Empreendedor e a mosca azul

São pessoas valorosas, mas que infelizmente se deslumbram com os primeiros sucessos e acabam escorregando nessas cascas de banana que a vaidade joga no seu caminho<i>

Jonas nasceu num bairro muito pobre. Há sete anos montou uma pequena borracharia para consertar pneus de motocicletas. Atualmente é dono de uma grande revenda de pneus, câmaras e acessórios para motos. Jonas mudou completamente depois que a fama de novo rico chegou. Separou-se da esposa, passou a vestir roupas estilo sertanejo, muito mais caras e sofisticadas do que as que vestem os empresários do seu nível. Comprou uma camionete enorme, passou a usar um bracelete de ouro e uma pesada corrente dourada no pescoço. Já aprendeu tudo sobre rodeios, peões, bois e cavalos. É mais um desses aculturados caubóis brasileiros que pensa ter nascido no Texas. Ele até usa aquele chapéu típico dos caubóis. Seus empregados brincam dizendo que é para esconder seu cérebro quase vazio, ou alguma lembrança pontiaguda do primeiro casamento.

Na empresa, Jonas já não houve mais ninguém. Dizem que, quando pede algum palpite, é só para buscar a aprovação para algo que já decidiu. Jonas costuma ter soluções na ponta da língua para tudo e para todos. Os empregados, antigamente liderados por Jonas num ambiente descontraído, passaram a temê-lo ao invés de respeitá-lo. Jonas se julga o máximo. Não tem nenhuma vergonha de passar o tempo todo enumerando suas posses e enaltecendo suas supostas qualidades. Diz ter conseguido tudo sozinho e não reconhece a participação da equipe no sucesso de sua loja. Já começou até a abater todas as novas idéias, desde que não sejam originárias da cabeça dele. Até os seus parentes mais próximos já exclamam: O Jonas foi mordido pela mosca azul. O time dos que o detestam também vai crescendo: Jonas se tornou insuportável, ele precisa calçar as sandálias da humildade, outros dizem: Calçar sandálias da humildade é muito pouco para o Jonas, ele precisa mesmo é andar um bom tempo descalço.


Diante do exposto, parece que Jonas se deslumbrou com a vitória logo nos primeiros minutos do jogo empresarial. O sucesso lhe subiu a cabeça mais rapidamente do que um gole de tequila. Jonas passou a se isolar como um guerreiro solitário e imbatível no seu escritório decorado pela fina flor da breguice sertaneja. Ele não vê que com seu comportamento arrogante está, aos poucos, destruindo uma grande rede de contatos e amizades construída ao longo dos anos com colegas de infância, empregados, clientes e fornecedores. Ele não vê que agora o máximo que consegue de seus antigos colaboradores é um apoio sem entusiasmo, e quando não, uma torcida velada para que suas idéias acabem fracassando. Vestido de peão de rodeio, ele não vê que já está montado no boi bandido da arrogância, que vai acabar lhe quebrando a coluna cervical.

Todos conhecemos casos de empreendedores como Jonas. São pessoas valorosas, mas que infelizmente se deslumbram com os primeiros sucessos e acabam escorregando nessas cascas de banana que a vaidade joga no seu caminho. Esses Jonas estão cavando um triste fim para suas carreiras empreendedoras. Será que alguém picado pela mosca azul pode ainda ser salvo? Acho que esses Jonas podem até ser alertados por algum amigo mais íntimo, mas só poderão sair desse estado de torpor e alucinação por eles mesmos. Eles merecem ajuda, pois são realmente dignos de pena.

Eder Luiz Bolson - autor de Tchau, Patrão! - Editora SENAC (www.tchaupatrao.com.br)


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