Educar para a vida e não para as notas finais

Se você tivesse que escolher entre ser extremamente inteligente ou ser extremamente feliz, qual seria a sua escolha? Se ser feliz é a razão pela qual vivemos, devemos repensar nosso processo educativo. Educar é Ler o mundo para que se possa transformá-lo e, ainda, proporcionar ao educando um novo olhar sobre o que ele é e onde está. Precisamos educar para a vida, pois ser feliz e fazer outras pessoas felizes é mais importante do que simplesmente tirar boas notas

Como diria Rubem Alves, a primeira tarefa da educação é ensinar a “ver”. Ver aquilo que nunca se viu ou da forma como nunca se viu. Costumeiramente digo aos meus alunos que devemos evitar a miopia do processo educativo, evitar ver apenas aquilo que está bem perto, ou apenas aquilo que todos estão vendo de uma mesma forma. Costumo brincar com essa questão, referindo-me ao Olho de Thundera, do desenho ThunderCats, que proporciona a “Visão Além do Alcance”. Nessa brincadeira o professor deve garantir ao educando a Espada Justiceira, para transpor a miopia do processo educativo em direção a uma “Visão Além do Alcance”. E como no desenho, todos os alunos em qualquer sala de aula, deveriam ter o interesse de pedir ao professor: “Dê-me a visão além do alcance”!

Com esta visão, o mundo olhado de maneira diferente pode se expandir, ficar mais rico e mais belo. Porém, esse novo olhar precisa considerar o alcance para enxergar aquilo que está “bem longe, lá fora”, como ao se olhar por um telescópio, mas também enxergar aquilo que está “bem dentro de nós”, como uma visão do microscópio. Olhar para dentro e para fora é crucial para vermos tudo que temos e tudo que somos. Creio que só é possível ver a beleza do que há lá fora se conseguirmos contemplar os jardins que cultivamos dentro de nós. Não haverá mundo bonito se não houver belezas naquilo que somos e nos tornamos.

O ato de educar, nessa concepção, não é nada além do que o processo de conhecer, de proporcionar ao educando a possibilidade de construir suas formas e meios de Ler o Mundo que o cerca. A forma com que lemos o mundo nos fornece os meios para poder transformá-lo; e é por isso que a educação é tão importante para corrigirmos graves problemas que nos assolam constantemente. Se o ato de aprender não mudar o olhar do educando sobre o mundo, logo a sua ação nesse mundo, de nada foi válido o processo empreendido em sala de aula.

Educar também é a difícil tarefa de encantar, de entender, de penetrar no mundo do outro. Por isso creio que as disciplinas são apenas panos de fundo para um processo maior que deve se instaurar na sala de aula (e porque não na sala de casa?). São conteúdos utilizados para mediar o processo de conhecer, de ler o mundo para poder transformá-lo. Sem Alteridade é sempre mais difícil empreender a tarefa de educar, pois sem isso continuamos achando que ao sentar na sala de aula todos são iguais, todos possuem a mesma capacidade, todos podem a mesma coisa.

Sempre ao discutir o tema educação coloco a necessidade de fazer uma pergunta aos pais, educandos e professores que estão presentes: Se você tivesse que escolher entre ser extremamente inteligente ou ser extremamente feliz, qual seria a sua escolha? E aí, qual seria a sua escolha? De modo geral, todos (principalmente pais e professores) respondem pela segunda opção: ser extremamente feliz. É claro que podemos ser inteligentes e felizes. Mas nesse caso, a palavra inteligente faz referência a ter as melhores notas, passar em todos os vestibulares, obter sempre ótima pontuação em todas as avaliações. O que as respostas dizem é que todos almejam a felicidade, ao final das contas, todos sabem que ser feliz é a razão pela qual vivemos.

E diante da razão pela qual vivemos é que nosso modelo de educação está em certa medida falido. Se o que queremos é ser feliz, acima de qualquer coisa, por que não nos ensinam sobre a vida e o mundo que vivemos? As consequências de tudo isso são nítidas e nos impõe tecer críticas e desafios para que possamos compreender as lentes dos nossos próprios óculos, ou seja, nosso modo de ver e agir no mundo.

Veja, hodiernamente, com todas as notícias de corrupção veiculadas na mídia, qual a reflexão? Não tenho dúvidas que os corruptos saíram das salas de aula, das faculdades... do processo educativo. Vivemos um avanço indiscutível em termos de tecnologia, mas presenciamos uma imaturidade política e social muito grande. O que o modelo de educação tem a ver com isso?

