É pau? É corpo? É o fim da conversa.

O silêncio na mente dos dois pescadores só era quebrado pelo violino solo de algum mosquito. Ou pelo mergulho da isca naquelas águas sonolentas, desenhando um leve bocejar de lábios marolas. Silvino era o fazendeiro, amigo de meu pai, que pescava com o capataz e piloto da canoa. Mas foi o capataz quem viu.

É pau? É corpo? É o fim da conversa.

O silêncio na mente dos dois pescadores só era quebrado pelo violino solo de algum mosquito. Ou pelo mergulho da isca naquelas águas sonolentas, desenhando um leve bocejar de lábios marolas. Silvino era o fazendeiro, amigo de meu pai, que pescava com o capataz e piloto da canoa. Mas foi o capataz quem viu.

Aquilo na água parece um corpo, seu Silvino sussurrou o capataz.

É não - retrucou Silvino sem olhar. É um pau.
Acho que é um corpo insistiu.
Vamos ver... desistiu Silvino, antes que o ser ou não ser virasse questão.

Era um corpo. Avisada a polícia, o cadáver deu mais trabalho para o Silvino do que para o assassino. Boletim de ocorrência daqui, inquérito dali, declaração de acolá, sua vida virou um inferno. Era uma época em que cadáveres eram raros e ser delegado de interior um tédio.

Os tempos mudaram. Coisas importantes ficaram banais e coisas banais não mais. O corpo que Silvino achou então, hoje não teria encontrado. O delegado não teria perturbado, o capataz não teria enxergado. Todos estariam de costas, até peixes e mosquitos. As pessoas ficaram mais céticas, mais escoladas, mais escaldadas.

Tudo mudou, menos a comunicação de algumas empresas que insistem em comunicar como comunicavam nossos pais. Os mesmos clichês para uma geração que duvida de tudo o que cheire a blá-blá-blá. Como conquistar essa geração? Ou primeiro, como reter sua atenção?

Antes de ser competitiva no mercado, a empresa precisa ser competitiva na comunicação. Precisa chamar e reter atenção se quiser gerar ação. Pelo menos era essa a tônica de um artigo que li anunciando as "Dez Previsões Para o Novo Ano" na área de conteúdo para sites empresariais. Como escrevo para a Web, o assunto me interessou.

Por que? Porque nesta questão eu sou fornecedor, mas também sou cliente. Antes de criar textos eficazes para websites alheios, tenho que me livrar do espeto de pau de minha casa de ferreiro. Tem que funcionar para mim.

Cada vez mais gente vai à Internet procurar produtos e serviços. Então, ser encontrado ali é estratégico. Depois de atrair, reter a atenção é vital, pois o concorrente está a um clique de distância apenas.

Ninguém vai encontrar seu site bonito se ele não tiver as palavras certas. O belo só serve depois de criado o primeiro elo. Uma vez achado, é preciso ir direto ao assunto porque ninguém tem tempo a perder.

Contei cinco minutos de abertura cinematográfica, com naves espaciais, planetas e robôs ao som de uma batida high-tech, antes de aparecer um menu. Não era um site de uma banda de rock, mas de um fabricante de equipamentos industriais.

O que o seu gerente iria pensar de você assistindo uma animação assim no trabalho? Adiantará dizer que estava fazendo uma cotação? Você é quem conhece o chefe. As empresas querem resultados. Rápido.

Talento é essencial para escrever na Web. Dizer logo o que o cliente quer ouvir, destacar o que ele precisa, oferecer aquilo que resolve. Ele irá encontrar o que buscou, conversar com quem encantou e comprar o que sempre sonhou. Fogos de artifício enfeitam, mas não convencem. Ainda usamos palavras para convencer.

Tudo ia bem no artigo que li até descobrir que "As Dez Previsões Para o Novo Ano" nada mais eram do que dez serviços que ele estava tentando me oferecer. Minha confiança desmoronou. Era a raposa prevendo que este ano as galinhas mais chiques dormirão fora do poleiro. Sujou e não colou, como a conversa do capataz na pescaria dois anos depois.

O silêncio era o mesmo da outra vez. O rio, a canoa, as varas, tudo igual. Até os mosquitos. De novo mesmo, só um pau boiando perto da margem. Um pau?

Acho que é outro corpo comentou o capataz com voz lúgubre.
É um pau sentenciou Silvino.
E se for um corpo?
Serão dois se você não ficar quieto.

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    Mario Persona

    Mario Persona

    Mario Persona é palestrante, professor e consultor de estratégias de comunicação e marketing. Autor de Dia de Mudança, (c/ edição em inglês: Moving ON), Marketing de Gente, Marketing Tutti-Frutti, Gestão de Mudanças em Tempos de Oportunidades, Receitas de Grandes Negócios, Crônicas de uma Internet de verão e do e-book, Sua Empresa na Internet. Suas crônicas de vida, carreira e negócios já foram publicadas por mais de 500 jornais, revistas e sites, e participou de mais de 150 entrevistas em veículos impressos e também no rádio e TV.

    Formado em Arquitetura e Urbanismo, sua experiência profissional inclui vendas, negociação, administração, marketing e gestão de carreira. Lecionou marketing no curso de administração de empresas no Instituto Superior de Ciências Aplicadas de Limeira e no MBA de Gestão de Empresas de TI da Uninove, além de marketing de hotelaria no SENAC.

    Tradutor de procedimentos técnicos e administrativos para grandes multinacionais, é também de sua autoria a tradução para o português de livros acadêmicos, como Management 8th Ed. de Schermerhorn e International Marketing 13rd Ed. de Cateora/Graham. É convidado com freqüência para palestras, workshops e treinamentos de temas ligados ao desenvolvimento pessoal e profissional.
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