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Em tempos de eleições, o pessimismo ganha mais fôlego

O segundo semestre de 2014, será marcado por ameaças cada vez mais evidentes para o ambiente de negócios. E por oportunidades ainda mais difusas. Indicadores econômicos fracos ou negativos, críticas à condução da economia e aumento da insegurança dos consumidores e dos empresários quanto ao futuro consolidam as projeções negativas dos próximos meses

O segundo semestre de 2014, será marcado por ameaças cada vez mais evidentes para o ambiente de negócios. E por oportunidades ainda mais difusas. Indicadores econômicos fracos ou negativos, críticas à condução da economia e aumento da insegurança dos consumidores e dos empresários quanto ao futuro consolidam as projeções negativas dos próximos meses, que tem o destaque crescente das influências, ao extremo, da corrida eleitoral.

Levando em conta até mesmo projeções de membros do governo, o cenário fraco tende a causar impactos por vários semestres, independente de quem vença as eleições de outubro, afetando todos os setores da cadeia de produção, incluindo a comercialização e prestação de serviços. Apoiados em dados do Relatório Trimestral de Inflação, divulgado pelo Banco Central, analistas econômicos avaliam que a inflação vai convergir para o centro da meta, de 4,5%, apenas depois das Olimpíadas, em 2016.

Com juros estáveis, porém elevados, e câmbio atraente para investidores em títulos e para importadores e inadequados para a sobrevivência e os planos de negócios das indústrias, o quadro traçado por especialistas em economia e finanças tende a mostrar o mercado interno em ritmo de baixo crescimento. “As expectativas estão realmente contaminadas”, reconhece o economista Paulo Feitosa, professor de marketing e economia do Centro Universitário Una.

Em junho, o noticiário deu munição para as previsões mais deprimentes, com uma profusão de informações preocupantes para a população que acompanha o dia a dia da economia. Seguindo o roteiro negativo, os dados realçam o mau desempenho que afeta diferentes indicadores do sistema produtivo do país. Algo como o destaque dado, no final do mês, para “o pior desempenho do déficit primário desde 1997”. Ou a manchete sobre o recuo de 5,9% da arrecadação federal, a mais baixa desde de maio de 2011, e um novo recorde negativo da confiança do consumidor, desde 2005.

Os indicadores vão se acumulando, e continuam ganhando peso, em uma eleição que será marcada menos pela apresentação de propostas do que por ataques de lado a lado. Paulo Feitosa assinala que, mesmo que o Brasil tenha uma situação mais confortável do que a de outras países do mercado internacional, não resta dúvida de que o governo perdeu a capacidade de articulação de medidas para promover novas estratégias de políticas monetárias e fiscais. Entre idas e vindas, a situação ganhou complexidade, que inclui inflação resistente convivendo com mercado de trabalho equilibrado, enquanto o PIB sinaliza a desaceleração.

“Mesmo assim, não há indicadores que sinalizem aumento do desemprego”, reconhece o economista. Ele questiona a intensidade do quadro negativo, traçado por parte dos analistas econômicos e políticos, em especial os vinculados ao sistema financeiro. A Associação Brasileira das Companhias Abertas (Abrasca) reforça a relatividade. A mais recente pesquisa da entidade, com empresas que representam 70% do valor total do mercado da BM&F Bovespa, mostra um otimismo moderado, mas surpreendente. De acordo com o levantamento, 40% das companhias manterão o mesmo nível de investimento de 2013. E 38% aplicarão mais recursos para o fortalecimento da atuação no mercado interno.

Sem previsões de acontecimentos ou decisões capazes de alterar o cenário do semestre, Paulo Feitosa acredita que o governo vai esperar o final do ano para tomar novas medidas, com caráter contracionista. “Alguma medida adicional de política monetária pode ser esperada”, reitera.

Natal será de presentes baratos

Depois de 30 dias de quebra de rotina, com as interrupções dos expedientes provocadas pela Copa do Mundo de Futebol, os empresários terão pelo menos uma pequena compensação nos próximos meses. No segundo semestre, nenhum feriado nacional cai em dia útil. É algum consolo para quem inicia o período com a expectativa de que o mercado siga o roteiro tradicional, com melhores resultados de vendas, induzidas pelas festas de final de ano.

Com inflação pressionada e elevada, consumidores ressabiados pelas dúvidas sobre os rumos da economia e endividados, juros altos e crédito restrito, o dia das Crianças, em outubro, e o Natal, em dezembro, tendem a agir com prudência, comportamento semelhante ao adotado nos eventos do primeiro semestre. Preocupados com a manutenção do emprego e temendo o endividamento, as compras presentes vão priorizar o baixo valor. E os importados continuarão predominando, pois diante do dilema de enfrentar a inflação, o Banco Central deve continuar agindo para manter a cotação do real em um patamar próximo a R$ 2,20.

A restrita lista de perspectivas favoráveis para o segundo semestre inclui os efeitos dos ciclos que se repetem, a sazonalidade, que também afeta o desempenho de indicadores econômicos. Por conta do fator calendário, o governo conta com o início da divulgação de dados mais positivos da inflação e de aumento da produção a partir do terceiro trimestre.

A divulgação do Índice de Preços ao Consumidor Amplo-15 de junho, de 0,47%, contra 0,58% em maio, sinaliza uma possível, e limitada, reversão da curva de aumentos, graças a ajustes dos preços de alimentos. Mas o mercado prevê que a inflação vai superar o teto da meta nos próximos meses, até o final do ano, pelo menos. O efeito prático do IPCA-15 mais baixo será, na prática, a possibilidade de o Banco Central não mexer nas taxas de juros.

Os resultados positivos da Copa do Mundo de Futebol, do ponto de vista do evento, podem gerar impactos favoráveis nas expectativas e na autoestima da população. Mas não serão suficientes para reverter a sensação de que a economia está realmente estagnada. Os indicadores não são, de fato, confortáveis. A começar pelo cenário externo que não reverte a estagnação. E que segue com a continuidade da deterioração das expectativas de consumidores e cidadãos. Contas públicas, desempenho da produção e a condução da política econômica vão continuar dando o tom para as previsões adversas para o mercado.

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