Eja: Práticas, Metodologias Pedagógicas e os Paradigmas Que a Orientam.

Este texto discute os paradigmas que envolvem as novas práticas pedagógicas em meio às novas demandas do século XXI. Gostaríamos de estabelecer um diálogo entre o passado e o presente sobre o exercício profissional do fazer pedagógico. Nossa escrita toma como roubos a orientação de vários autores, observando que vivemos no Mundo Ocidental, que muitas vezes nos ensinou a perceber, a natureza como algo separado do homem, parece que a natureza das plantas, animais não racionais não faz parte do humano. Colocaram de um lado os fatos, os fenômenos, a existência, que se apresentam de forma fragmentada e multifacetada, em caixas, não havendo conexão e como resultado o que pré-existe é uma enorme crise existencial, que envolve o conjunto de engrenagens, que fazem funcionar o sistema ou este micro sistema (sistema educacional).

Este texto faz parte do resultado de um trabalho realizado por Claudia Monez Chagas e Ceila Benedita de Arruda no curso de Pós-Graduação pelo Instituto Panamericano de Educação sob orientação da professora DrªJosiane Magalhães.

O ensino de Jovens e Adultos no Brasil passa por todos os problemas vividos pela educação brasileira. O governo brasileiro cria políticas educacionais para diminuir as diferenças socioeconômicas que também são resultados de um longo processo da formação, de um Estado cheio de paradoxos, onde uma pequena minoria, dita às regras sobre a maioria excluída deste país. Segundo Paulo Freire "do ponto de vista crítico e democrático como ficou mais ou menos claro nas análises anteriores, o alfabetizando e não o analfabeto se insere num processo criador, de que ele é também sujeito". (Freire, 1989, p. 89). Esta visão de mundo, onde o conhecimento é o centro das atenções humanas é quem o detém o aluno, que dita às verdades. A proposição Freireana nos remete a um repensar do fazer pedagógico. Este processo onde o discurso docente, ou melhor, aquilo que o professor vem fazendo nas salas de aulas de EJA em nossa realidade, tem problemas crônicos, um deles é a formação acadêmica com muita deficiência teórica e metodológica. O professor deveria levar o nosso aluno a uma nova perspectiva educacional. Este já trás no seu histórico o fracasso escolar e que desistiu de estudar por várias razões. A questão metodológica e teórica que se encaixe no ensino para adultos, deve ser construída a partir das leituras teóricas ou mesmo da construção das mesmas, por parte da comunidade escolar que vive esta realidade. Estes problemas de encontrar o melhor método, o paradigma ideal está sendo construído, na luta incessante pela busca de uma formação, que dê conta de responder a estas aflições do sistema educacional. Há cada vez mais cursos, oferecendo uma formação para os professores, que vão da especialidade ao mestrado e doutorado. Este aspecto tem provocado uma corrida entre os docentes. Não existe "o método", devemos é conhecer várias perspectivas e praticá-las, desenvolver e discutir com a comunidade, fazer avaliação sobre este processo, e assim construir conhecimento. O professor deve admitir que seu conhecimento, é limitado e que seu papel é muito mais de levar o aluno a refletir sobre as informações obtidas, do que simplesmente incorporá-las, tendo como ponto de apoio, o conhecimento da realidade em que, encontram-se inseridos. Tanto o docente como discente são responsáveis pela construção de conhecimento do aluno. O professor precisa entender que, o proccesso de aquisição do conhecimento é complexo e requer sensibilidade e "mais do que o livro, o professor precisa ter leitura de mundo. Um pouco de erudição não faz mal a ninguém. Sem estudar e saber a matéria não pode haver ensino..." Acrescentaríamos a afirmação de Pinsky (2002, p. 22) que, o conteúdo e a cultura na perspectiva ocidental, não caem do céu é fruto de um esforço por busca do conhecimento. O professor precisa dominar a teoria.Vivemos na sociedade denominada pós-moderna, onde a informação escolar é impar para manter-se no mercado. Esta de certa forma é uma sociedade do conhecimento, onde há a necessidade do aprendizado contínuo, como garantia de sobrevivência. O estudante da modalidade EJA é um sujeito com conhecimento de mundo, é um sujeito impar, tem família, trabalho e faz discernimento sobre a necessidade de voltar para escola. Possui também conhecimentos de diferentes universos: universo tecnológico na empresa, no lar, em todos os lugares por onde anda. Esses universos exigem que além daquilo que ele já faz, potencialize seu fazer com outros conhecimentos, sob pena de perder a vaga para outra pessoa. Diante deste contexto, é preciso uma postura cautelosa, em primeira instância, pois nos é revelada a todo o momento, que a nossa formação não dá conta do nosso fazer docente. Este é um dilema vivido por todos os professores e alunos; colocada constantemente pela civilização ocidental. A sociedade da informação nos coloca constantemente um repensar sobre as exigências de conhecimentos necessários para nos mantermos incluídos nesta sociedade, nela a vida se tornou algo com códigos de barras e senhas e o estudante de EJA, sabe muito bem disto, pois é "vitima" deste processo. Eis uma das maiores necessidades que vivemos em nossos dias;

