Educação & Desenvolvimento - Por uma Gestão do Cuidado

O que se opõe ao descuido e ao descaso é o cuidado. Cuidar é mais que um ato; é uma atitude. Portanto, abrange mais que um momento de atenção. Representa uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilização e de envolvimento (BOFF, 1999). Embora possa soar um pouco dissonante para alguns no primeiro momento, o cenário que hoje se apresenta diante da gestão de negócios é o envolvimento das empresas nas soluções que afetam a sociedade contemporânea. Em outras palavras, o meio organizacional está sentindo, pensando e agindo diferentemente do que há duas décadas atrás. Cita Esteves (apud BOOG, 2002) ... uma reforma que começa no plano individual e se estende para o coletivo. Daí a importância da contribuição do chamado paradigma ecológico na restauração do nosso ambiente econômico, social e ecológico. Este novo paradigma trata do exercício da ressignificação de nosso valores e consequentemente de nossas atitudes diante das relações que estabelecemos com nossas famílias, nosso grupos, nossos colaboradores, nossas organizações, nossa comunidade, ou seja com o nosso Ethos. Educar é tomar Cuidado. Para Eboli (2004), o fato de cada vez mais se exigir das pessoas uma postura voltada para o autodesenvolvimento e a aprendizagem contínua é que tem levado as organizações a se comprometer com a educação de seus colaboradores. Em vez de somente privilegiar o conhecimento técnico e instrumental, também é valorizado o desenvolvimento de atitudes, posturas e habilidades, desenvolvendo os talentos humanos como uma estratégia organizacional. Desde Sócrates, o conceito do cuidado de si, atravessou toda a cultura antiga. Inicialmente, o cuidado de si identifica-se com o conhecer-se a si mesmo, porque sem saber quem somos é difícil conhecer a arte pela qual podemos nos tornar melhores, enquanto que se nos conhecermos a nós mesmos, poderemos também conhecer o Cuidado de nós mesmos. No Eutifroni, Sócrates afirma que é bom, antes de qualquer outra coisa, cuidar das pessoas, para que cresçam do melhor modo possível. Em que consiste esse cuidar, está no Apologia, onde encontramos enunciado o sentido da ação educativa; tomar cuidado das pessoas significa dialogar com elas, examinando-as, interrogando-as e contestando-as, com o fim de desafiá-las a assumir a responsabilidade própria do ser humano, de encontrar a verdade da existência, ou seja, as coordenadas que possam servir de guia no desenho do sentido da vida. Segundo Chiavenato (2002) fala-se hoje em Gestão de Pessoas como se elas fossem parceiras da instituição e não simplesmente elementos estranhos e separados. A antiga tradição de extrair o máximo possível dos conhecimentos e habilidades de seus funcionários, sem nada repor ou adicionar em troca, perde espaço. Antigamente recrutava-se e selecionava-se pessoas procurando introduzi-las já com os conhecimentos e habilidades adquiridos em suas experiências anteriores. A preocupação atual das organizações é acrescentar valor às pessoas de maneira contínua e intensa. Mas que tipo de educação se busca desenvolver no meio organizacional? É um processo que designa o desenvolvimento do potencial intelectual, físico, espiritual, estético e afetivo? Ou tende a educação contemplar somente uma dimensão, a intelectual não desenvolvendo as demais? O surgimento de um novo ambiente empresarial caracterizado por profundas e freqüentes mudanças, gera um impacto no perfil de gestores e colaboradores que as mesmas esperam formar nestes novos tempos. Segundo Kliksberg (apud EBOLI, 2004) Atualmente na América Latina, todos os olhares estão posto na educação. A Educação deixou de ser um aspecto marginal da realidade. Está no centro do cenário histórico e político da América Latina, tanto em termos de expectativa da opinião pública quanto em termos de decisão... a educação sempre teve legitimidade moral... A educação tem legitimidade política, obviamente... Mas existe atualmente a oportunidade histórica. A educação tem atualmente legitimidade macroeconômica, e isso se agrega às outras