para se estabelecer podendo responder aos quesitos eficiência (busca o aproveitamento de economias de escala) e eficácia (busca obter os benefícios potenciais da especialização através do atendimento cuidadoso e sob medida das necessidades dos clientes). Há ainda uma terceira alternativa na qual a empresa procuraria um meio-termo, alternativa essa rejeitada por vários autores.

As etapas de crescimento do empreendimento e as mudanças de papel do empreendedor ao longo dessas etapas constituem importante indicativo dos diversos tipos de aprendizado que ele e seu empreendimento, estarão incorporando ao longo do seu processo de desenvolvimento.

Podemos identificar pelo menos três etapas no desenvolvimento de um negócio: infância, adolescência e maturidade e a elas correlacionar os papéis que cabem àquele que pretende iniciar o seu negócio e vê-lo desenvolver.

Na infância do negócio, o proprietário é também o faz tudo, o técnico. À medida que o negócio começa a deslanchar, aumentando o número de clientes, intensificando relacionamentos com fornecedores e prestadores de serviços entre outras demandas, o técnico começa a ficar sobrecarregado e os problemas começam a surgir. A infância do negócio vai até o limite do técnico em realizar por si só as tarefas que o negócio exige.

A adolescência começa quando o técnico já não dando conta das tarefas sempre crescentes, decide contratar alguém, despertando o gerente que estava adormecido. O risco nesta etapa é a gerência por omissão ao invés de por delegação. Neste caso, os problemas surgirão em todas as funções da cadeia de valor do negócio. O empreendedor terá então que tomar difíceis decisões quais sejam: voltar a ser pequeno despedindo todo mundo e ele reassumir tudo novamente, encerrar as atividades ou avançar para a etapa da maturidade. A adolescência do negócio vai até o limite da capacidade do gerente gerenciar técnicos.

A maturidade começa quando o proprietário decidindo desenvolver o seu negócio contrata novos gerentes. É exemplificada pelas melhores empresas do mundo. O diferente é que essas empresas começaram assim! Seus fundadores tiveram uma visão totalmente diferente de como deve ser um empreendimento e por que ele funciona.

É a perspectiva que faz a diferença. A perspectiva empreendedora adota uma escala maior, mais abrangente. Ela encara o empreendimento como uma rede de componentes, cada um deles contribuindo para um esquema mais amplo, que se forma para produzir um resultado de forma específica.

O modelo empreendedor trata menos do que é feito no negócio e mais de como é feito.

As diversas etapas de crescimento do empreendimento e as mudanças de papel do empreendedor ao longo dessas etapas constituem importante indicativo dos diversos tipos de aprendizado que ele e seu empreendimento estarão incorporando ao longo do seu processo de desenvolvimento. Desde o início é de suma importância que o empreendedor esteja aberto para essa realidade, transformando a angústia de demandas que o empreendimento se revelaria incapaz de atender em oportunidades de crescimento e solidificação, garantindo o retorno econômico-financeiro e social de todos os envolvidos no empreendimento (empreendedor, colaboradores, fornecedores e clientes).

Que fique claro que o avanço ao longo do ciclo de vida do negócio, representa redefinições constantes conforme explanado anteriormente. Cada avanço representa movimentações ao longo de cada uma das dimensões anteriormente definidas e consequente revisão das competências a serem internalizadas em termos de produtos e serviços, estrutura, processos e sistemas e sistema de gestão, além da necessidade da elaboração prévia dos planos de investimentos necessários e estímulo ao corpo de gerentes e colaboradores.

Visão Sistêmica e Aprendizagem Contínua

As reflexões anteriores podem agora, ser consolidadas no Modelo de Diagnóstico e Transformação proposto por Levy, composto por cinco pilares: Estratégia, Recursos, Mercados, Cultura e Organização. Além das reflexões no interior de cada pilar, ele nos ensina o caráter sistêmico do modelo e com ênfase afirma: “Definitivamente, não posso intervir em nenhum elemento sem medir as consequências no todo. É irresponsabilidade.” As conceituações de eficiência, eficácia e excelência a partir do Modelo, ficam bem mais claras da mesma forma que os esforços de Adaptação ao mercado e de Integração que sai da otimização dos recursos. Da busca pela eficiência e do esforço integrativo afloram as habilidades distintivas que suportarão as vantagens competitivas, resultantes da busca da eficácia e dos esforços de Adaptação ao mercado. Alerta para a necessidade da supervisão constante do ajuste entre os elementos e por último, que o Modelo serve para se propor o desenho idealizado, a empresa que se pretende ter.

Visão sem ação é sonho. Ação sem visão é passatempo. Visão com ação pode mudar o mundo.[5]

As etapas anteriores e suas variáveis constituem os ingredientes necessários para a construção da Visão e ao longo do desenvolvimento do negócio, as ferramentas analíticas necessárias para a tomada de decisões. A partir dessas reflexões surge o embasamento para o estabelecimento dos objetivos e estratégias necessárias para atingi-los, disparando o processo de planejamento estratégico.

Elas dão a dimensão da abrangência e detalhamento que constituem a Visão.