"O professor precisa conhecer as bases de nossa cultura (...) o desenvolvimento do capitalismo, os movimentos sociais, as condições de vida das populações no passado, sua cultura material e suas idéias, a música de Beethoven, o cinema de Charles Chaplin, a literatura de Machado de Assis e por ai afora. Noutras palavras, cada professor, precisa, necessariamente ter um conhecimento sólido do patrimônio cultural da humanidade." PINSKY, 2002, p. 22
Nesse sentido, estabelecemos como objetivo, aprofundar conhecimentos sobre o processo de construção dos paradigmas, que norteiam as práticas pedagógicas nas diversas áreas do conhecimento, e como conseqüência à ação pedagógica. Para tanto, estaremos investigando, como vem se efetivando, este processo na realidade de educação para jovens e adultos. Em muitos casos o que há por parte de nossos alunos é a busca por uma formação para melhorar o seu ganho salarial e conseqüentemente a sua qualidade de vida. Esta razão deve ser considera por nossos professores, pois o nosso aluno, em muitos casos, quer uma aposentadoria menos sofrível do que a que já conhecemos neste país. Os diferentes profissionais, sejam da educação ou não, mantêm-se no mercado de acordo com sua capacidade de observação de novos conhecimentos de forma interessante. Tornando por vezes descartáveis, tal qual pilhas algumas são alcalinas, outras são produtos vindos do Paraguai, ou do já ultrapassado, tigres (gatinhos) asiáticos, dependendo de com o qual nos identificamos, o nosso prazo de validade é determinado por interesses momentâneos do mercado; estamos descartáveis nesse imenso corpo chamado globalização. O sistema capitalista este monstro que nos devora. Revirando os modelos educacionais do mundo antigo, o universo criado pelos gregos, percebia-se na formação do homem certa unidade, a ciência, a arte, a religião e a filosofia compunham a tão chamada gnósis (conhecimento). Cada um dos pilares respondia e sustentava o outro; o homem grego deveria dominar os quatro grandes pilares do conhecimento. Assim se fazia o sujeito, em sua plenitude. O homem as coisas, a natureza simplesmente eram Entes. No século XXI com o paradigma do pós-estruturalismo, tais pilares estão sendo substituídos pelo drama que vive a nossa humanidade. Lançaremos a pergunta feita por Luiz Bacelar Lacerda Orlandi, quando questiona o que estamos ajudando a fazer de nós mesmo? Bacelar Orlandi diz que "o gênero humano nunca viveu tão sistemático, cotidiano envolvente sucateamento da humanidade." (2002, p. 222).O aluno de EJA vive esta loucura, é acometida pelo pavor, a depressão, as cobranças domésticas, escolares, mercadológicas que, provocam um caos na existência do aluno. Nós docentes, devemos estar com boas lentes epistemológicas para capturar este momento; estar atentos para não sermos tragados pelo "monstro". Devemos abandonar aquela visão holística, parcial, universal, devemos observar e experimentar uma arqueologia ou genealogia das práticas pedagógicas que orientam o fazer da sala de aula, especialmente na EJA, onde vários universos se encontram a cada momento de aula. Propor uma visão intra-holística ou trans holística, sobre a existência é uma maneira de praticarmos a cura coletiva para o nosso cotidiano escolar; perceber o todo num grão de areia, num homem ver o universo, ou mesmo o momento do amanhecer como uma eternidade; sentir-se fora da atmosfera terrestre como numa fenda no tempo. Mas devemos, esclarecer que a formação universitária acadêmica, já não é suficiente para que tenhamos sucesso em nosso fazer educacional. Também não pode ser uma muleta para nós educadores. A procura por uma educação interdisciplinar nos obriga a utilizar os sentidos dos surdos, sentir o pulsar da terra intermediado por um pedaço de madeira, escalar a montanha com passos firmes e frios, com a alma em chamas, dialogando com as outras áreas do conhecimento e quiçá, lendo as outras áreas para ler de maneira mais competente o nosso universo. Nesta perspectiva, o professor deve ter atitudes perante a vida, e perceber que o seu fazer deve ser com responsabilidade. Há vidas em nossas mãos. Razão que devemos ter uma orientação teórica e metodológica, não basta saber de cor e salteado o conteúdo que está nos livros