Economia no Brasil: crises e intervenção estatal

A economia se insere em todos os aspectos do cotidiano social. Entender as formas sob as quais se apresenta, as maneiras que se utiliza para se estabilizar e gerar influências pelo mundo todo é relevante, visto a sua presença constante em nosso dia-a-dia. Este estudo aborda brevemente a importância da economia, sob a ótica da intervenção estatal, as crises financeiras de 2008 e 2014 e o Plano Real

Economia em tempos de crise: conceitos gerais

Compreender a economia brasileira significa entender uma série de conceitos e acontecimentos específicos, no sentido de avaliar a aplicabilidade de certas teorias e instrumentos de intervenção para a manutenção de uma economia saudável.

Um dos principais conceitos a ser compreendido refere-se à política monetária. A economia interna de um país é diretamente influenciada pela política monetária por ele adotada.

Pela política monetária, o governo pode “atuar sobre a taxa de juros, pode aumentar ou diminuir o dinheiro que circula na economia”. (SALVALAGIO, 2009, p. 69). Assim, é possível diminuir o volume de dinheiro na economia, por exemplo, no intuito de controlar e/ou diminuir as taxas de juros e, consequentemente, a inflação.

Se o objetivo é controlar a inflação, compram-se títulos públicos, diminuindo o estoque monetário da economia. Quando se anseia o crescimento econômico, o meio seria aumentar o estoque de moedas.

De acordo com Salvalagio (2009), a inflação é um processo no qual o nível de preço está subindo e o dinheiro está perdendo valor. Assim, muitos cidadãos não possuem capital suficiente para permanecer adquirindo determinados produtos e serviços.

Em Barboza (2008), tem-se que a inflação atinge principalmente os indivíduos mais pobres de uma economia. Os ricos possuem uma maior parte de sua renda alocada em capital, tendo um menor custo de consumo via crédito, usando menos moeda e sofrendo menos com a desvalorização da mesma.

Para Sobreira (2008), os efeitos da inflação sobre a distribuição de renda mostram que, a classe trabalhadora é a que mais perde com o aumento das taxas de inflação, principalmente os trabalhadores de baixa renda, que não tem condições de se protegerem com investimento em poupanças, porque consome toda sua renda.

Ainda, as elevadas taxas de juros provocam efeitos sobre a balança de pagamento, em níveis superiores ao aumento de preços internacionais, encarecendo o produto nacional em relação ao produto externo, provocando um estimulo às importações e desestimulo às exportações.

Neste sentido, o Plano Real representou uma tentativa de redefinir a estratégia de desenvolvimento nacional, a fim de viabilizar o processo de redistribuição de renda. A redistribuição de renda fora significativa, dos 5% mais ricos para os 10% mais pobres.

Iniciava-se um novo processo no Brasil, onde esta significativa redistribuição de renda permitiu a abertura de novas possibilidades, utilizando-se, para tal, das âncoras monetária e cambial (SALVALAGIO, 2009). A política monetária passou a ser mais restritiva, paralelamente ao controle da demanda e da expansão cambial.

A influência dos pensamentos keynesianos na atualidade é notória, embora modificada e adaptada às condições contemporâneas. Tanto as teorias econômicas, quanto a economia política, ditas modernas e atuais, se vêem intimamente relacionadas ao pensamento keynesiano (VIEIRA FILHO, 2006).

Mesmo havendo a notoriedade acerca da teoria keynesiana na atualidade, esta se encontra submissa às mudanças ocorridas na sociedade ao longo do tempo. Se o Plano Real é fruto desta teoria, ele o é devido à premissa keynesiana acerca da intervenção do Estado.

Entretanto, as mudanças sociais não mais permitem que se imagine uma sociedade absolutamente plena, onde as demandas sociais desapareceriam por completo ao mesmo passo em que surgiriam. De acordo com a teoria keynesiana, o regime de pleno emprego seria garantido a partir de uma intervenção estatal. Porém, não é esta a realidade que nos cerca.

Em meados de 2008, instaurou-se uma crise financeira mundial. Instalava-se o caos, a abertura de mercados, a necessidade urgente de novas políticas em todo o mundo. A partir de 2014, o Brasil passou a se inserir ainda mais no ambiente de crise, sendo protagonista de histórias de corrupção e desvio de recursos públicos, ocasionando o aumento da inflação, entre outros efeitos econômicos relevantes.

Observa-se, tanto na crise de 1929 como nas crises atuais, uma clara ineficiência dos mecanismos reguladores do Estado. É preciso lembrar que as crises são fenômenos inerentes ao sistema capitalista e são decorrentes de suas reconhecidas imperfeições, o que reforça a necessidade do Estado atuar de maneira consistente como ente regulador (PEREIRA, 2009).

