Café com ADM
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Empreendedores precisam aprender a confiar

Era uma vez dois amigos, Milton e Pedro, que trabalhavam juntos em uma empresa de software. Eles se davam muito bem, eram confidentes e estendiam sua amizade para além dos limites do emprego, fazendo programas de família em conjunto e compartilhando muitas coisas entre si.



Era uma vez dois amigos, Milton e Pedro, que trabalhavam juntos em uma empresa de software. Eles se davam muito bem, eram confidentes e estendiam sua amizade para além dos limites do emprego, fazendo programas de família em conjunto e compartilhando muitas coisas entre si.

Eles tinham um chefe em comum, Josias. Apesar de ser um líder visionário, tinha muitas deficiências para concretizar tarefas corriqueiras do dia-a-dia. Por conta disto, Josias dependia muito de seus auxiliares diretos, dentre os quais Milton e Pedro eram os que mais se destacavam.

Um dia Pedro recebeu um telefonema de um cliente que tinha um grande problema. A solução para o problema era apenas uma e exigia tal grau de envolvimento e risco à imagem da equipe se desse errado que Pedro não se sentia apto a decidir sozinho. Após inúmeras tentativas frustradas de localizar Josias, que estava em viagem e era o único com quem Pedro poderia compartilhar esta decisão, acabou conversando com Milton que não só o apoiou como o ajudou a montar o esquema para implementar a solução desejada.

E assim foi feito e o problema foi resolvido, deixando o cliente bastante satisfeito. O problema é que o cliente deixou vazar os meios usados para resolver a situação e, alguns dias depois, a empresa de Pedro recebeu uma intimação judicial movida pela concorrência por alegadas práticas ilegais adotadas na situação. Josias ficou inconformado com a forma como a situação foi conduzida e depositou toda a responsabilidade em Pedro.

Por mais que Pedro argumentasse que a situação exigia medidas de risco para manter o cliente, Josias dizia que se sentia pressionado pela empresa e pela opinião pública a tomar uma atitude enérgica sobre o episódio. Durante todo o processo, Milton procurava confortar Pedro, dizendo que Josias teria tomado a mesma decisão, ou que ele próprio faria o mesmo. Milton ainda procurava deixar claro o quanto já tinha conversado com Josias para convencê-lo a não tomar decisões mais radicais com relação a Pedro. Ainda assim, mesmo com os argumentos de seus mais influentes assessores, Josias tomou a decisão de demitir Pedro.

Inconformado, Pedro procura Josias para entender porque seus anos de dedicação e profissionalismo não contavam a favor dele nesta situação e Josias simplesmente diz que ele tinha que, pelo menos, ter compartilhado aquela decisão com ele ou alguém antes de agir. Se houvesse algum outro respaldo favorável a Pedro, ele teria força política para mantê-lo. Sem pestanejar, Pedro menciona Milton, o que leva Josias a assumir tal expressão de espanto que até Pedro se assustou. Já adivinhando as coisas, Josias chama Milton.

O que se passou então, naquele momento, foi a mais dura e dolorosa lição que alguém pode ter na escola da vida. Milton, diante de Pedro, era uma pessoa, mas agora, na frente de Josias, negou tudo o que dissera antes. Culpou Pedro pelo ocorrido, disse que devia tê-lo procurado para falar a respeito e que nunca podia esperar tal comportamento de um colega de vários anos. Questionou ainda o caráter de Pedro e levantou outras situações no passado em que ele se ressentira de seu colega e o quanto lhe amargava manter aquela fachada de amizade.

Estupefato, Pedro ouvia, incrédulo, aquelas palavras, ditas em tom agressivo, áspero e que pareciam lhe cortar as entranhas na medida em que ouvia. Ao final, Pedro não era capaz de emitir um som sequer. Mesmo que pudesse, Milton já lhe dava as costas para deixar a sala, alegando uma reunião importantíssima na seqüência. Josias lia no rosto de Pedro tudo o que foi dito: O olhar perdido na porta que acabara de se fechar após a saída de Milton, o cenho franzido como a espremer a mente em busca de uma explicação, as pernas moles que paralisavam qualquer tentativa de se levantar e correr como pedia seu coração e a respiração arfante de quem sabia estar próximo do indefectível fim.

Alguns meses depois, Pedro já estava recolocado em outra empresa e o episódio começava a abandonar sua mente. Mas a cicatriz da traição é uma marca definitiva que Pedro carregaria por toda a vida. Seu ressentimento se converteu em desconfiança irrestrita que Pedro adotou como mantra. Nunca mais confiou em ninguém, abandonou amigos, fechou-se socialmente e pagou o preço do isolamento com a obscuridade que extinguiu inúmeras oportunidades que poderiam ter sido acenadas para ele.

E assim, o mundo perdeu mais um jovem talentoso e promissor. Histórias como esta acontecem todos os dias, em todos os lugares, mas as medidas para coibi-las são extremamente limitadas ao escopo gerencial, que nem sempre sabe o que fazer em circunstâncias semelhantes. Na verdade, qual é a resposta a atitudes como esta, que sacrificam a integridade pessoal perante um amigo para tirar proveito pessoal? Nenhuma, apenas a lição de que as pessoas nem sempre são como imaginamos e que, muitas vezes, a verdade só vem à tona quando as pessoas são confrontadas por situações como esta.

A transformação radical em Pedro, entretanto, fruto de uma grande decepção para com a natureza humana, não deve servir de exemplo. Engolir a mágoa não é fácil, mas passa a ser mais palatável quando incorporamos o episódio como um ensinamento que só poderia ter vindo desta forma. Se Pedro possuir espírito empreendedor, deixará que o tempo, a reflexão e a observação o ajudem a resgatar a capacidade de confiar nas pessoas. Embora esta não tenha sido a última vez em que ele se verá traído por alguém de confiança, saberá que este risco é o preço a se pagar para buscar realizações que, na maioria das vezes, não depende apenas dele. O empreendedor precisa saber confiar. Bons empreendedores usam a experiência para aprimorar o seu faro para melhor identificar parceiros confiáveis.


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