Economia criativa: a economia do intangível

Alguns aspectos sinalizam o surgimento de uma nova economia que está alicerçada na criatividade e inovação, mostrando que as práticas utilizadas no passado não cabem mais na conjuntura atual

A criatividade, o conhecimento e sua aplicabilidade ao trabalho acompanham todas as revoluções da humanidade. Uma das mais significativas quando observada pelo grau transformações sociais, econômicas, científicas foi a Revolução Industrial que modificou completamente a estrutura do século XIX com o aparecimento da máquina a vapor, como fonte energética. Outros avanços foram surgindo em torno de uma substituição do trabalho artesanal por meio da especialização, novos ofícios foram incorporados pelos trabalhadores e uma nova forma de economia se espalhou nos continentes.

Embora a industrialização trouxesse tantos benefícios como o avanço tecnológico, reduziu as pessoas em apenas uma mão de obra, contabilizando o seu valor pela quantidade de produtos que era capaz de produzir. A criatividade foi sufocada pelo industrialismo e a classe de artistas substituída pela corporação dos engenheiros. (DE MASI, 2005)

Cem anos depois, no início do século XX, a sociedade começou a presenciar uma nova revolução, a Revolução do Conhecimento, passando por uma transição entre um paradigma industrial para um pós-industrial, na qual Drucker (1993, p.16), em 1993, já denominava de “Sociedade Pós-Capitalista”. O autor antecipou que nessa sociedade o recurso econômico básico deixaria de ser o recurso natural e a mão de obra, passando a ser o conhecimento e que este seria utilizado para usos produtivos, diferente do sistema capitalista que utilizava o capital. Complementou dizendo que esse grupo de trabalhadores seriam “trabalhadores do conhecimento” que alocariam o conhecimento para usos produtivos. (DRUCKER, 1993, p.16)

Howkins (2013) confirma as previsões de Drucker (1993) ao analisar as mudanças que ocorreram na natureza do trabalho no final do século XX, como o aumento da produção de produtos ligados a direitos autorais dos Estados Unidos em 1997; a indústria fonográfica britânica empregando e faturando mais do que as indústrias automobilísticas, aço e têxtil em 1998 e o recorde de 169.000 patentes emitidas pela US Patent and Trademark Office, em 1999. Esses fatores mostraram para Howkins que os indivíduos estavam exercitando mais sua imaginação e, principalmente, explorando seu valor econômico.

Atualmente uma parcela crescente da população despende de maiores gastos para usufruir cultura, experiência e lazer, consequentemente, passou-se a consumir diariamente produtos criativos como moda, música, software.

Essa alteração, da maneira como as pessoas têm ideias e as detêm, juntamente com a mudança no comportamento do consumidor, constituem as principais variáveis de mudança do cenário. Todos esses aspectos sinalizam o surgimento de uma nova economia que está alicerçada na criatividade e inovação, mostrando que as práticas utilizadas no passado não cabem mais na conjuntura atual.

O resultado da dinâmica entre uma economia e a criatividade é um produto criativo que pode ser um bem ou um serviço, com um valor econômico pertencente a uma economia chamada criativa, na qual é fundamentada no intangível, no simbólico e no singular, como patentes, marcas, softwares, diferentemente dos padrões da economia convencional. (HOWKINS, 2013)

O conceito original da economia surge em 1994, na Austrália, inspirado no projeto Creative Industries que defendia a importância do trabalho criativo e sua contribuição para a economia do país (REIS, 2008). Posteriormente, ao final da década de 90, o Reino Unido buscou identificar a força motriz dentro do terceiro setor, o que se denominou mais tarde de indústrias ou economias criativas e estimulou outros países a estudar os setores criativos. (FEDERAÇÃO DAS INDÚSTRIAS DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO, 2008)

No Brasil, o conjunto de quatorze setores denominados criativos, cujas atividades produtivas têm como principal matéria-prima a criatividade e o capital intelectual são: Expressões Culturais, Artes Cênicas, Artes Visuais, Música, Filme e Vídeo, TV e Rádio, Mercado Editorial, Software e Computação, Arquitetura, Design, Moda, Publicidade, Pesquisa & Desenvolvimento e Biotecnologia.

O estudo de Mapeamento da Indústria Criativa no Brasil, desenvolvido pela FIRJAN (2012), mostrou que os setores nucleares, cujo principal insumo é a criatividade, emprega 810 mil trabalhadores no Brasil (1,7% do total de trabalhadores brasileiros) e apontou, também, que esses trabalhadores são 42% mais bem remunerados que a média nacional. No que se refere ao PIB brasileiro em 2006, os setores da economia criativa representaram cerca de 16,4%, impulsionados principalmente pelo setor de arquitetura e moda. Devido ao crescimento da empregabilidade nos setores criativos, em 2006, mais de 90 mil estudantes se formaram em cursos relacionados ao núcleo dos setores criativos. Além disso, estima-se que o conjunto de empresas pertencente à Cadeia das Indústrias Criativas totaliza mais de dois milhões, gerando R$735 bilhões ao ano, ou 18% do PIB brasileiro. (FEDERAÇÃO DAS INDÚSTRIAS DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO, 2012)

Com a inserção da temática sobre a Economia Criativa nos tópicosde debates do governo brasileiro, constatou-se necessário uma reformulação na legislação vigente, visto que não contemplava as necessidades da atual economia. Frente a isso, em 1º de Junho de 2012, a Presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, aprovou a criação da Secretaria da Economia Criativa, por meio do Decreto Nº 7743, da estrutura do Ministério da Cultura, com o objetivo de conduzir a formulação, implementação e o monitoramento de políticas públicas para o fomento aos micro e pequenos empreendimentos criativos brasileiros. (MINISTÉRIO DA CULTURA, 2011)

Sob a análise da economia criativa no Brasil, pode-se afirmar que os setores são potencialmente impulsionadores da economia atual ao gerar renda, emprego e desenvolvimento. Com a criação da Secretaria da Economia Criativa, os micros e pequenos empresários brasileiros, pertencentes aos setores criativos, estão amparados por uma legislação que visa promover e incentivar a criação de bens e serviços criativos, impulsionando uma economia capaz de acelerar o crescimento socioeconômico, gerar empregos e elevar os padrões de vida.

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