legitimidades, e, em um mundo tão pragmático como o que nos tocou no final do século XX, isso tem peso. A Gestão do Cuidado visa fortalecer a identidade organizacional a partir do processo de Educação e Desenvolvimento. Uma organização constituída de uma cultura, necessita de seus colaboradores. Estes por sua vez, inseridos nesse contexto buscarão constantemente apropriar-se de seus significados, seus ritos, sua ideologia e o modo como a organização se relaciona e cuida a sociedade. Cita Morgan (1996) a sobrevivência só pode ser sobrevivência com o ambiente e nunca sobrevivência contra o ambiente ou contexto no qual se está operando. Seja no espaço interno ou no espaço externo da organização, um clima desfavorável neste sentido, é sempre um agravante para a empresa. Por hipótese para a implementação de uma Gestão da Qualidade, ou Gestão focada em Resultados dentro de uma organização ou mesmo para a implantação de uma Gestão Ambiental, a Gestão do Cuidado precederia todos estes processos, ou na medida em que forem implementados, a mesma necessitaria ter, a mesma importância que é dada as demais. Cita o filósofo que melhor viu a importância essencial do Cuidado, Martin Heidegger (1889-1976) em seu famoso Ser e Tempo: do ponto de vista existencial, o cuidado se acha a priori, antes de toda atitude e situação do ser humano, o que sempre significa dizer que ele se acha em toda atitude e situação de fato. Quer dizer, o cuidado se encontra na raiz primeira do ser humano, antes que ele faça qualquer coisa. E se fizer, ela sempre vem acompanhada de Cuidado. Portanto, para validar a hipótese anterior, ligada as Organizações, uma Gestão focada em Resultados, necessitará de uma Gestão focada no Cuidado. Nesta perspectiva o Cuidado ultrapassa aquele momento de atenção, de vigiar, de simplesmente atender ou atuar de acordo com o treinamento oferecido pela organização. Segundo Boff (1999) significa reconhecer o Cuidado como um modo-de-ser essencial, sempre presente e irredutível à outra realidade anterior. Não temos cuidado. Somos cuidado. O Cuidado possui uma dimensão ontológica que entra na constituição do ser humano. É o modo-de-ser singular do homem e da mulher. Sem Cuidado deixamos de ser humanos. (p.89) Existem organizações que buscam além de produzir bens e serviços o desafio de desenvolver atividades que gerem soluções não só para clientes e consumidores, mas estão atentas para poder agregar valor a toda a relação que estabelecem com seu meio interno e externo. Utilizam a Gestão do Cuidado sem este enfoque teórico, ou talvez sem esta apropriação conceitual, mas que no cotidiano se defrontam, com o que citou EBOLI (2004) o maior desafio é promover a identidade cultural, criando condições propícias ao desenvolvimento de líderes eficazes. Isso implica profundas mudanças não só na estrutura, nos sistemas (especial comunicação e processo decisório), nas políticas e práticas de gestão de pessoas, mas principalmente na mentalidade, valores e cultura organizacionais. p. 42 Portanto a Gestão do Cuidado quer ser uma aliada junto aos resultados que a organização irá empreender, pois parte do pressuposto que a competência essencial que gera riqueza também encontrará seu valor e retorno na medida em que a organização legitimar seus valores fundamentais. O Mundo hoje anseia por respostas mais conscientes, mais humanas e as empresas poderão auxiliar, na medida em que o Cuidado for trabalhado estrategicamente dentro da cultura organizacional. Referências BOOG, Gustavo. Manual de Gestão de Pessoas e Equipes. São Paulo: Gente, V.01, 2002. BOFF, Leonardo. Saber Cuidar Ética do Humano, compaixão pela terra. Rio de Janeiro: Vozes, 1999. CHIAVENATO, Idalberto. Recursos Humanos. São Paulo: Atlas, 2002. EBOLI, Marisa. Educação Corporativa no Brasil mitos e verdades. São Paulo: Gente, 2004. MORIN, Edgar. Os Sete Saberes necessários à Educação do Futuro. 6.ed. São Paulo: Cortez, 2002. MORTARI, Luigina. Por Uma Pedagogia do Cuidado. Tradução Livre por Sônia Randazzo, Porto Alegre, 2003.
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