Educação: O preço começa a ser cobrado

O preço implícito da Educação no Brasil - Estamos dando desconto nas telhas para um povo que não consegue construir a base da casa.

Há muito se fala sobre a educação no Brasil, tanto do lado bom quanto do lado ruim. É fato que hoje temos mais de 6 milhões de estudantes em Universidades, enquanto que em 1961 este número não chegava a 500 mil estudantes (segundo levantamento feito pela revista Exame). Este crescimento é surpreendente e era necessário para o, então, "país do futuro".


Mas as Universidades mantiveram a mesma qualidade? Melhoraram junto com o povo?
Que país não quer mostrar ao mundo que sua população frequenta a Universidade? E mais, que país não quer mostrar ao mundo (e aos seus eleitores) a evolução do seu IDH? O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) foi desenvolvido em 1990, tendo a sua base de cálculo composta a partir de dados de (i) expectativa de vida ao nascer; (ii) educação e (iii) PIB per capta (como um indicador do padrão de vida).

O Brasil conseguiu acabar com o antigo conceito de "faculdade é coisa de rico". Isto realmente é excelente – mas é aí que começa um dos grandes problemas.

E para chegar à Universidade?

A base educacional do Brasil é uma das mais caras do mundo! Obviamente, excluo aqui as escolas municipais, estaduais e federais. Conheço escolas públicas excelentes! Antigamente, só estudava em escola particular quem não tinha capacidade de entrar em uma escola pública. O jogo virou! Hoje, a maioria, infelizmente, das escolas públicas não dão a menor condição de um aluno seu concorrer, a uma vaga na Universidade, com outro aluno de uma escola particular.

Conheço alunos do antigo Ginásio que ainda não sabem ler, ou são analfabetos funcionais (também conheço muitos profissionais com diplomas universitários assim). Também conheço alunos de escola pública, com 6 anos de idade, que lêem um livro melhor do que muito marmanjo por aí.Um dos problemas foi "resolvido" – quando os estudantes começaram a não conseguir passar no vestibular, o Governo criou as cotas. E ainda dizem que isso não é "privatizar a educação".

E a Universidade?

Hoje, com uma matrícula na "faculdade certa" + uma mensalidade a partir de R$ 150,00 + alguns trabalhos copiados da internet, o "Fulano" consegue um diploma universitário. Ótimo, parabéns ao Fulano e à Universidade, que ficou com conceito C no MEC. Mas este ainda não seria um dos maiores problemas, desde que o diploma do "Fulano" não fosse de enfermagem ou medicina (este último elevaria um bocado a mensalidade e faria o Fulano "estudar" mais dois anos). Obviamente, não estou me referindo à Universidades sérias que, felizmente, ainda são a maioria. Me refiro às Universidades puramente capitalistas – pagou, levou (com alguns pormenores no lugar da vírgula).

Existem Universidades admitindo até semi-analfabetos – e apesar de ter sido noticiado em rede nacional, continuam a crescer e angariar alunos, expandindo suas "atividades" além de fronteiras estaduais. Uma conhecida me disse que fez vestibular três vezes em uma Determinada Universidade, e não tendo obtido sucesso, essa Universidade decidiu somar suas provas para chegar na média necessária (cabe lembrar que a média deveria ser obtida em uma única prova, e não na soma de todas as tentativas).

Algumas Universidades até abrem capital na Bolsa de Valores. Eu até concordo que seja uma ótima idéia, mas algo me diz, lá no fundo, que não combina. Afinal, antigamente a grande maioria das Universidades eram entidades sem fins lucrativos – hoje, podem mudar para uma entidade com fins lucrativos. Aí vem minha preocupação – uma Universidade lançando ações em uma Bolsa de Valores? Pagando dividendos aos sócios?... com o tempo, e sem o devido cuidado, o rumo deste "negócio" pode deixar de ser a educação e passar a ser o lucro...

