É impossível ser feliz sozinho!
É impossível ser feliz sozinho!

É impossível ser feliz sozinho!

Exemplos da força do conjunto não faltam num mundo onde as diferenças só são superadas pela conscientização do poder da unidade

Quando compôs Wave no final da década de 1960, Tom Jobim apenas celebrava a grande onda que havia mobilizado maciçamente a humanidade desde o surgimento dos primeiros resmungos ao pé da fogueira.

As equipes, bem como o trabalho em equipe, são tão ancestrais quanto os símios, mas a noção de unidade só passou a ter relevância histórica quando os romanos engenhosamente perceberam que, ao lutarem em causa comum e com o mínimo de organização, poderiam conquistar grande parte da Europa e da Ásia, numa megalomania geopolítica que persiste até os dias de hoje. No fragmento de tempo em que as falanges gregas cederam lugar às legiões romanas, todos os caminhos durante dois mil anos levaram a Roma.

O senso de equipe extrapolou os feitos militares e advogou em favor da Igreja numa era de total apego à faceta monetária do mundo.

Os Cruzados obtiveram relativo sucesso porque fizeram da unidade religiosa o combustível da vitória. Mais adiante, com os primeiros resquícios do que viria a ser a Revolução Industrial, as cidades já traziam no ventre as mazelas de que tanto damos conta e uma capacidade ímpar de organização como jamais fora visto até então, impulsionadas por um comércio dinâmico e grande poder de organização social capaz de fornecer subsídios para a fundação da Sociologia moderna. No campo, a Revolução Russa de 1917 sugeriu um modelo aparentemente estéril, mas que se mostrou efetivo ao reunir o ingrediente básico de toda a história humana moderna: a união popular. Nenhum outro trabalho de equipe consegue ser tão efetivo quanto o grito agudo da multidão para derrubar presidentes totalitários, resistir a decretos impopulares, questionar movimentos messiânicos e tantos outros desvios da gênese do homem.

Nos períodos mais promissores do desenvolvimento científico, artístico e cultural, lá estavam as equipes, reduzidas ou não, construindo o futuro. Mary Shelley, por exemplo, edificou o monumental Frankenstein, uma enigmática novela gótica capaz de exibir os limites do permissivismo humano. Fez fama e dinheiro. Nem por isso deixou de editar e promover os trabalhos de um marido sem o mesmo talento literário, mas com forte veia poética. Outro notável exemplo vem de Marie Curie. Foram anos de estudo ao lado do marido, Pierre Curie, até chegar aos excepcionais resultados sobre a radioatividade e seus efeitos. Marie é a única mulher a ganhar o Prêmio Nobel por duas vezes, mas a contribuição de seu companheiro foi tão decisiva que, não fosse as observações deste, o raio X hoje certamente não passaria de mais uma máquina futurista ao melhor estilo de Isaac Isimov.

No campo das artes plásticas, a noção de conjunto delineou toda uma concepção estética que se tornou referência para a modernidade. Leonardo da Vinci imprimiu uma identidade única ao fabuloso A Última Ceia a ponto de um nobre francês cogitar a ideia de remover o afresco para levá-lo ao seu país natal. No visionário retrato bíblico, a união dos apóstolos confere pela primeira vez uma tônica pacifista em meio ao ambiente de grandes revoltas e batalhas daquele tempo. Uma revolução e tanto para a época.

Emblemática também é a pintura O Grito do Ipiranga, de Pedro Américo, moeda fácil nos livros de História do Brasil. Teria o nobre Pedro de tamanho atrevimento sem o apoio de tantos outros bravos? O quadro passaria facilmente como Trabalho de Equipe.

Na órbita da cinematografia — uma seara hipnótica, recente e movida a inovações — o conjunto sempre representou o status quo. O que seria de um Gerard Depardieu autossustentável em 1492 - A conquista do Paraíso? Garotos excluídos socialmente teriam alguma chance sem a liderança monumental e enérgica de Samuel L. Jackson em Coach Carter – Treino para a Vida? Como lidar com a perda de sua essência, se tivesse que conviver com isso sozinho? Christian Bale em O Império do Sol talvez tenha a resposta.

Exemplos da força do conjunto não faltam num mundo onde as diferenças só são superadas pela conscientização do poder da unidade. Assim, o que era um, torna-se dois, e assim sucessivamente. O frágil desmoraliza-se diante da esperança de um mundo melhor e mais unido.

Mas há fonte de atritos. Equipes pouco funcionais parecem sucumbir mesmo quando o privado inibe o público, quando o ególatra do escritório se projeta sobre a beleza do time. Um casamento que fracassa nada mais é que uma parceria inconsistente ou o trabalho de equipe de uma única pessoa. Quando funciona, no entanto, todo o mérito é do conjunto da obra.

Bom mesmo é ouvir o que Wave tem a nos dizer:

— Fundamental é mesmo o amor. É impossível ser feliz sozinho.

ExibirMinimizar
aci institute 15 anos compartilhando conhecimento