"É melhor mentir!"

Calma, calma! Se você acha que estou defendendo o título deste artigo, note que ele está aspeado, portanto, não se trata de um pensamento meu.

Calma, calma! Se você acha que estou defendendo o título deste artigo, note que ele está aspeado, portanto, não se trata de um pensamento meu. Mas, infelizmente, é isso que está no inconsciente da grandessíssima maioria de todos nós. Sim, porque conscientemente é lógico que sempre diremos que o melhor é falar a verdade. Mas se é assim, porque mentimos? Pois quero lhe propor uma resposta. E ela é a seguinte: é melhor mentir porque fomos ensinados que mentindo evitamos muito mais problemas de curto prazo do que falando a verdade. Ponto final! Mas mesmo assim vou explicar.

A coisa começa ainda na infância, quando nossos pais, inconscientemente, nos ensinam a mentir, mesmo dizendo que são taxativamente contra a mentira, e que dizem valorizar que seja dita a verdade. Parece incoerente, e é! A coisa é sutil, mas de terrível conseqüência. Diga-me se não é verdade o que vou te descrever a seguir. Digamos que você, ainda quando criança, fez alguma danação, mau criação, enfim, aprontou legal. Seu pai, ou sua mãe, suspeitou de algo e te chamou para a conversa. Andar cambaleante, trôpego, frio na barriga, e lá se vai você para a conversa, que mais parece uma sessão de tortura moral nos porões do DOI-CODE da ditadura. Ele, ou ela, faz uma pergunta objetiva sobre o que aconteceu, e em um tom áspero diz que quer ouvir a verdade. Você pensa: ora, se ele(a) já está falando comigo deste jeito, imagine quando eu contar o que aconteceu? De qualquer forma, você decide contar a verdade, na expectativa de ser premiado pela atitude, mesmo sabendo que será punido. O que acontece? Uma explosão! Alguns megatons traduzidos em voz e gestos. Gritos, repreensão que mais parecem coação, castigo, e por vezes palmadas. Muda logo a forma de chamar: Se nas situações de amor, era Caíque para cá, Caíque para lá, nessas horas ouve-se um sonoro Carlos Henrique Oliveira Matos!!! Burrada, grande burrada! (Desculpe-me se existe alguém com esse nome, é personagem fictício).

Com sinceridade, me responda: se nossos pais agiram assim, e se continuamos agindo da mesma forma, o que você acha que nossos filhos, nossos subordinados, nossos familiares e amigos farão da próxima vez que forem indagados sobre a verdade dos fatos? Simples! A mesma coisa que fizemos quando éramos criança: mentirão! Reações intempestivas e destemperadas são extremamente desestimulantes para a construção de uma cultura da verdade, seja em casa, nas relações sociais ou no trabalho. A verdade precisa ser bem acolhida para ser estimulada. Por mais hedionda que esta verdade possa ser.


Antes que você ache ser isso impossível, autorizo você a conversar com minha filha, Camila, 17, e com meu filho Mateus, 8, sobre este assunto. Se você mandar um e-mail agora para a Camila, ou ligá-la ao telefone, perguntando-lhe qual a única, eu disse A ÚNICA coisa que verdadeiramente me deixaria desapontado, decepcionado, frustrado em relação a ela, você receberá dela a seguinte frase como resposta: se eu mentir para ele. Confesso que o Mateus, pela pouca idade, ainda está no processo de sedimentação da idéia de que é sempre melhor falar a verdade. Ainda tem um certo receio. Mas é uma questão de tempo.

É possível que você esteja se perguntando: mas como conseguir isso? Respondo: reaja positivamente a verdade por mais negativa que ela possa ser. Não estou dizendo aceite, concorde, valide. Estou dizendo que você deve acolher positivamente o fato da verdade ter sido dita, e deve valorizar este ato, com palavras e gestos.

Deixe-me lhe contar um pouquinho de como essa coisa se processa com meus filhos. Antes de você achar que isso é mérito só meu, deixo boa parte dos créditos para a mãe deles, que também traduziu através do comportamento esta premissa de valorização da verdade. Camila tem 17 anos e conversa comigo sobre assuntos que outros adolescentes têm cólica só de imaginar, em um sonho, tratar disso com seus pais, quanto mais na realidade. Digo sem ter medo que Camila me tem, e sua mãe, como confidentes. É isso mesmo. Estou falando de falar sobre para onde foi, com quem foi, o que fez, o que bebeu. De falar sobre sexualidade, namorados, intimidades e coisas mais que parecem inimaginável. Não pense que é utópico. Os pais precisam despender muita energia contendo a energia que teima em sair na forma de explosão verbal, quando a verdade é dita, e esta verdade choca com seus paradigmas.

No momento que a Camila percebeu que era valorizada quando falava a verdade, e repreendida severamente quando mentia, ela viu que não valia à pena mentir. Construímos na cabeça dela a certeza de que sempre, sempre, sempre que ela dissesse qualquer coisa, qualquer que fosse ela, iríamos sempre ouvir e depois conversar sobre o assunto. Isso mesmo. Sem qualquer alteração de humor ou de voz, recebo a verdade, e com olhar e atitude professorais começo a conversar com ela para entender as motivações que resultaram na ação, as circunstâncias dos fatos, e principalmente as lições que podem ser extraídas do episódio. Por vezes faço isso com ela em meus braços. Ou seja, uma conversa que visa a construção de algo novo, melhor, mesmo que seja edificada sobre os escombros dos atos passados. Assim como na construção civil, a primeira coisa a fazer quando se quer edificar algo novo é remover o entulho, limpar o terreno, para depois lançar a fundação do novo prédio. Nas relações, não se consegue isso sem diálogo e respeito, e tudo isso envolto em muito amor.

Aceite agora algo. Esta filosofia de valorização da verdade é perfeitamente cabível, e não só para o ambiente familiar, mas para todas as nossas relações. Infelizmente não é isso que vemos nas empresas, nas amizades, nem nas famílias. Vemos pessoas que por terem sido instituídas de autoridade sobre outras (ou melhor dizendo, autoritarismo e poder) se acham no direito de achacá-las quando dizem a verdade. Quando olhamos para a vida de Jesus, vemos nele alguém que sabia valorizar a verdade, seja ela qual fosse. Quando conversava com a samaritana, à beira do poço, e esta respondeu que não tinha marido, Ele de forma doce e acolhedora, sem arroubos de autoritarismo ou perseguição afirmou: Disseste bem: Não tenho marido; porque tiveste cinco maridos, e o que agora tens não é teu marido; isto disseste com verdade. Jo 4. Da mesma forma, sua reação à mentira era diametralmente oposta: Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca. Mt 12:34

Quer uma verdade? Pare de valorizar a mentira. Alegre-se com a verdade, seja ela qual for. Afinal, a verdade foi dita. E tenho certeza que você não prefere ouvir a mentira, não é verdade?

Compromisso de hoje: Vou mudar minha forma de ouvir e reagir à verdade.

Abraços, bênçãos e SUCESSO!



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    Paulo Angelim

    Paulo Angelim

    Consultor e Palestrante Nacional em Marketing, Vendas, Mercado Imobiliário e Crescimento Pessoal
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