Não se deve fugir a esse processo de reflexão. A construção da Visão é atributo exclusivo e indelegável da liderança. Nunca é demais o esforço dessa reflexão e posteriormente, o de compartilhamento com o grupo de colaboradores. Tendo o futuro desenhado e as ações para alcançá-lo definidas no presente, a Visão alicerçada em valores essenciais tem o potencial de conectar mentes e corações criando a comunidade da Visão. Então, e só então, a liderança tem o poder. O poder está alicerçado no compartilhamento de uma visão abrangente e detalhada, positiva e inspiradora. Surge então a possibilidade do aparecimento de novos heróis. Estamos a reescrever a nossa visão de heróis. Já não mais os primitivos assassinos sanguinários, e sim começamos a vislumbrar aqueles que foram capazes de se doarem em prol do bem comum, muitas vezes atuando no anonimato. Longe das luzes da ribalta para não terem o seu trabalho conspurcado pelos interesses mesquinhos e egoístas. É hora de engrossarmos as fileiras desses novos heróis na construção de um mundo mais justo e fraterno.

Essas reflexões levam o empreendedor a um nível mais profundo de autoconhecimento em termos de motivações, capacidades e recursos e o quanto está preparado para iniciar o seu empreendimento.

Desalinhamentos profundos entre sócios são um dos principais fatores a inviabilizar um negócio. Representam desgastes de energia e desperdício de recursos. Divergências quanto a valores, comportamentos e atitudes, se espraiando por aceitações tácitas na definição do negócio sem o comprometimento com essa decisão estratégica, resultam em desbalanceamento desse comprometimento, de responsabilidades e de desempenho. Esse desbalanceamento se estenderá ao dia a dia operacional do empreendimento, envolvendo as dinâmicas e complexas interações com os colaboradores e toda a cadeia de valor (de fornecedores a clientes finais).

As mudanças necessárias ao desenvolvimento do empreendimento exigem cumplicidade, comprometimento e sobretudo, confiança. Essa é a base da delegação que permitirá o afastamento gradual do empreendedor dos aspectos operacionais para a dedicação cada vez mais intensa, no nível estratégico do empreendimento. Para isso o empreendedor precisará implementar as seguintes etapas:

  1. Tornar conhecida a sua visão. Comunicar o resultado já consolidado e esclarecer dúvidas a respeito da interpretação dos pontos que se fizer necessário. Se possível, o indicado é a realização das reuniões de trabalho nas quais participem todo o corpo gerencial, ou, se se tratar de empreendimento ainda na sua infância, de todos os colaboradores, para superar barreiras hierárquicas e funcionais.
  2. Obter o comprometimento de todos. A questão dos valores, comportamentos e atitudes assume caráter de fundamental importância no direcionamento da utilização e na fluidez organizacional, na busca das eficiências capazes de construir e fortalecer as habilidades distintivas, bem como das eficácias capazes de obter e fortalecer as vantagens competitivas. Essas questões constituem fundamentos para a posterior medição do sucesso do comprometimento de todos em relação à Visão e da excelência do processo de planejamento estratégico. O empreendedor deverá estar preparado para contestações e incompatibilidades que poderão exigir o afastamento de colaboradores.
  3. Sustentar a operacionalização da Visão. Como Levy nos adverte: “esse tecido não pode afrouxar. Exige atenção permanente”. As medições citadas em “b” acima serão os indicadores necessários, mas não suficientes para isso. A comunicação permanente e direcionada se torna necessária.

Caros empreendedores. Temos a tremenda tarefa da reconstrução do nosso mundo. Ela não exige atos espetaculares, mas a ampliação da consciência de cada um de nós. Exige sim, o posicionamento individual sobre qual vai ser a nossa contribuição. Qual vai ser a nossa batalha para recuperar e preservar um mundo melhor para nossos filhos e netos. É hora de buscarmos a nossa integridade, vivenciarmos os nossos valores essenciais e crenças e darmos significado às nossas existências, transcendendo a vala comum da busca desesperada pelos resultados em curto prazo, através de “soluções” pautadas na insegurança do ser humano e na destruição do equilíbrio do ambiente. Há em cada um de nós um clamor surdo para irmos além, deixar a nossa marca nas almas e corações. O convite está feito há muito. A construção da Visão de cada um é o caminho, as ações decorrentes, o caminhar. Sigamos resolutos. Já não há mais tempo a perder.

[1] Robert D. Hisrich e Michael P. Peters. EMPREENDEDORISMO. São Paulo: Bookmann, 2004.

[2] Akerlof, George A. e Shiller, Robert J. Pescando Tolos – A Economia da Manipulação e Fraude. Rio de Janeiro: ALTA BOOKS, 2016.

[3] Levy, R. Alberto. Competitividade Organizacional. São Paulo. Makron Books: 1992, p. 92.

[4] Gestão evolutiva: é a que, antes que ocorra a mudança externa consegue transformar seus esquemas de raciocínio. Permanentemente, trata de descobrir oportunidades no futuro e aplicar recursos para aproveitá-las, fixando-se em objetivos cada vez melhores e duvidando das formas de raciocinar do passado, ainda que no passado tenham proporcionado êxito.

[5] Barker, Joel Arthur. Escritor e futurista norte americano.

Extraído da matéria publicada em o Administradores.com em 18/01/2016.

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