didáticos. É preciso levar o estudante a reflexões e a construção de novos saberes. A interdisciplinaridade traz para mesa redonda, a discussão sobre a existência, partindo de uma possibilidade de que, esta palavra tenha sido corrompida. Procura lançar sobre ela, um olhar em perspectiva, com recorte arqueológico analisando as camadas, e procurando a profundeza de seu valor semântico. Em termos metodológicos se faz necessário que a prática de interação, da mediação, orientação, socialização dos conhecimentos façam parte do cotidiano da docência. Não da para trabalhar com adultos numa perspectiva unilateral, onde o aluno é como um tubo por onde passam as áreas do conhecimento em seus horários, e pronto, está dada a aula. Enfatizemos mais uma vez: o aluno de EJA é um universo impar, subjetivo, com identidade formada e que será difícil acrescentar outros elementos a sua formação; mesmo acreditando que isto não seja uma tarefa difícil. "Sabemos que a metodologia expositiva em sala de aula de maneira tradicional, tem um peso histórico secular na formação dos professores no Brasil, por isso, superar seus efeitos negativos é sem dúvida um grande desafio para a educação." Irton Milanesi
Como os gregos investigaram o ente, foi uma luta de forma brutal a experiência do ser na afirmação de sua existência, o resultado dessa luta foi outra forma de homem, outro sujeito diferente de tudo que é ou podia vir a ser. Com identidade subjetiva, individual, mesmo assim, acreditava-se universal. Uma aula com o foco no professor pode construir alunos passivos e dependentes de um modelo, forma, receita, qualquer coisas menos um construtor de universos. No Brasil, este processo nos remete as transformações que o ensino de Jovens e Adultos passou: na época da redemocratização do Estado Brasileiro, após 1945, com o fim da ditadura de Getulio Vargas, a educação de adultos ganhou "destaques" dentro da preocupação geral com a universalização da educação elementar primária; até a Segunda Guerra Mundial, a Educação Popular, era concebida como extensão da Educação formal para todos, sobretudo para os menos privilegiados, que habitavam as áreas das zonas urbanas e rurais; depois da década de 50 no Brasil, aumentaram-se as criticas a Campanha de Educação de Adultos tanto nos aspectos administrativos, quanto nos apoios pedagógicos; nesse período, podem-se citar quem em 1947 foi lançada uma campanha de alfabetização num período de três meses e mais a condensação de um curso primário de sete meses.A partir da década de 1990, o nosso fazer sofreu um surto de transformações em todos os níveis da existência, no cotidiano, na educação formal, no universo tecnológico que até o presente momento não foi assimilado pelos educadores; no entanto, o paradigma pós-industrial, ou o paradigma do conhecimento voltado para a prática do cotidiano, vem se firmando ou vem forçando professores e profissionais nas diversas áreas do conhecimento, a buscarem lentes que dêem conta de ler o "real". Este procedimento deve ser cauteloso, pois corremos riscos de entramos em paranóia e quem sabe não estejamos reproduzindo o discurso dessa selvageria pós-moderna. A complexidade que envolve a prática docente na atualidade nos remete a reflexões que perpassam a análise da sociedade contemporânea, uma sociedade de consumo, de informação e, conseqüentemente, uma reflexão sobre os recursos tecnológicos por ela desenvolvidos, onde, ocorrem mudanças vertiginosas, desencadeadas pela globalização dos sistemas, sejam econômicos ou políticos. Neste sentido, podem-se tomar como exemplo, os meios de comunicação que, a cada dia são mais velozes, eficazes e abrangentes do que a própria escola, no que diz respeito ao repasse de informações.Dessa forma, é importante que o professor tenha consciência de que seu conhecimento caracteriza o professor da contemporaneidade e sua formação, situando-o no contexto da sociedade capitalista; identificar e analisar os elementos que têm contribuído ou interferido em sua formação. O professor deve entender criticamente que este processo de avanço do capitalismo é intencional e progressivo com altos e baixos, uma rede em eterna construção. E neste universo heterogêneo e volátil o aluno de EJA se encontra "perdido", é responsabilidade da escola, contribuir para que o mesmo faça uma leitura subjetiva do que vem ocorrendo a seu redor. A metodologia utilizada e privilegiada por nós, nestas reflexões, parte do princípio que, a escola enquanto elemento plural e múltiplo, não deve privilegiar a uma metodologia ou teoria em detrimento de outra; as múltiplas teorias quando discutidas com competência devem ser utilizadas para não incorrer no erro histórico; a nosso ver, tão negativo para a comunidade escolar. Muitas vezes a luta entre