Hoje (e não estou dizendo que isso não acontecia no passado), lemos nos jornais e revistas ou vemos pela televisão que, infelizmente, quase todas as semanas, "Cicrano morreu devido a troca de Soro por Benzina no Hospital X". Ou ainda, e mais recente: "Bebê tem olhos queimados em Hospital devido a aplicação de nitrato de prata em seus olhos, em uma concentração 50 vezes maior que a necessária".

Lembra daquele aluno que ficou para terceira chamada em 23 matérias durante a faculdade? E só passou porque o "professor" trocou a prova por um "trabalho acadêmico"? Este aluno poderia ser o "Fulano"... e poderia ter matado a aula onde era ensinado a porcentagem adequada de nitrato de prata para um recém-nascido. Obviamente, todas as culpas não deveriam recair somente sobre as Universidades, mas também nos Hospitais – cada vez mais capitalistas (quase uma linha de produção de atendimento, tirando a devida atenção que seus enfermeiros e médicos devem ter caso-a-caso).

O problema com a saúde é o que mais nos afeta diretamente. Mas as faculdades de enfermagem e medicina ainda são as que mais acredito! Um Administrador, quando falha ou é incompetente, pode ser demitido ou pode falir o seu próprio negócio. Obviamente há riscos de falir uma grande empresa e despedaçar centenas ou milhares de funcionários e famílias, o que acontece com menos freqüência. Mas um médico pode acabar com a vida de uma pessoa e/ou de uma família inteira.

O que dizer de advogados? Pelo menos temos um algum mecanismo para não corrermos grandes riscos com nossos futuros advogados – o exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Em 2011 o índice de reprovação beira os 100% (segundo o Blog Exame da Ordem). Tudo bem, temos que considerar que o Exame da OAB pode abranger qualquer assunto do direito, e caso não tenha sido o assunto escolhido para o "Fulano" estudar, provavelmente ele será reprovado. Tirando qualquer exagero que, por ventura, a OAB possa vir a cometer em seus exames, só posso concluir que: ou (i) quase 100% dos advogados escolheram outros temas para estudar que não os assuntos abordados em prova ou (ii) as universidades estão parcelando os diplomas dos advogados em 60 vezes + alguns trabalhos copiados da internet.

Concordo que algumas classes não devam ter exames. Por exemplo: um Administrador, em verdade, não precisa ter uma faculdade para saber administrar. Steve Jobs e Bill Gates, por exemplo, jamais terminaram uma faculdade e, convenhamos, sabiam administrar muito bem suas empresas.

O Brasil do futuro!

Com a euforia do crescimento econômico, melhoria da qualidade de vida, melhoria na educação e na redução do índice de desemprego (fatos irrefutáveis), estamos esquecendo um pouco da nossa base. Um povo sem educação não conhece, nem mesmo, o direito que tem e, assim, não consegue cobrar do Governo aquilo que deveria. Já acreditei que muitos Governos fizeram / fazem isso de propósito...

É aquela velha estória de construir primeiro a base, depois as paredes e, só então, o telhado... mas parece que não aprendemos. Estamos dando desconto nas telhas para um povo que não consegue construir sua própria estrutura (seus alicerces). E sem essa estrutura, alguns profissionais saem da Universidade sem um mínimo de preparo, colocando em risco as empresas, os negócios, os demais funcionários, os tribunais e as nossas vidas.

Vejo alguns governantes (só alguns) com uma visão de curtíssimo prazo, ou seja, não adianta investir em Educação, pois os frutos só serão colhidos após três ou quatro mandatos. A qualidade da educação não melhora o IDH e ainda faz o povo conhecer seus direitos – o que melhora o IDH é a quantidade de alunos em sala de aula, assim o Bolsa Família exige a presença das crianças em sala de aula e ponto final. Ou ainda, o que dá voto é fazer ponte, teleféricos, construir metrô para gente diferenciada, invadir favelas e iluminar a maior árvore de Natal do mundo.

Sabemos que a educação é apenas um dos problemas, mas com educação, o povo saberá exigir seus demais direitos.

Isso dito (escrito), só posso dizer que "ai" do Mano Menezes se não ganhar a próxima Copa! Pois é com isso que nos preocupamos!

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