É fácil perceber que grande parte do que se ensina (que seja pela forma como se ensina), não vale de nada e muito menos é lembrado pelos alunos no mês seguinte. Particularmente, temos que compreender mais duas coisas além do modelo escolar: as transformações na família e na vida dos “jovens” que vão as escolas. Mas me atenho neste texto somente ao modelo escolar e procuro colocar minhas críticas a partir de tentar entender o que temos e de onde veio. A revolução industrial trouxe para nosso modelo escolar atual (tradicional) suas mais importantes características, inclusive a ideia do “recreio”, que é o intervalo; e o sino, como forma de regulamentar esses intervalos.

Tudo se assemelha ao adestramento do trabalhador do tear manual para o sistema de produção fabril, de produção em série. Tanto que temos a passagem de série em série; toca o sino, troca o professor, e se faz a produção em massa. A consequência disso é fragmentação do conhecimento... tudo no seu quadrado, sem conversa, sem interação. A leitura do mundo também se torna fragmentada. Não obstante, temos um conteúdo que se denomina disciplina, um currículo que é chamado de Grade... e um sistema de avaliação onde você precisa Provar! Como consequência didático-pedagógica o estudo se inicia na autoridade do professor, não na curiosidade do educando (curiosidade estrangulada pelo modelo tradicional); Os educandos perdem a capacidade de fazer perguntas, e agora só escutam respostas prontas; de sujeito ativo no ato de aprender, se tornaram sujeitos passivos no ato de ensinar. E com tudo isso, educandos não são mais protagonistas do processo de educação, são meros expectadores de uma teatralização orientada por livros-texto descontextualizados e desvinculados de seus mundos reais.

É neste caminho que a escola se tornou uma forma de afastar o jovem e a criança do mundo. De modo que o mundo, que a vida, que as coisas que nos rodeiam, não são instrumentos de ensino. Além do mais, os pais também deixam as crianças na escola como uma forma de afastá-los do mundo, de deixá-los protegidos enquanto trabalham. E como formar pessoas críticas se não entendem a vida? Não atoa, num sistema que informa (e não forma), os jovens vão conhecer muito sobre as fórmulas matemáticas e a fisiologia das briófitas, mas poucos saberão sobre si mesmos. Recentemente li um artigo chamado “depressão na adolescência”, publicado no site www.psiqweb.med.br, que afirmou que 20% dos estudantes do 2º grau sentem-se profundamente infelizes ou têm algum tipo de problema emocional. Este tem sido um dos resultados do modelo escolar e das mudanças sociais e tecnológicas que vivenciamos atualmente. Essa pesquisa não considera o alarmante número dos professores que também desenvolvem problemas psíquicos, e isso tem sido um grave problema. Todas as constatações, o leitor concorde ou não, me levam a crer que é preciso desconstruir a forma de ensinar para se construir uma forma mais adequada de formar seres humanos críticos e felizes.

Precisamos buscar transformar a sala de aula e a sala de casa nos dois ambientes mais propícios para que crianças, jovens e adultos compreendam e conheçam o mundo em que estão e as formas de caminhar por ele. Por isso, escola e família precisam estar em parceria. As responsabilidades formativas não podem ser mais tão diluídas, com os pais responsabilizando as escolas, e as escolas responsabilizando as famílias. E até a sociedade, coitada, leva sua parcela de culpa. E nesse jogo de empurra-empurra o dever de formação integral do caráter humano e da intelectualidade se torna cada vez mais precário.

Precisamos buscar mais a felicidade e menos notas finais. Precisamos de mais sensibilidade e menos conhecimento técnico. Precisamos de mais amor e menos ganância. Precisamos dar mais sentido à vida e de menos vida sem sentido. Precisamos de mais presente e menos futuro. Precisamos de mais humildade e menos arrogância. Precisamos de mais Educação e menos Solidão. Precisamos educar para a vida para que possamos chegar ao fim dela com a certeza de dever cumprido, pois será muito triste se despedir desse mundo com a convicção de que não se fez nada daquilo que se espera fazer. Mudemos nossa forma de ler o “mundo” para mudar nossa ação sobre ele e consequentemente o “mundo” mudará também.

E neste parágrafo final tomo a liberdade de terminar com uma celebre frase de Eduardo Galeano, carinhosamente apresentada a mim pela educadora Jéssica Lopes: “Os cientistas dizem que somos feitos de átomos, mas um passarinho me contou que somos feitos de histórias”. E as histórias compõem cada um de nós e nos conformam perante o mundo. Tenho convicção que se professores e pais quiserem encantar os alunos e os filhos precisam contar suas histórias, pois estarão, sobretudo, trabalhando no território das emoções, aguçando as sensibilidades necessárias para transformar a sala de aula no palco do mágico teatro da aprendizagem onde educando e educadores protagonizam as mais belas cenas do “saber viver”.

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