É melhor ser conduzido ou ser condutor?

Um dos temas mais estudados em empreendedorismo é justamente o loco de controle, a capacidade do empreendedor de tomar decisões sobre o seu negócio e exercer sua autonomia

Uma vez, levando meus filhos para a escola, brincando, eles falavam para mim: Vira aqui pai, agora vira aqui, me direcionando no caminho que eles tão bem conheciam. Resolvi entrar na brincadeira e, como de praxe, desafiá-los com um jogo:

- Muito bem, vocês sabem então o caminho pra escola? Com a esperada afirmativa deles, fiz a seguinte proposta:

- Então vocês vão me dirigir. Me digam aonde virar e eu vou seguir exatamente suas instruções pra gente chegar na escola. Eu não vou fazer nada que vocês não disserem OK? Mas se vocês errarem a gente vai se perder, topam?

Eles ficaram um pouco apreensivos, mas toparam, pois tinham confiança que, depois de tantas vezes fazer o trajeto comigo ou com a mãe, dominariam bem o desafio. Começou então a aventura. ‘Vira aqui à direita’, ‘agora à esquerda’, ‘vai em frente’ e assim, me ditando as direções, ficavam extasiados por estarem no controle. Até que uma hora se confundem e dão uma orientação errada. Na hora percebem algo estranho e eu continuo seguindo suas ordens. Eles tentam voltar, mas a rua fazia uma curva e ia para outro lugar. Preocupados, começam a discutir sobre o que fazer, e assim vamos nos distanciando mais ainda da escola.

‘Vamos chegar atrasados’, pensei, mas tudo bem, naquela altura da história não dava para interromper, pois uma boa lição estava nascendo. Eles começam a brigar, colocam a culpa um no outro, dão ordens desencontradas e eu vou seguindo cegamente. Então eles pedem ajuda para mim e eu digo que eu só sigo as ordens deles. Então bate a preocupação ‘Estamos perdidos’ logo percebem e se dão conta que nunca estiveram naquela parte da cidade, não reconhecem mais nada.

No fundo eu sabia que estávamos a não mais que 3 blocos do caminho correto, mas não quis interferir, eu tinha controle da situação, mas eles, que estavam no comando, não. Sem saber o que fazer, começam a se desesperar, um deles começa a chorar. E aí então eu deixo eles se esgoelarem enquanto calmamente retomo o caminho e logo chegamos à escola, para o alívio de todos.

Fiz esta brincadeira mais algumas vezes. Na vez seguinte, não quiseram brincar, mas eu falei que tinha gostado da brincadeira e que ia fazer de novo. Então eles começaram a prestar atenção no caminho, pois não queriam ser pegos de surpresa. Quando fiz novamente, eles acertaram, depois fiz outros caminhos com eles e eles aprenderam a prestar atenção em todos os trajetos, ficando com uma boa noção de espaço e distância.

Mas o que interessa nesta história não é a brincadeira ou o aprendizado sobre noção espacial e sim sobre controle. Um dos motivos mais comuns que levam pessoas a decidir abandonar o emprego e abrir um negócio próprio é a possibilidade de assumir o controle sobre sua vida, de não mais depender de um emprego, trabalho chato, chefes intolerantes e salário baixo. Ter um negócio próprio é assumir as rédeas de sua vida, do seu futuro, ser o principal responsável pelo seu sucesso. Um apelo muito convidativo, sem dúvida alguma.

O problema são as implicações desta tão propalada autonomia do empreendedor. Um dos temas mais estudados em empreendedorismo é justamente o loco de controle, a capacidade do empreendedor de tomar decisões sobre o seu negócio e exercer sua autonomia. A maioria das pessoas anseia pela liberdade, mas não estão preparadas para assumir responsabilidades sobre sua decisão.

Assim como meus filhos se desesperam com uma decisão errada sobre algo grande e importante que é decidir o caminho a ser adotado pelo carro que estão, empreendedores também podem tomar decisões erradas sobre os rumos tomados pelos seus negócios. Às vezes descobrem rapidamente e retomam o caminho, mas, quando o caminho é novo para todos, uma decisão errada pode ser fatal. Para o empreendedor de primeira viagem, com seu primeiro negócio, o caminho é sempre novo para ele.

Pode ser uma contratação errada, um crédito a um cliente que não deveria ter sido concedido, um fornecedor desqualificado, uma dívida contraída, um imposto não pago, um concorrente ignorado, um milhão de coisas podem acontecer de errado em um novo negócio por uma decisão equivocada do empreendedor.

A saída? A mesma que salvou os meus filhos. Alguém com experiência suficiente no trajeto, que conheça o caminho e saiba para onde ir, que perceba quando as coisas saíram do controle e consiga orientar as crianças, acalmá-las e dar novas orientações para retomar o caminho. Para o empreendedor, um mentor, um conselheiro ou um consultor servem para este propósito. Alguém com mais experiência e conhecimento do que o empreendedor, que já tenha tido um negócio próprio, que já tem alguma experiência para compartilhar com o empreendedor.

Outro paralelo que podemos tirar como lição é quando eu deixo os meus filhos se perderem quando estão controlando o carro. Eu poderia ignorar um comando que saia do caminho, mas eu deixo eles errarem, pois o erro é controlado, não vai causar muito prejuízo. Da mesma forma, o mentor pode, e algumas vezes, deve deixar o empreendedor errar em algumas decisões, quando ele sabe que a experiência do erro é muito mais valiosa do que evitar o erro, principalmente quando o empreendedor está seguro do que acha que é certo. Brigar com o empreendedor para tentar evitar que ele tome decisões erradas pode ser bom para o negócio, mas não necessariamente será bom para a formação do empreendedor.

Bons mentores nunca deixam seu mentorado errar. Ótimos mentores controlam os erros que seus mentorados devem cometer.

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