os docentes por uma perspectiva teórica metodológica contribui para disseminação do discurso elitista longe da realidade dos nossos alunos.Em muitos casos, a educação centrada no professor, provoca a fuga dos estudantes da escola, pois não se sentem membros ativos, ou mesmo, incapazes de assimilar o conhecimento que o sistema educacional lhes impõe; as modalidades de avaliação ou de seleção de conteúdos onde se tenha como foco o real interesse dos estudantes de EJA, segundo Irton Milanenesi e Maria Stefani Rocha "(...) os índices de evasão e repetência escolar tem diminuído em especial no Estado de Mato Grosso" segundo estes autores este processo se deve as forma de avaliações, que são contínuas; além desta forma de avaliação acreditamos que a avaliação concomitante ao processo também contribui muito para diminuir a evasão escolar.Outro fator que deve ser destacado é a mudança na nomenclatura da modalidade de Ensino EJA para CEJA (Centro de Ensino de Jovens e Adultos), nesta perspectiva há um maior diálogo entre as disciplinas das áreas comuns; afirmar com um pouco de humildade que a prática da interdisciplinaridade começou a engatinhar enquanto prática teórica - metodológica. O segundo momento deste processo será o domínio desta prática e a busca da trans - disciplinaridade, ainda uma utopia no sistema educacional, em especial na nossa escola. A construção do conhecimento com a efetiva participação da comunidade escolar requer alguns embates, já que não podemos continuar formando sujeitos obedientes ou embrutecidos, adestrados, enfim utilizemos os adjetivos que melhor se encaixe. Para que mudemos estes elementos fundamentais na educação, é preciso discussão, planejamento e estudo; aliada a uma boa prática democrática de fazer escola. O ensino de qualidade requer avaliação dos procedimentos do professor e de suas práticas; deve haver um acompanhamento rigoroso das atividades desenvolvidas em sala de aula com os alunos.Se o salário é baixo, existem inúmeras formas e estratégias de luta; quem não deve pagar o pato é o aluno e a educação formal em si; desvalorização da categoria, não deve ser muleta para péssimos profissionais em sala de aula. Estes elementos devem sim ser problematizados junto à comunidade educacional; procurar parcerias com a universidade, rediscutir o papel da universidade na formação dos docentes; a pesquisa entre estas duas instâncias da educação, dar as mãos para melhorar a qualidade de ensino em nome de uma educação crítica e libertadora do homem.A Educação de Jovens e Adultos vive o drama do Sistema Educacional Brasileiro; inserida num mundo que procura cada vez mais uniformizar a cultura e romper as fronteiras culturais, está fazendo emergir um novo sujeito do conhecimento, totalmente diferente daquilo que se tinha ou se pretendia, pois segundo Michel de Certeau, cada indivíduo se apropria do conhecimento de acordo com seus interesses e o universo que o constitui. O novo sujeito do conhecimento filho da globalização, o como já lembramos tem sua identidade e suas especificidades construídas socialmente, quando se apropria de uma forma de saber, procura construir conhecimento objetivo, que lhe dê sentido à vida e seu fazer. Este é o aluno da EJA, está a todo o momento tentando reelaborar seu conhecimento e ao mesmo tempo reconstruir seu cosmo. A luta pela vida e o sentido da existência caminham de mãos dadas.
BIBLIOGRAFIA

ALVES, Rubem- Conversas sobre Política/ Rubem Alves. Campinas, SP: Verus, 2002.
CERTEAU, Michel 1925 1986, a Escrita da história. Michel de Certeau; tradução de Maria de Lourdes Menezes; revisão étnica de Arno Vogel. – 2. Ed. – Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002.
DELEUZE, Gilles, 1925 A 1995. O que é Filosofia/ Gilles Deleuze, Felix Gattari; Tradução de Bento Prado Junior e Alberto Alonso Muñoz. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.
Historia na sala de aula: conceitos, práticas e propostas/ Leandro Karnal, (org), São Paulo: contexto, 2003.
LDB- Lei de Diretrizes e Bases 9394/96.
MILANESI, Irton e Maria Stefani Rocha- Gestão Democrática; A Aula como espaço na Constituição docente.
ORLANDI, Luiz B. Lacerda- Que estamos ajudando a fazer de nós mesmos?- Imagens de Foucault e Deleuze. Ressonâncias Nietzschianas/ A vertente do Sucateamento.
PINSKY, Jaime e Carla Bassanezi Pinsky- Por Uma História Prazerosa e Conseqüente; pág. 22. O professor propõe que o docente preciso de uma formação universal.
PCN- BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: 3º e 4º Ciclos do Ensino Fundamental: introdução aos Parâmetros Curriculares Nacionais. Secretaria de Educação Fundamental. Brasília, DF: MEC/SEF, 1998
PPP/2009- CEJA Professor Milton Marques Curvo.

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