A intervenção do Estado no tocante às situações de crise é imprescindível para a regulação da economia de um modo geral, evitando prejuízos ainda maiores. Conforme Figueiras (2008), o agravamento da crise em 2008 obrigou o governo brasileiro a mudar o discurso da “blindagem” ou do “descolamento” da economia brasileira em relação aos EUA, levando o Banco Central do Brasil a adotar uma série de medidas econômicas.

É necessário que o Brasil invista em uma nova política monetária e, tendo em vista o status atual de uma nova crise, agora também de cunho político, faz-se necessário repensar todo o enquadramento político, monetário e cambial do país.

Algumas decisões precisam ser tomadas e, muitas delas, geram certa indignação. Enquanto a economia do país vai de mal a pior, doa-se milhões para outros países que passam por dificuldades. Enquanto são aprovados aumentos salariais inimagináveis para o Poder Legislativo, o assalariado mínimo recebe migalhas. É o retrato de um Brasil desigual.

De acordo com Lessa (2010), aos investidores o Brasil se configura em um ótimo investimento, uma vez que os juros reais são os mais elevados do planeta. Caso a moeda brasileira se valorize, os ganhos seriam incalculáveis.

A inflação brasileira é a uma inflação persistente. No decorrer de 2009, enquanto a deflação atingiu praticamente o mundo inteiro, o Brasil manteve uma inflação de 4,5%. Em 2015, a inflação ultrapassou os 10%. Assim, permite-se que os preços indexados se tornem cada vez mais elevados e, ao Banco Central, que pratique a maior taxa de juros mundial.

O lucro bancário é inquestionável, enquanto a distribuição de renda permanece desigual e a vulnerabilidade social é cada vez mais constante. Isto se deve ao fato de que, segundo Lessa (2010), os donos do poder sempre conseguiram manter seus preços reajustados à frente dos salários. É uma luta injusta, onde os menos favorecidos, os assalariados, sempre saem perdendo.

A realidade econômica do Brasil é frustrante para os pequenos, mas se transforma no deleite daqueles que possuem capital suficiente para investir e ganhar ainda mais através de juros que são pagos, principalmente, por aqueles que não detém capital significativo. A inflação contribui cada vez mais para a manutenção de uma desigualdade social extrema, em um país que se diz estar sempre de portas abertas. Apenas para quem tiver dinheiro.

Considerações finais

A vida em sociedade é regida pela economia. A lei da oferta e da procura, por exemplo, remonta à questão da mão invisível e reguladora do Estado, no sentido de evitar a quebra econômica de um país.

Neste sentido, as taxas de juros também exercem fator importante. Por exemplo: se o dinheiro passa a custar caro, a indústria deixa de tomar emprestado e, consequentemente, produz menos, contrata menos. As consequencias são sentidas diretamente na economia de um modo geral, dado o aumento da taxa de desemprego e as dificuldades de crescimento enfrentadas pelo próprio país.

Referências

BARBOZA, André Luiz Medrado. A relação entre inflação e distribuição de renda. Dissertação (Mestrado). Universidade de São Paulo, 2008.

FIGUEIRAS, Luiz. Os efeitos da crise mundial na economia brasileira. 19/11/2008. Disponível em: <http://www.socialismo.org.br/portal/economia-e-infra-estrutura/101-artigo/642-os-efeitos-da-crise-mundial-na-economia-brasileira>. Acesso em 22 mai. 2010.

LESSA, Carlos. A inflação e a má distribuição de renda. 10/02/1010. Disponível em: <http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias;2010/3/10/a-inflacao-e-a-ma-distribuicao-de-renda>. Acesso em 20 mai. 2010.

PEREIRA, Matias. Efeitos e custos da crise financeira e econômica global no Brasil. In: Observatório de la Economía Latinoamericana, Número 108, 2009. Disponível em: <http://www.eumed.net/cursecon/ecolat/br>. Acesso em 22 mai. 2010.

SALVALAGIO, Wilson. Introdução à economia: administração. São Paulo: Pearson Education do Brasil, 2009.

SOBREIRA, Regina. Inflação. 14/06/2008. Disponível em: <http://www.webartigos.com/articles/6983/1/Inflacao/pagina1.html>. Acesso em 19 mai. 2010.

VIEIRA FILHO, Francisco de Souza. Análise das teorias keynesianas com ênfase no seu direcionamento para o atual contexto sócio-econômico e jurídico mundial. 11/2006. Disponível em: <http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=9355>. Acesso em 20 mai 2010.

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