Educação, se Deus quiser

A melhoria do ensino público sempre foi defendida por setores da sociedade como contribuição para o crescimento na economia brasileira, agora é a salvação

Duas figuras ilustres brasileiras tão bem defenderam – nos últimos anos - a educação, como base para uma nação desenvolvida, um país rico e, acima de tudo, um lugar ideal para se viver. Uma delas é político e professor, a outra empresário. Os políticos tiveram sua imagem depreciada ao longo dos tempos. Por isso evito até em citá-los em quaisquer artigos, mesmo com a aparente integridade moral do gestor em questão. Entendo que a política é de suma importância para o desenvolvimento da democracia e sem ela não podemos viver, mas, sempre observo de soslaio e ressabiado, a defesa exacerbada de bandeiras levantadas por políticos. Fico desconfiado com as ‘segundas intenções’ escondidas por detrás.

Quanto aos empresários fica mais fácil compreender os reais motivos de suas intransigentes defesas por quaisquer áreas sociais de interesse público. Se o país vai bem, na economia ou educação, por exemplo, as empresas nas quais são proprietários serão, também, prósperas. É a relação de ‘ganha-ganha’. No caso particular falo da educação, defendida pelo empresário Antônio Emírio de Moraes, dono de um dos maiores impérios econômicos do Brasil.

Ermírio foi um paladino incansável, em defesa do melhoramento da educação brasileira nos últimos anos. Conseguiu? Não, morreu em 2014, não tendo visto o país sair do marasmo que é a educação PÚBLICA desde remotos tempos. Faço questão de destacar, em letras garrafais, a palavra pública para tentar expressar a diferença abismal entre o ensino privado que vai bem, obrigado!

Aliás, também vou morrer e não vou entender o porquê de secretários de educação, governadores e demais mandatários – enquanto no poder - não manterem seus filhos em escolas públicas. Exclusivamente! É o mínimo que poderiam fazer para provar que a educação que defendem é boa mesmo. Já vi mesmo foi secretário de educação lançando concurso do tipo: Tenha o melhor desempenho na escola pública e ganhe uma bolsa integral na escola privada. Traduzindo: se você demonstrar que é realmente bom, lhe transfiro para um ensino à altura do seu intelecto. Um fiasco de campanha.

Quero, todavia, voltar ao centro do que pretendo transmitir (disse que não iria fazer quaisquer menções a políticos, mas é difícil manter-se indiferente a algumas aberrações) o fato é que, a classe empresarial sofre horrores com a falta de preparo de uma parcela bastante significativa da classe trabalhadora brasileira, fruto da precária educação pública. A crise no ensino antecede a esta que está em voga ultimamente e sempre tem causado um sério prejuízo para ambos os lados: patronal e trabalhador.

Tive o prazer de ler a obra do empresário Antonio Ermírio de Moraes – Educação, pelo amor de Deus (Editora Gente, 2006). Nela o autor nos mostra números alarmantes com relação a educação pública brasileira – e olha que os textos remontam aos anos 1990 e 2000 – e perspectivas nada promissoras com o futuro de nossa educação. Nem vou me dar ao trabalho de pesquisar os números atuais. Sei que pouco melhorou, sinto na pele.

Algumas considerações que grifo do livro são as que: alunos chegam a 8ª série com conhecimentos de 4ª e que, cerca de 15 milhões de brasileiros são analfabetos. São informações que ainda nos causam espanto quando são apresentadas. Ermírio também destaca que, “a cada ano adicional de estudo acrescenta-se cerca de 16% , no salário do trabalhador”. De uma obviedade ululante defende que, só países que investem em educação conseguem chegar ao primeiro mundo.

A Unesco, segundo o livro do empresário Antônio Ermírio, também verificou que ‘a maioria dos estudantes brasileiros não consegue resolver questões simples de dividir e de multiplicar que são exigidas pelo dia–a-dia de cada um”. Confesso que me incluo nesse estudo. Sou péssimo em números, mas compreendi os apresentados pelo governo para o orçamento de 2016: Crescimento de 0,2% , salário mínimo de 865,50 e déficit de 30 bilhões nas contas públicas.

Há alguns dias assistia a outro empresário, reclamar da ausência de empreendedores no mercado e dentro das empresas. É outra verdade! Empresários, também, sofrem com esse dilema. A nossa diminuta reserva intelectual de jovens brasileiros optam por prestar concurso. Acrescentou com veemência que, seus filhos, são terminantemente por ele proibidos de trilhar por esse rumo. Devem empreender e gerar empregos. É fácil para um filho de empresário de sucesso obedecer a essa exigência. Já um estudante de origem humilde não arriscaria tanto, opta mesmo pela sinecura de determinados cargos públicos.

Os recordes nas vendas de automóveis, telefones celulares e o incremento estrondoso na construção civil parecem que foram inócuos para esbater a crise econômica. E se a melhora dos números estiver condicionada a uma educação de qualidade estamos reprovados. O empresário implorou por ela e vaticinou: “Pouco adianta festejar o crescimento do consumo de eletrodomésticos, se a nossa população está despreparada para enfrentar a competição cerrada que vem pela frente”. E veio. Agora, nos resta implorar as grandes potências em educação: Uma esmolinha, pelo amor de Deus.

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